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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

Patrocínio, com a sua palavra, fogosa, em reptos de eloqüência, fazia a descrição da vida infeliz dos escravos. "Nos verdes pastos ubérrimos andavam as ovelhas com as suas crias, as mães negras entanto, eram separadas dos filhos, que ficavam vagindo no fundo das senzalas enquanto as miserandas, com os peitos pojados e os olhos inundados de lágrimas, ao sol inclemente, zurzidas pelo vergalho do feitor, iam capinando as ruas dos cafezais. O esposo negro sofria calado todas as injúrias, até a desonra. Alguns, mais violentos, arremetiam armados caindo sobre os miseráveis que os infamavam e, ensangüentados, fugiam para as brenhas, onde levavam vida selvagem, de feras, encurralados em cavernas; outros buscavam a morte e, as vezes, quando as turmas seguiam para o serviço, estacavam perto de uma árvore de onde pendia, oscilante, o corpo de um parceiro.

Nos 'troncos' gemiam vítimas; e muitos caminhavam arrastando algemas pesadas e, com gargalheiras, como galés, trabalhavam pela frutificação, fecundando a terra que iam regando com suor e lágrimas."

Quantas vezes era a palavra flamejante do tribuno cortada pelos apartes dos secretas, que se metiam entre o povo para perturbar o propagandista com assuadas e ameaças. Quase sempre, porém, eram repelidos à bengala, à pedra, às vezes à bala, abandonando o teatro diante da fúria da multidão e o orador, serenando o tumulto, continuava, anunciando para muito breve "a grande misericórdia".

Todos os moços acompanhavam-no: Octavio Bivar, Luiz Moraes, Fortúnio, Neiva, Ruy Vaz, Anselmo e Pardal que chegara do Recife com dois romances, uma gravata sangüínea, idéias explosivas e a carta de bacharel.

Era um tipo romântico de mosqueteiro, um d'Artagnan de olhos azuis, pele branca e macia, mãos delgadas, cabelos louros, violentamente atirados para trás, bigodes impertinentes, espichados em duas pontas finas, compridas e rijas e a mosca que ele retorcia amiúde, rindo sarcasticamente, em rinchavelhada irresistível, riso percuciente, satírico que valia por uma vaia quando irrompia da platéia ou do fundo de um camarote.

Era ousado e, como brandia a bengala nodosa, esgrimindo, tinham-no por espadachim, um cavaleiro de Eon, e temiam-no.

Era um anjo, dizia o Neiva: — O Pardal anda a provocar duelos e quer sangue, quer devastação, tem fome de fígados humanos, pois mostrem-lhe aí um velho enfermo ou uma criancinha com frio e hão de ver como se desfaz em lágrimas. É até capaz de empenhar os bigodes.

Pardal não ia às conferências sem o seu revólver e uma faca na cava do colete. Todos falavam, o povo já os conhecia: eram os discípulos do Messias da raça negra.

Entre os artistas a idéia tinha fanáticos. Os Bernadelli eram dos mais entusiastas. No teatro: Dias Braga, Vasques, Guilherme de Aguiar, Arêas, Galvão, Peixoto, Mattos, Eugênio de Magalhães, Maia, Ferreira, André, Castro, Suzana,

Oudin, Balbina, Clélia. Entre os músicos Pereira da Costa, Miguez, Tavares, Nascimento, a doce Luíza Regadas, alma meiga, o rouxinol da propaganda e Francisca Gonzaga, a maestrina.

O Amazonas já se havia libertado. Não se contava mais um escravo nas margens do rio-mar e o Ceará, seguindo o exemplo da sua irmã do Norte, concluiu, num dia, a obra intrépida dos jangadeiros, iniciada nas águas pelo valoroso caboclo Nascimento.

Na serra paulista, entre as grandes árvores, crescia o quilombo de Jabaguara, engrossado diariamente por bandos foragidos que chegavam dos mais longínquos municípios da terra dos Andradas.

Era impossível sustar a marcha triunfante da idéia que vencera as represas. A tropa confraternizava com o povo e, nas duas câmaras, era grande a maioria dos abolicionistas a cuja frente destacava-se, como a de um Apolo, a válida e simpática figura de Joaquim Nabuco.

Patrocínio, desligando-se, com saudade, da Gazeta da Tarde, havia fundado a Cidade do Rio chamando Anselmo, que andava em disponibilidade, sem casa e sem botinas, escrevendo contos e fantasias à mesa dos cafés, jantando, nem sempre, parcamente, na rua Nova do Ouvidor, onde, de quando em quando, havia lautos banquetes, com discursos, a 500 réis por boca, duas moringas de água inclusive.

Esse hotel módico e discreto, pelos grandes e inolvidáveis serviços que prestou à literatura, às Artes e ainda ao funcionalismo, merece menção especial e honrosa.

Dava almoços e jantares a quinhentos réis. Mas que almoços! E que jantares! O primeiro prato era: um começo; o segundo: uma continuação; o terceiro: um último. Enquanto os Ugolinos devoravam ouviam os caixeiros que, em mangas de camisa, vociferavam: "Dois começos...! Olha três últimos...! Duas continuacões...!" Não eram abundantes os pratos nem saborosos, mas nutriam, e tanto bastava. Como havia um gabinete reservado eram ali realizados, de tempos a tempos, suntuosos festins.

(continua...)

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