Por Coelho Neto (1890)
— Cumu é, mái? — perguntou curiosamente, com os olhinhos muito vivos, uma rapariguinha já púbere, dirigindo-se à velha cabocla que, de cotovelos fincados na amurada, o rosto nas mãos, olhava perdidamente.
— Eu sei, muié...
— O moço está falando.
— Apois... E continuou na mesma posição contemplativa. — É uma igreja, explicou Anselmo.
— Ahn...
— Igreja? — perguntou a rapariga.
— Sim.
— É igreja, mãi.
— É sua filha? — perguntou Anselmo.
— Nhôr sim, esses todos; e unzinho ficou lá. E os olhos da filha elevaram-se para o céu, como se o pequenino filho perdido lá andasse pela altura azul.
Cantavam perto uma cantilena melancólica. Ó noites serenas luar do Norte, ó ameníssimos serões nas serras, ó descantes varandas, enquanto o gado recolhido muge! Que saudade! uma voz atroou:
— Vamos, gente! Nada de choro! Isto aqui é a nossa terra, somos todos irmãos. Toca a embarcar. Vivo! Vivo! Anda, velho! Vocês nem parecem do Ceará, terra de jangadeiros. Onde se viu um cearense ter medo do mar? Vamos! Vamos! Era o Neiva.
O boêmio guiava como pastor o grande e infeliz rebanho humano. Já haviam chegado os batelões que deviam transportar a leva para a ilha das Flores. Os rebocadores faziam ruído espadanando, e a negralhada chacoteava dos batelões, rindo da pobre gente que descia aos rebolões pela escada oscilante do navio, apinhando-se nos transportes, como animais. As mulheres, sobraçando trouxas, rezingavam dando safanões nas crianças que seguiam receosamente, quase de rastos. Os homens levavam as cargas: canastras, cofos, redes enroladas, gaiolas de pássaros, a viola. E todos falavam, gritavam uns pelos outros, procuravam-se com ânsia. Às vezes, do meio da escada, tornavam ao navio, gritando:
— Mariazinha! Eh, muié... caminha! E lá iam a correr precipitadamente, e o Neiva sempre a animá-los:
— Vamos! Vamos! O outro tem de atracar. Vivo com isso. Nada de choros; ninguém vai morrer. Vamos! E o rebanho infeliz descia chapinhando na lama do convés, onde havia detritos imundos, trapos, cascas de frutas e trouxas sórdidas.
Vamos! Não há tempo.
Por fim o batelão cheio, entupido de gente, tão sobrecarregado que as bordas iam quase rentes de água, começou a mover-se lentamente, arrastado por um rebocador e do meio sinistro daquele povo, que o sol inclemente havia banido da terra natal, como de um só peito, foi subindo, dolentemente, uma cantiga sertaneja. E o batelão seguia. Os de bordo acompanhavam-no com os olhos entristecidos. E o canto magoado foi crescendo, tornando-se mais forte, mais forte, enchendo os ares, e, sob o azul do céu, na mansidão daquelas águas lisas, por muito tempo não se ouviu outro ruído. Os próprios catraieiros indiferentes calaram-se escutando, com piedoso interesse, a canção do êxodo, hino triste do campo abandonado, lírica suave da terra que além ficara, canto do monte e do campo, doce e rústica poesia que lembrava o para sempre perdido, a doce província das palmas verdes, dos verdes mares, inclemente e sempre amada.
E lá ia, já longe, o batelão, o canto, porém, parecia estar ali perto, dentro do navio... e estava! Porque os que haviam ficado, esperando que atracasse o outro batelão, filhos da mesma terra, vítimas da mesma dor, repetiam, como em eco, a mesma cantilena.
Ah! Seu Anselmo!... — disse apenas o Neiva com a voz presa e os olhos arrasados de água.
CAPÍTULO XXIII
A idéia da abolição ia ganhando terreno: a palavra "escravocrata" tornou-se um labéu, até fazendeiros faziam garbo em dizer-se abolicionistas e, quase diariamente, chegavam cartas do interior e notícias que eram publicadas nos jornais, precedidas de comentários lisonjeiros anunciando que fulano ou beltrano libertara todos os seus escravos, conservando-os na fazenda como colonos.
Com a partida do imperador para a Europa, começando a regência da princesa Isabel, logo correu que o monarca, compreendendo que a idéia republicana começava a impor-se, ameaçadora e forte, deixara a filha no poder com instruções para que assinasse o decreto que o povo, do Norte ao Sul, reclamava, julgando que, assim, criando uma corrente simpática, manteria a dinastia ameaçada pela temerária propaganda republicana que tinha em Silva Jardim o principal campeão.
Aos domingos o povo enchia o "Recreio", onde os mais ardentes abolicionistas iam protestar do palco e dos camarotes em discursos inflamados contra o cativeiro reclamando, com ameaças ao trono, a abolição imediata e incondicional.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.