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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Senti bem que a minha entrevista estava terminado e despedi-me. Segui o alvitre do Senador e imediatamente redigi a explicação que ia dar ao público e aos meus amigos. Publiquei-a nos “a pedidos” do Jornal do Comércio e, nela, eu dizia que, tendo tomado aquele nome ao acaso, para, mais em sossego e segurança, inspecionar os serviços do Ministério, sem me lembrar que era o do eminente político eleito governador dos Carapicus, a multidão, sem verificar identidades, mas apaixonada pelo nome que representava o seu ídolo, que resumia uma sua esperança de farta prosperidade, obrigou-me a ir tomar posse do alto cargo. Quem conhece a psicologia das multidões, dizia eu, sabe perfeitamente como essas coisas se passam e diante delas qualquer de nós tem e se curvar às suas vontades, como nos curvamos diante das manifestações das forças da natureza. Elas são o raio, o vento, a chuva, ao mesmo tempo; elas são verdadeiros cataclismos. Apontava testemunhas, citava episódios, e fiquei mesmo contente com o meu escrito.

No dia seguinte, resolvi-me a procurar o Bonifácio, no palácio governamental. Havia, na sua antecâmara, mais de cinqüenta pessoas, metade das quais eram mulheres, moças bem postas e galantes.

A ansiedade se estampava naquelas caras e, em muitas, havia também o vexame.

O Estado é o mais forte desmoralizador do caráter. Mais que os vícios, o álcool, o jogo, a morfina, a cocaína, o tabaco, ele nos tira toda a nossa dignidade, todo o nosso amor-próprio, todo o sentimento de realeza de nós mesmos.

Muitas daquelas eram pessoas de cultura, de educação; entretanto, para obter isso ou aquilo, se tinham que agachar, que adular um tal Bonifácio que, no fim de contas, não passava de um criado do Sr. Presidente.

Depois disso, que sensação delas mesmas poderiam ter? Fossem servidas ou não, sairiam degradadas.

Bonifácio passou por nós e entrou no seu gabinete. Todos nós nos desfizemos em sorrisos e cumprimentos e, quase sem nos corresponder, como se fosse um imperador, foi atravessando aquela chusma de súditos necessitados.

O seu tipo físico não lhe dava majestade, mas arrogância. Era baixo, com o pescoço enterrado nos ombros; a roupa assentava-lhe mal, embora fosse cara de preço e de alfaiate. No seu rosto acobreado com malares salientes, os seus olhos pardos e pequenos morriam sem brilho. Donde lhe vinha aquele poder de Charles Martell? Donde lhe vinha aquela dominação extraordinária? Ninguém sabia. O certo, porém, é que ele se pusera acima de tudo e não havia objeção legal que detivesse os seus caprichos.

Tardei muito em ir à sua presença, pois fui um dos últimos. Quando atravessava a porta do seu gabinete, veio-me ao espírito uma pequena dificuldade. Como devia tratá-lo? Sabia que tinha uma patente da guarda nacional, mas de que posto ignorava. Seria melhor tratá-lo de Doutor e, logo que me pus na sua frente, fui dizendo, sem reflexão:

— Doutor...

Estava quase a arrepender-me, mas notei que ele não se aborrecera. Ao contrário; a sua má fisionomia tomara uma rápida expressão de satisfação. Continuei:

— Doutor, eu sou o Dr. Gregory Bogoloff que...

Bonifácio adiantou-se e interrompeu-me:

— Sei. Li sua explicação. Sente-se, pois preciso falar-lhe demoradamente.

Animei-me com acolhimento tão lisonjeiro e eu mesmo me disputei em baixeza e adulação:

— Vi logo que o esclarecido espírito de V. Exa. Ficaria satisfeito com as minhas palavras.

— Não digo que não, mas há um ponto que não está bem explicado.

— Qual é, Doutor?

— Por que você (gostei da mudança) não fugiu?

— Não havia meios. Temi que na estrada de ferro me reconhecessem e...

— Mas podia fugir de canoa para o Estado das Abóboras, que fica perto.

— Perto! São duzentos quilômetros!

— Tanto? No mapa ficam tão juntos!

— Ah! Isto é no mapa.

— Bem. São coisas de astronomia que não entendo. A minha preocupação é não deixar o Simplício ser embrulhado, por isso meto-me nessas coisas... Só quero amigos no governo dos Estados.

— V. Exa. faz muito bem, porque não faltam aí traidores. Aprovo “in totum” o procedimento de V. Exa. O governo e as leis são feitos... — Leis! Bacharelices! Espoliações!

Expliquei-lhe que desejava a minha reintegração, tanto mais que eu era inocente, como se havia verificado.

— Não posso fazer isso que você pede. O lugar já foi preenchido, mas não faltará ocasião para servir ao amigo. Conte comigo.

Deu-me uma amigável palmada no ombro e eu sai certo de que ele não me arranjaria coisa alguma. Vendo-me nessa situação, tratei de liquidar a minha casa, apurar o dinheiro que pudesse e viver o mais economicamente possível.

Vivi assim cerca de seis meses folgadamente, mas ao fim desse tempo, começou o dinheiro a escassear e eu passava os dias a arquitetar planos que me fizessem sair do embaraço.

(continua...)

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