Por Coelho Neto (1890)
Havia um rumor indistinto: eram risadas, cantilenas, suspiros, gritos, choros, pragas. Uma viola gemia escondida. Mas dominava o grande zumbido da colméia a grasnada ruidosa dos papagaios que os retirantes traziam como lembrança da terra.
O Neiva ia de um a outro grupo, falava, interrogava, querendo saber de onde eram, se haviam sofrido muito, se a seca ainda era grande e os infelizes, como se logo, à primeira vista, houvessem nele reconhecido um patrício, uma vítima, talvez, do mesmo flagelo, cercavam-no com simpatia e confiança. Os que estavam longe avizinhavam-se de chapéu na mão, respeitosamente, narrando as suas desgraças. O Neiva afagava as crianças, animava os moços e as raparigas:
— Vocês aqui estão muito bem: a terra é boa, a gente é boa, ganha-se muito dinheiro. Depois, é o mesmo Brasil. Vocês não são brasileiros?
Um velho, com uma longa camisa que lhe descia aos joelhos por cima das calças, acenou com o dedo negativamente:
— Nhôr não.
— Como! Então você não é brasileiro, velho?
— Cearense té morrê! — disse atirando uma cusparada por entre os dentes.
— Então o Ceará não é uma província do Brasil, velho?
— Iche! Ceará é dele só... té morrê. E foi-se resmungando convencidamente. Té morrê.
O Neiva rompeu a rir e perguntou:
— Até morrer, heim?
— E o velho, de longe, sacudiu a cabeça, repetiu: — Té morrê!
Uma mocinha mais desembaraçada interrogou o boêmio:
— Mecê é nortista?
— Cearense! Cearense da gema.
— Logo vi! Só gente do norte é que fala ansim.
O velho, como se houvesse sido interrogado, resmungou novo: Té morrê!
— Lá está ele.
Um caboclo pôs-se a assobiar uma cantilena de vaqueiro. Com que melancolia o infeliz ia rememorando o tempo feliz na terra natal: a cavalo campina fora, a vara de ferrão em punho, tocando os marroás atrevidos.
— Eh! Patrício...! Você era vaqueiro?
O caboclo acenou com a cabeça que sim, e continuou a assobiar. Anselmo apartou-se querendo ver miudamente aquele quadro sinistro de miséria. O navio lembrava a jangada da Medusa: os homens, com raras exceções, tinham fisionomias espectrais, como se viessem de urna longa tortura. Junto à amurada descobriu uma velhinha encarquilhada, encolhida nos andrajos, o cachimbo nos beiços, olhando a fito. Parecia uma bruxa em evocação.
— E! Velha! A megera meneou com a cabeça tristemente, como se o saudasse. Você veio só, minha velha? Ela acenou negativamente. Veio com seu marido? Ela riu num pincho... Com seu filho?
— Muié... disse ela.
— Sua filha?
— Hen-hen.
— Que é dela?
— No má... eles botaram no má.
— Morreu?
— Hen-hen...
— De que, velha?
Encolheu os ombros e repetiu:
— Botaram no ma.
— E você não tem mais parentes aqui?
— Nhôr não.
— Nem conhecidos?
— Nhôr não.
— Está só?
— Nhôr sim.
— Como te chamas?
— Maria Nazareth.
— De onde és?
— De Sobrá.
— Que idade, velha?
— Não sei... não sei mais. Oie, idade tá aqui, moço. E puxou uma falripa branca.
Adiante estava um pequenote de pernas finas, quase nu, com um cachimbo nos beiços e uma mulher nova, sentada na rede, com o peito descoberto, amamentava um monstrengo encarquilhado.
Deslizando sobre a lama escorregadia que, em espessa camada, empastava o navio, Anselmo foi seguindo lentamente, detendo-se diante dos grupos, a olhar, a interrogar.
Junto à amurada uma família olhava a cidade, ao longe, muito branca, reverberando ao sol com o casario acumulado, as torres agudas das igrejas hirtas como que espetando o céu e o fundo de montanhas em recortes irregulares, sob uma pulverização de ouro. Como que vinha na brisa o grande rumor da vida agitadíssima daquele pandemônio, misterioso para os sertanejos que chegavam dos campos e das serras, tendo deixado a grande e rude natureza agreste.
No mar também era incessante o movimento de botes e de lanchas. Faluas corriam a todo o pano, outras passavam arrastadas pelos rebocadores. Um grande transatlântico saia partindo o mar, deixando um fundo sulco nas águas lisas, que logo inchavam em ondas, nas quais subiam e baixavam os leves botes mercantes. Os couraçados, quietos como ilhas, pareciam embandeirados: era a roupa da maruja que secava à proa, e as grandes barcas como casas errantes, cruzavam-se serenas em caminho para Niterói e outras para a Corte. E eram silvos e uivos e dos botes que atracavam ao paquete subia gente ansiosa. Um empregado da Alfândega, de boné, falava ao comandante e um velha mulher, que entrara com grande espalhafato, ia e vinha atordoada, fazendo momos de nojo, a olhar de esguelha os miseráveis que recordavam a terra, abandonada.
Terra simples, mas bem mais formosa para eles do que a grande cidade que aparecia além alvadia, luminosa, de uma grandeza imponente.
Anselmo deteve-se junto da família rústica e um velho, tipo patriarcal, fisionomia bíblica, longa barba a descer-lhe do rosto macilento ao peito côncavo, dando com ele, sorriu, fazendo um leve aceno de cabeça:
— Deus salve a vosmicê. Que coisa é aquela ali, moço? Aquilo no meio das casas que parece um ovo, mal comparando.
— É a Candelária.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.