Por Padre Antônio Vieira (1655)
73. Mas já que somos tão corporais e damos tanto crédito aos olhos, os mesmos olhos quero que nos digam e que confessem o que é a alma. Quereis ver o que é uma alma? Olhai, diz Santo Agostinho, para um corpo sem alma. Se aquele corpo era de um sábio, onde estão as ciências? Foram-se com a alma, porque eram suas. A retórica, a poesia, a filosofia, as matemáticas, a teologia, a jurisprudência, aquelas razões tão fortes, aqueles discursos tão deduzidos, aquelas sentenças tão vivas, aqueles pensamentos tão sublimes, aqueles escritos humanos e divinos que admiramos, e excedem a admiração, tudo isto era a alma. Se o corpo é de um artífice, quem fazia viver as tábuas e os mármores? Quem amolecia o ferro, quem derretia os bronzes, quem dava nova forma e novo ser à mesma natureza? Quem ensinou naquele corpo regras ao fogo, fecundidade à terra, caminhos ao mar, obediência aos ventos, e a unir as distâncias do universo, e meter todo o mundo venal em uma praça? A alma.
74. Se o corpo morto é de um soldado, a ordem dos exércitos, a disposição dos arraiais, a fábrica dos muros, os engenhos e máquinas bélicas, o valor; a bizarria, a audácia, a constância, a honra, a vitória, o levar na lâmina de uma espada a vida própria e a morte alheia: quem fazia tudo isto? A alma. Se o corpo é de um príncipe, a majestade, o domínio, a soberania, a moderação no próspero, a serenidade no adverso, a vigilância, a prudência, a justiça, todas as outras virtudes políticas com que o mundo se governa: de quem eram governadas, e de quem eram? Da alma. Se o corpo é de um santo, a humildade, a paciência, a temperança, a caridade, o zelo, a contemplação altíssima das coisas divinas, os êxtases, os raptos, subido o mesmo peso do corpo e suspendido no ar: que maravilha! Mas isto é alma. Finalmente os mesmos vícios nossos nos dizem o que ela é. Uma cobiça que nunca se farta, uma soberba que sempre sobe, uma ambição que sempre aspira, um desejo que nunca aquieta, uma capacidade que todo o mundo a não enche, como a de Alexandre, uma altiveza como a de Adão, que não se contenta menos que com ser Deus. Tudo isto, que vemos com nossos olhos, é aquele espírito sublime, ardente, grande, imenso: a alma. Até a mesma formosura, que parece dote próprio do corpo, e tanto arrebata e cativa os sentidos humanos, aquela graça, aquela proporção, aquela suavidade de cor; aquele ar, aquele brio, aquela vida: que é tudo senão alma? E se não, vede o corpo sem ela, insta Agostinho: Non facit corpus unde ametur, nisi animus? Aquilo que amáveis e admiráveis não era o corpo, era a alma: Recessit, quod non videtur, remansit quod cum dobre videatur: Apartou-se o que se não via, ficou o que se não pode ver. – A alma levou tudo o que havia de beleza, como de ciência, de arte, de valor, de majestade, de virtude, porque tudo, ainda que a alma se não via, era a alma. Viu S. Francisco de Borja o corpo defunto e disforme da nossa imperatriz Dona Isabel, e que lhe sucedeu? Pela diferença do corpo morto, viu naquele espelho o que era a alma, e como viu o que era a alma, deixou o mundo. Não nos enganara o demônio com o mundo, se nós víramos e conhecêramos bem o que é a alma. Mas já que a não podemos ver em si, vejamo-la em nós; no que o corpo há de sei; vejamos o que ela é.
V
O verdadeiro tudo deste mundo e do outro é a alma, não é o mundo. Deus, o negociador do Evangelho, que deu tudo o que tinha por uma alma. Depois desta última tentação, quando torna o diabo a tentar a Cristo? Como se ajoelha Cristo diante de Judas, se já o demônio tinha entrado nele? Quantos não dobram o joelho ao demônio, não pelo mundo todo, senão por umas partes tão pequenas dele!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 31 ago. 2026.