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#Sermões#Retórica

Sermão da Rainha Santa Isabel

Por Padre Antônio Vieira (1674)

22.O mesmo digo de Isabel. Entrava Isabel nos hospitais que ela e seus antecessores tinham edificado, concorriam a Isabel os enfermos de todas as enfermidades. E que sucedia? Ia Isabel fazendo o sinal da cruz sobre eles: os cegos viam, os mudos falavam, os surdos ouviam, os mancos e aleijados saltavam, os mortos, os que estavam para morrer ressuscitavam: Magnum prorsus reginam ista demonstrant. Dizei às outras rainhas, e aos outros reis, que façam isto com todo seu poder. Fazer mancos, fazer aleijados, fazer cegos, fazer estropiados, isso fazem os reis, e isso podem. E se não, ide a essas campanhas, a estes exércitos, e a essas cortes: uns em muletas, outros arrastando; uns sem pernas, outros sem braços; uns sem olhos, outros sem orelhas, outros pedindo esmola com os dedos, porque não têm língua; outros sem casco na cabeça, meio atontados; outros sem queixadas no rosto, horríveis e disformes. Homens miseráveis, homens que não sois homens, senão parte de homens: quem vos pôs neste estado? Padre, o serviço de elrei. Fomos à guerra, e dela escapamos desta maneira. Isto é o que podem fazer os reis, e tanto mais quanto mais poderosos. Não assim Isabel. Era rainha que restituía braços e pés, e olhos, e ouvidos. Ver a majestade e pompa com que se diz dos reis que são senhores da vida! Senhores da vida? Leiam à margem destes títulos à glosa de Cristo: Nolite timere eos qui occidunt corpus.21 São senhores da vida para a tirar; para a dar, não. Se sois delinqüente, podem-vos matar por justiça; se sois inocente, podem-vos matar por tirania; se tendes pouco juízo e pouco coração, podem-vos matar com uma carranca, ou com um voltar de olhos, mas dar vida ou saúde, não é da jurisdição dos reis. Assim o confessou um rei mais verdadeiro que todos: Nolite confidere in principibus, in quibus non est salus.22 Isabel, sim, que era senhora da saúde e da vida, e por isso maior rainha que todas as rainhas: Mognum prorsus reginam ista demonstrant.

V

A reverência do Tejo a Isabel, e a irreverência do Jordão à Arca.

23. Outra demonstração em maiores corpos. Chega Santa Isabel a Santarém, para atravessar o Tejo. Estava prevenida uma galé real para a pessoa, gôndolas e bargantins toldados para a corte: mas, em aparecendo Isabel na praia, abre-se o rio de repente, levantam-se dois muros de Cristal de uma e outra parte, os peixes, como às janelas, em cardumes e atônitos, pasmando da maravilha, e Isabel caminhando sobre o seu bordão por aquela rua nova, juncada de limos verdes, mas sobre areias de ouro. Não é afetação minha, que já o disse o Espírito Santo em caso semelhante: Campus germinans de profundo ninio.23 Passemos agora de Portugal à Palestina, e do Tejo ao Jordão. Para o Jordão à vista da Arca do Testamento, cabeça também coroada: Facies que supra coronam aureum per circuntum24 – Pinta o caso Davi, e exclama: Quid est tibi mare quod fugisti, et tu Jordanis, quia conversus es retrorsum (Sl. 113, 5)? Rio que paras, mar que foges, que é o que viste? – Bizarra e elegante prosopopéia de Davi, mas em pequeno teatro; maior é o nosso. Que rio e que mar eram aqueles com quem falava Davi? O mar era o Mar Morto, chamado por outro nome Vallis Salivarum, porque era uma saliva do oceano.25 Cuspiu o Oceano, e fez aquele mar. O rio era o Jordão, composto de dois regatos, um o Jor, outro o Dan, que para terem cabedal com que ir morrer no Mar Morto, se ajuntaram e fizeram companhia um com outro. Esta era a grandeza do rio, a quem aquele pequeno lago engolia de um bocado, como diz o profeta: Et fiduciam habet quod influat Jordanis in os ejus.26

(continua...)

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