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#Sermões#Retórica

Sermão da Quarta-Feira de Cinza

Por Padre Antônio Vieira (1673)

Agora me não espanto que Deus não deferisse a petição de Davi, porque o despacho, se ele quisesse, estava na sua mão. Que dizia Davi, e que pedia a Deus? Pedia que Deus lhe revelasse o fim de sua vida: Notum fac mihi Domine finem meum (Sl. 38, 5). E para Davi, ou qualquer outro homem, sem ser profeta, saber o fim de sua vida, não é necessário que Deus lho revele. Se eu quero saber o fim de minha vida, ponha-lhe eu o fim, e logo o saberei. Então será verdadeiramente fim meu: Finem meum, porque será livre, e não necessário; será voluntário, e não forçoso; será da minha eleição e do meu merecimento; será, enfim, fim da minha vida, e não da vida que não é minha, porque só é minha a presente, e não a futura. Que mais pedia e queria Davi? Et numerum dierum meorum: queria saber a conta dos seus dias. Inútil desejo, e escusada petição. Pedia o que não importa nada, e deixava o que só importa. Não quero saber a conta aos dias da vida futura; quero saber conta, e tomar conta aos dias da vida passada. Não quero saber de Deus a conta dos dias que hei de viver; quero saber de mim a conta que hei de dar a Deus dos dias que tenho vivido. Esta é a necessária e verdadeira conta dos nossos dias. Finalmente a que fim pedia Davi esta revelação? Ut sciam quid desit mihi: Para saber; diz ele, o que me falta. – E que importa saberdes o que vos falta, se é melhor não o saber? Não quero saber da vida o que me falta; quero ignorar o que me sobeja. Quem sabe quando há de morrer, sabe os dias que lhe faltam; quem morre antes de morrer, ignora os dias que lhe sobejam, e esta ignorância é melhor que aquela ciência. Que maior felicidade na incerteza da morte, que sobejar-me a vida? Aos que acabam a vida com a morte, falta-lhes a vida; aos que acabam a vida antes de morrer, sobeja-lhes. E sequer estes sobejos da vida não os dareinos de barato a Deus e a alma? Mas vamos à última dificuldade.

V

O maior perigo da morte: ser momentânea. A morte, instante que se desata do tempo que foi, e não se ata com o tempo que há de ser. O exemplo de Carlos Quinto, de Davi e de Jó. S Antônio e sua preparação para a morte. Meter tempo entre a vida e a morte.

A última dificuldade e o maior perigo e aperto da morte, é ser momentânea. Que coisa é morte? Momentum unde pendet eternitas: um momento donde pende a eternidade, ou por melhor dizer; as eternidades. – O momento é um, e as eternidades que dele pendem são duas: ou de ver a Deus para sempre, ou de carecer de Deus para sempre. É uma linha indivisível que divide este mundo do outro mundo; é um horizonte extremo, donde para cima se vê o hemisfério do céu, e para baixo o do inferno; é um ponto preciso e resumido, em que se ajunta o fim de tudo o que acaba, e o princípio do que não há de acabar. Oh! que terrível ponto este, e mais terrível para os que nesta vida se chamam felizes. Ducunt in bonis dies suos, et in punto ad inferna descendunt.16 Se este ponto tivera partes, fora menos temeroso, porque entre uma e outra pudera caber alguma esperança, alguma consolação, algum recurso, algum remédio, mas este ponto não tem partes, nem ata, ou se ata com partes, porque é o último. O instante da morte não é como os instantes da vida. Os instantes da vida, ainda que não têm partes, unem-se com partes, porque unem a parte do tempo passado com a parte do futuro. O instante da morte é um instante que se desata do tempo que foi, e não se ata com o tempo que há de ser, porque já não há de haver tempo: Et tempus non erit amplius (Apc. 10,6). Não vos parece que é terrível coisa ser a morte momentânea? Não vos parece que é terrível momento este? Pois eu vos digo, que nem é terrível, nem é momento, para quem souber fazer pé atrás a acabar a vida antes de morrer; porque ainda que a morte é momento, e não é tempo, quem acaba a vida antes de morrer; mete tempo entre a vida e a morte.

(continua...)

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