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#Sermões#Retórica

Sermão do Mandato

Por Padre Antônio Vieira (1670)

Primeiramente, assim o entendeu S. Basílio de Selêucia, quando disse: Ut ascensum praepediat Christus, passionem subbit illubens.19 Mas eu o provo do mesmo texto: Calix iste. Aquele iste é distintivo, é demonstrativo e é relativo. Enquanto distintivo, distingue um cálix do outro, enquanto demonstrativo, demonstra cálix presente, e não futuro; enquanto relativo, refere-se ao que ficava dito imediatamente antes. E que é o que dizem imediatamente antes os evangelistas? Todos referem o sentimento de Cristo naquele passo, e a repugnância e violência excessiva, com que se aportava dos discípulos. S. Lucas: Avulsus est ab eis, et positis genibus, orabat, dicens: Pater; si vis, transfer calicem istum a me.20 S. Mateus: Sustinete hic, et vigilate mecum; et progressus pusillum procidit in faciem suam, orans et dicens: Pater mi, si possibile est, transeat a me calix iste.21 Assim que a ação ou sentimento atual, sobre que caiu o transeat a me calix iste, era a dor, a dificuldade, a repugnância, a violência com que o Senhor se aportava, ou provava a se aportar dos discípulos, logo este mesmo aportamento, e a apreensão dele tão presente, tão viva e tão rigorosa, era o cálix que o seu amor e o seu coração tanto recusava. Confirma-se admiravelmente do mesmo texto, porque dele consta, que três vezes no mesmo tempo e no mesmo Horto se aportou o Senhor dos discípulos, e três vezes, imediatamente, tanto que se aportava, repetia a mesma petição. Assim o pondera S. Mateus. A primeira vez, no texto que acabamos de referir; a segunda: Secundo abiit, et oravit dicens: Pater mi, si non potest hic calix transire; e a terceira: Iterum abiit, et oravit tertio eundem sermonem dicens.22 Em suma, que a cada novo aportamento se seguia nova resistência: a cada novo aportamento, nova instância; a cada novo aportamento, nova apelação do cálix. Logo este era e não outro.

E verdadeiramente que se o mesmo aportamento não fora o cálix, ou a matéria dele, nunca os evangelistas se puseram ao descrever e encarecer com tão particulares e miúdas advertências. O avulsus est ab eis de S. Lucas já o ponderamos. O progressus pusillum de S. Mateus não é digno de menor ponderação e piedade. Diz o evangelista que se aportou o Senhor: pusillum: um pequenino. Vede a dificuldade, vede o tento, vede o receio com que se aportara. Pusillum: um pequenino. Não contava os passos, mas media e pesava os indivisíveis, porque em cada um se dividia. Pusillum: um pequenino. Como quem tocava o cálix para provar se o poderia beber, e não se atrevendo a o levar, parava, e não ia por diante. E como este aportamento mínimo era tão violento para o coração de Cristo, e lhe parecia coisa impossível o poder-se aportar de todo, por isso intentava impossíveis pelo estorvar, e abraçado com a terra clamava: Pater, si possibile est, transeat a me calix iste: Este, este e não aquele: este do Horto, e não aquele do Calvário; este da ausência, e não aquele da morte; este do aportamento, e não aquele da Cruz. Assim como eram dois os cálices, assim também eram duas as sedes, mas muito contrárias: na Cruz, a sede de padecer por nós; no Horto, a sede de estar conosco. Mas como a morte podia matar aquela sede, e estoutra sede com a morte crescia mais, por isso no Calvário dizia: Sitio, e no Horto repugnava o cálix: Transeal a me calix iste.

E que se seguiu a esta repugnância tão estranha? Que se seguiu a esta violência tão violenta? Et factus in agonia (Lc. 22,44): ali mesmo começou o Senhor a entrar em agonia. Cristo em agonia? Cristo agonizante no Horto? Acuda por si a morte. A agonia e o agonizar é ação ansiosa e acidente terrível, próprio da morte; mas Cristo na morte não agonizou. Vede como expirou placidamente:

Inclinato capite, tradidit spiritum.23 Pois se Cristo não agoniza na Cruz, se não agoniza no Calvário, como agoniza no Horto? Porque no Calvário morria, no Horto ausentava-se; no Calvário dividia-se de si, no Horto dividia-se de nós, e esta era a sua agonia. Por isso no Calvário passou pelo artigo da morte sem agonizar, e no Horto, quando entrou em artigos da ausência, então agonizou: Et factus in agonia. Morreu Cristo enquanto homem, e ausentou-se enquanto homem; mas nem morreu como os homens morrem, nem se ausentou como os homens se ausentam, porque não amava como os homens amam. Morreu e ausentou-se, mas com os acidentes trocados: morreu como se se ausentara, sem agonizar; ausentou-se como se morrera, agonizando. Oh! que amor! Oh! que fineza! Oh! que extremo! A ausência agonizante, e a morte sem agonia!

(continua...)

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