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#Sermões#Retórica

Sermão das Lágrimas de São Pedro

Por Padre Antônio Vieira (1669)

Se Pedro, quando quis ver a Cristo, negou três vezes a Cristo, os olhos que querem ver as criaturas, quantas vezes o negarão? Se nega a Cristo Pedro quando quer ver, levado do amor de Cristo, como não negarão a Cristo os que querem ver, levados de outro amor? Se quem entrou a ver uma tragédia da paixão de Cristo teve tanto que chorar, os que entram a ver outras representações e outros teatros, que fruto hão de colher daquelas vistas? Diz S. Leão Papa que os olhos de Pedro se batizaram hoje nas suas lágrimas. Bem se podem batizar os nossos olhos outra vez, porque não têm nada de cristãos. Comparai aquela cova de Chipre com a de Jerusalém; comparai as nossas vistas, ou as nossas cegueiras, com a de S. Pedro. Não digo que se metam os nossos olhos em uma cova, porque não há hoje tanto espírito no mundo; mas, ao menos, não comporemos os nossos olhos? Não faremos ao menos com os nossos olhos aquele concerto que fez Jó com os seus?

Pepigi faedus cum oculis meis, ut ne cogitarem quidem de virgine.44 Falava Jó do vício contra a honestidade, em que tanta porte têm os olhos, e diz que fez concerto com os seus, para não admitir o pecado no consentimento, nem ainda na imaginação. Este concerto, porece que não se havia de fazer com os olhos, senão com o entendimento e com a vontade. O consentimento pertence à vontade, a imaginação pertence ao entendimento: faça-se logo o concerto com a vontade que consente, e com o entendimento que cuida e imagina, e não com os olhos, que somente vêem. Não, – diz Jó. – Com os olhos se há de fazer o concerto, porque o pecado, ou o que há de ser pecado, entra pela vista, da vista passa à imaginação, e da imaginação ao consentimento; logo, para que não chegue ao consentimento, nos olhos, onde está o primeiro perigo, se há de pôr a cautela, nos olhos a resistência, nos olhos o remédio. Notou advertidamente Salmeirão, que sucede aos homens nos pecados desta casta o mesmo que sucedeu a São Pedro nas suas negações. Para as negações de São Pedro concorreram duas tentadoras e um tentador: a primeira e a segunda tentadora foram as duas ancilas, e o terceiro tentador foi o soldado da guarda de Caifás. Assim também as nossas negações. A primeira ancia, e a primeira tentadora, é a vista; a segunda ancila, e a segunda tentadora é a imaginação; e o terceiro tentador é o consentimento, em que se consuma o pecado. E assim como nas negações de Pedro a primeira tentadora foi a ancila ostiaria, a porteira, assim nas nossas negações a primeira tentadora é a vista, que é a porteira, e a que tem nos olhos as chaves das outras potências. Por isso Jó fez concerto com os seus olhos, para que estas portas estivessem sempre fechadas.

Não fecharemos estas portas tão arriscadas da nossa alma, ao menos nestes dias, em reverência dos olhos de Cristo? No mesmo tempo em que Pedro estava negando a Cristo, estava Cristo com os olhos tapados, padecendo tantas afrontas. Consente Cristo que lhe tapem os olhos tão afrontosamente por amor de mim, e eu por amor de Cristo, não fecharei os olhos? Consente Cristo que lhe tapem os olhos para me salvar, e eu abrirei os olhos para me perder?

Olhai quanto mais encarecida é a doutrina de Cristo neste caso; Si oculus tuus scandalizat te, erue eum, et projice abs te (Mt. 12,9): Se os vossos olhos vos servem de escândalo, se vos fazem cair, arrancai-os e lançai-os fora. – Se fora resolução muito bem empregada arrancar os olhos por amor da salvação, e para esses mesmos olhos verem a Deus, por que há de ser coisa dificultosa o fechá-los? A Sansão arrancaram-lhe os olhos os filisteus, porque os entregou a Dalila (Jz. 14,1,16, 21). Não lhe fora melhor a Sansão fechar os olhos para não ver, que perdê-los porque viu? Não lhe fora melhor a Siquém não ver a Dina (Gên. 34,25 s)? Não lhe fora melhor a Amnon não ver a Tamar (2 Rs. 13)? Não lhe fora melhor a Holofernes não ver a Judite (Jdt. 10,19)? Todos estes pereceram às mãos de seus olhos. Demócrito, filósofo gentio, como diz Tertuliano, arrancou voluntariamente os olhos por se livrar de pensamentos menos honestos. Que tivesse resolução um gentio para arrancar os olhos por amor da pureza, e que não tenha ânimo nem valor um cristão para os fechar! Cristãos: por amor daqueles olhos que Cristo hoje pôs em S. Pedro, e para que ele os ponha em nós, que se havemos de fazer esta semana alguma penitência, se havemos de fazer esta semana alguma mortificação, se havemos de fazer esta semana algum ato de Cristandade, seja cerrar os olhos por amor de Cristo. Aquelas pestana cerradas sejam as sedas de que teçamos um cilício muito apertado a nossos olhos. Não são os olhos aqueles grandes pecadores que pecam em todos os pecados? Pois tragam esta semana este cilício.

§ VIII

Esta vida não é lugar de ver, senão de chorar. Davi e o livro das dívidas e das satisfações. Se pecamos como Pedro, por que não choramos como Pedro? Oração.

(continua...)

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