Por Padre Antônio Vieira (1652)
Assim resistido Cristo, e assim rebatida, por não dizer afrontada a força de sua mão e da sua escritura, que novo meio buscaria a Sabedoria onipotente para se defender de tão pertinazes tentadores? Assim como eles perseveraram em tentar, assim ele perseverou em escrever, porque a pertinácia da tentação só se vence com a constância da resistência. E quando os remédios são proporcionados, mudá-los é perdê-los. Torna Cristo a inclinar-se, e a escrever outra vez: Iterum inclinans se digito scribebat in terra. E foi tal a eficácia desta segunda escritura, que alfim se renderam a ela os que tinham resistido à primeira. Então se foram retirando uns após outros, mas, se vencidos de Cristo na retirada, vencedores contudo do demônio na arte da tentação. Ainda quando desistem são piores tentadores os homens que o demônio. O demônio tentou a Cristo três vezes, mas notai que respondendo o Senhor a cada tentação com uma Escritura, nunca o demônio esperou a segunda. Em o demônio ouvindo uma Escritura, calava, desistia, não resistia, nem replicava; mudava logo de tentação e ainda de lugar. Vencido de Cristo, ainda presumia e esperava vencer a Cristo; refutado com uma Escritura, nunca teve atrevimento para resistir nem esperar outra Escritura. E os homens? Olhai para eles. Os homens, porém, mais pertinazes, mais impudentes, mais duros e mais feros tentadores que o mesmo demônio, vêem uma vez escrever a Cristo, e não se movem; vêem e entendem o que escreve, e não se rendem. É necessário que a Sabedoria divina multiplique Escrituras sobre Escrituras, que tendo escrito uma vez, torne outra vez a escrever: Iterum scribebat, não já para persuadir os tentadores, mas para se defender e se livrar a si mesmo de suas tentações.
Na última e mais forte tentação que padeceram os discípulos de Cristo, que foi na véspera de sua morte, anunciou-lhes o divino Mestre que era chegado o tempo em que tinham necessidade de armas. E respondendo eles que tinham duas espadas: Ecce duo gladii hic (Lc. 22,38), contentou-se a Senhor com a prevenção, e disse-lhes que essas bastavam: Satis est. Todos os Padres e expositores entendem concordemente que falou Cristo neste passo alegórica e metaforicamente, e que as espadas com que os apóstolos se haviam de defender, eram as Escrituras Sagradas. O mesmo tinha declarado muito antes Davi, falando dos mesmos apóstolos e das mesmas espadas: Et gladii ancipites in manibus eorum: ad faciendam vindictam in nationibus, increpationes inpopulis.27 Sendo pois este o sentido e intento das palavras de Cristo, é muito para reparar que destas duas espadas, naquele grande conflito, se não desembainhasse mais que uma, que foi a de S. Pedro, e que querendo os outros discípulos usar da segunda, quando disseram: Si percutimus in gladio,28 o Senhor lho não permitisse. Pois se as espadas eram duas, e ambas aceitadas e aprovadas por Cristo como necessárias, por que proibiu o Senhor a segunda, e não quis que se usasse mais que de uma nesta tentação? O mesmo Cristo o disse: Haec est hora vestra, et potestas tenebrarum.29 Esta tentação, como aquela em que se empenhou e empregou todo o poder do inferno, era tentação do demônio, ainda que para ela concorreram também os homens, como ministros e instrumentos do mesmo demônio e do mesmo inferno; e para as tentações do demônio, por mais fortes e poderosas que sejam, basta uma só espada, isto é, uma só Escritura, não são necessárias duas. Assim bastou uma só Escritura contra a tentação do deserto, e uma só contra a tentação do Templo, e uma só contra a tentação do monte. E como então lhe não foi necessário a Cristo lançar mão da segunda espada, por isso também neste conflito não permitiu aos apóstolos que usassem dela, porque ainda que a tentação era tão forte e tão apertada, era alfim tentação do demônio: Haec est hora vestra, et potestas tenebrarum.
Logo, a segunda espada que o Senhor não permitiu se desembainhasse, era escusada e inútil? Não: porque essa ficou reservada para as tentações dos homens. Assim o experimentou o mesmo Senhor na tentação de hoje, em que não lhe bastando uma só escritura contra a pertinácia dos seus tentadores, foi forçado a se valer de segunda escritura, e escrever outra vez: Iterum scribebat. E porque esta Segunda espada assim como foi necessária, assim bastou para dar fim à batalha, por isso o Senhor, com o mesmo mistério, quando os discípulos lhe disseram que tinham duas espadas, respondeu que essas bastavam: Satis est, porque ainda que contra os homens não bastasse uma só Escritura, como basta e bastou para o demônio, contudo bastariam duas, como finalmente bastaram. Ao passo que os segundos caracteres uns após outros se iam formando, os tentadores também após outros se iam saindo: Unus post unum exibant (Jo. 8,9). O que não venceu uma Escritura venceram duas Escrituras: Iterum scribebat.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.