Por Padre Antônio Vieira (1669)
Temos visto a Inácio semelhante a homem; resta ver a Inácio homem sem semelhante. Mas do mesmo que temos dito nasce a dificuldade e a dúvida do que temos para dizer. Se Inácio semelhante a tantos homens, como pode ser que Inácio fosse homem sem semelhante? Se era tão semelhante a tantos, como não tinha nem teve semelhante? Santo Tomás, dando a razão por que a Igreja aplica a muitos santos aquelas mesmas palavras que o Eclesiástico disse de Abraão: Non est inventus similis illi qui conservavit legem excelsi,9 diz que se verificam daquela graça ou prerrogativa particular em que Deus costuma singularizar a cada um dos santos, e fazê-lo respectivamente mais excelente que os outros. Mas esta razão não tem lugar em Santo Inácio, porque já vimos que lhe deu Deus por exemplar a todos os santos, e que ele foi semelhante não a um, senão a todos, imitando a cada um naquela graça e perfeição em que foi mais excelente. Hugo cardeal, diz que se hão de entender as palavras: Non est inventus similis illi, daquela idade em que cada um dos santos floresceu; e assim vemos que tendo-se dado este elogio a Abraão, se deu também a Jó: Quod non sit si'nilis ilii in terra,10 porque cada um na sua idade foi singular e não teve semelhante. Mas também esta razão não convém a Santo Inácio, porque os santos que Deus lhe propôs naquela crônica universal, em cujo espelho ele compôs e retratou a sua vida, não foram os santos particulares de uma só idade, senão os de todas as idades e de todos os séculos. Pois se Santo Inácio foi semelhante a tantos, como pode ser que não tivesse semelhante? Digo que muito facilmente, se distinguirmos as partes e o todo. Tomado Santo Inácio por partes, era semelhante: todo Santo Inácio, não tinha semelhante. Vede se o provo.
Criado o céu e os elementos, no céu criou Deus os anjos, no ar as aves, no mar os peixes, na terra as plantas, os animais, e ultimamente o homem. Estando porém desta maneira o universo cheio, povoado e ornado de tanta imensidade e variedade de criaturas, diz o texto sagrado que em todas elas não se achava uma que fosse semelhante ao homem: Adae vero non inveniebatur adiutor similis ejus.11 A mim parecia-me que antes se havia de dizer o contrário, porque demonstrativamente se convence que não se acha criatura alguma em todo o mundo que não tenha semelhança com o homem. Todas as criaturas deste mundo, não falando no homem, ou são viventes ou não viventes. Se não são viventes, são os céus, os elementos, as pedras. Se são viventes, ou vivem vida vegetativa, e são as plantas, ou vivem vida sensitiva, e são os animais, ou vivem vida racional, e são os anjos, e tudo isso se acha no homem, porque o homem, dos elementos tem o corpóreo, das plantas tem o vegetativo, dos animais tem o sensitivo, dos anjos tem o racional. Esta foi a razão e o sentido, como notou Santo Agostinho, com que Cristo chamou ao homem toda criatura quando disse aos apóstolos: Praedicate omni criaturue, porque o homem é um compêndio universal de todas as criaturas, e todas as criaturas, cada uma segundo sua própria natureza, estão recompiladas e retratadas no homem. Pois se todas as criaturas, quantas Deus criou neste mundo, têm tanta semelhança como homem, e o homem, por sua própria natureza, é semelhante, não a uma ou algumas, senão a todas as criaturas, como diz o texto sagrado que entre todas as criaturas não se achava semelhante ao homem: Non inveniebatur similis ejus? Porque ainda que o homem, considerado por partes, era semelhante a todas as criaturas, considerado todo o homem, ou o homem todo, nenhuma outra criatura era semelhante a ele. As partes eram semelhantes, o todo não tinha semelhante. De maneira que a mesma semelhança que as criaturas tinham com Adão, dividida, e por partes, era semelhança; unida, e por junto, era diferença Assim também Santo Inácio em respeito dos outros santos, a quem eu sempre respeito. Santo Inácio, parte por parte, era semelhante; todo Santo Inácio, não tinha semelhante. Adão, semelhante sem semelhante entre todas as criaturas; Inácio semelhante sem semelhante entre todos os santos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 13 ago. 2026.