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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

― Asno será ele se lhe der algum ataque! – observou Joaquim Antônio, empregando a gramática e a filosofia do seu uso.

― Qual ataque nem qual diabo! – corroborou Pantaleão Mendes. – Um homem é um homem, sabe você, amigo Atanásio? E mulheres não faltam, física e moralmente falando. Haja dinheiro e saúde: o mais, regalório!

― Pois sim – redargüiu Atanásio, quando subiam a escada –; mas você não se vá pôr a dizer isto nem aquilo da mulher, percebe você? Conte o que se passou, e deixe obrar a natureza.

― Não me dê conselhos... – resmoneou Pantaleão. – Deixe o negócio por minha conta; que a honra dos meus amigos é como se fosse a minha.

Hermenegildo estava no topo da escada com os braços em cruz no costado, e o queixo debaixo caído e apoiado sobre o papo dos bócios.

― Então que há? – perguntou ele esgazeando pelas caras homogêneas dos três um relance de olhos penetrante. ― Vamos conversar – respondeu Pantaleão, levando-o de braço dado para a sala.

― Vocês tardaram tanto! – volveu o brasileiro.

― Estivemos à espera que a sua mulher se despachasse lá da polícia; depois, palavra puxa palavra, e deitou-nos a conferência a esta hora – explicou Atanásio, encarregando Pantaleão, por um gesto de cabeça, de ser o relator dos casos acontecidos.

O qual tirou do interior umas palavras, cortadas por pausas que davam à narrativa uns toques de seriedade, prejudicando o índole ridícula da cena.

― Senhor compadre – disse o marido de Francisca Ruiva. – Sua mulher não estava em casa; aqui o amigo Joaquim foi-lhe na peugada, e soubemos que ela tinha sido chamada à presença do administrador. Esperamos uma hora e pico. Nisto chegou ela e mais a criada. Estávamos sentados no banco do pátio, quando sua mulher deu conosco, e fez-se amarela como esse colete que você traz vestido. Erguemo-nos, fizemos-lhe as nossas cortesias, e disse eu que lhe queríamos uma palavrinha em particular. Mandou-nos subir, e chamou para dentro que nos abrissem a sala de visitas. Entramos, e daí a pouco chegou ela, assim com modos de quem se não importava muito conosco. Sentou-se, e perguntou o que queríamos; não foi isto, amigo Atanásio?

― Tal e qual; é como você diz.

― Eu tomei a palavra, e disse que o meu honrado compadre e amigo velho Hermenegildo Fialho Barrosas nos mandara os três a fim de averiguar a quem a senhora D. Ângela deu um conto seiscentos e cinqüenta mil réis de esmola. E vai ela esteve um quase nada a pensar, e respondeu que me não dizia a mim nem a ninguém o que não tinha dito a seu homem, entende o amigo? Depois, aqui o nosso Atanásio tomou a palavra, e começou-lhe a dar práqui-prácolá, porque torna e deixa, a senhora deve confessar o que fez ao dinheiro, quem lho apanhou, que qualidade de pessoa era; porque as mulheres não podem dispor assim dos capitais dos seus homens, aliás ninguém pode contar com o que é seu; e de mais a mais dar um conto seiscentos e cinqüenta mil réis sem dizer a quem, era caso para desconfiar de certas coisas muito feias, etc., etc., etc. Enfim, o amigo Atanásio batalhou com ela, apertou-a por todos os lados, mas respondeu você, compadre? Não respondeu? Nem ela! Vai depois, o amigo Joaquim falou também com toda a prudência e cortesia, discorrendo a respeito da honra dum homem, e também não fez nada. Enfim, como ela estivesse a ouvir sem responder uma nem duas, eu tomei a palavra, e disse que o senhor seu marido lhe ordenava que se recolhesse sem perda de tempo a um convento. Agora é que são elas! – prosseguiu Pantaleão Mendes batendo nas próprias pernas duas palmadas que soaram como se as ponderosas mãos batessem nas pernas dum Sileno de pedra. – Quem cuida você, compadre, que ela respondeu?! Que...

― Que não ia! – atalhou o brasileiro, careteando com os olhos e boca e nariz uma temerosa carranca de cólera.

― Isso mesmo! – conclamaram os três.

― “Não vou” – acrescentou o relator – “não vou para convento” disse ela. E disse mais: - “Meu marido tomou conta das jóias que eram de minha mãe; que fique lá com o dinheiro dos brilhantes, e que me mande o resto; se quiser mandar; se não quiser, que fique com tudo. Convento é que não”. Há de ir! Gritei eu; há de ir, que seu marido é quem governa na senhora. – “Não vou” teimou ela. Então que quer a senhora fazer, se seu homem a deixar, sem que comer, nem que beber, nem casa? – “Trabalharei para viver; e, se morrer de fome, Deus me dará o céu, porque morrerei honrada e inocente”. Foi o que ela me disse, e nós quedamos a olhar uns p'ros outros. Disse-lhe então o amigo Atanásio que dissesse a quem deu o dinheiro, se estava honrada e inocente.

― E vai ela... – acudiu o brasileiro, ansiadamente.

― Respondeu que só se confessava a Deus, que sabia a pureza do seu coração. Não foi isto, Sr. Atanásio?

― Sem tirar nem pôr.

(continua...)

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