Por Coelho Neto (1898)
Sahiram a percorrer os arredores com archotes de palmas, bradando pelo Menino.
Ninguém. Os cães ladravam nas herdades longínquas.
Á pressa, sem lembrar-se dos perigos a que se ia expor, poz-se a Virgem a caminho seguida ,de José.
Não andava, corria pela noite negra, tropeçando em toros e em pedrouços, resvalando em barrancos, ferindo-se em espinhaes. De quando em quando parava sem fôlego, com o coração em ânsia e ficava a escutar no silencio.
Procurava José tranquillisá-la com palavras de esperança, a desventura da rompia em pranto e bradava desesperada o nome do Filho que os echos repetiam, espalhando-o no escampo como se quizessem auxiliar a infeliz.
Alvorecia e a pobre Mãi, sem sentir fadiga, com os pés em sangue, os cabellos molhados de orvalho, correndo, precipitando-se, avistou no cariz do horizonte as terras brancas de Jerusalém.
Quiz José que tomassem algum descanço cm uma pousada, mas a Virgem negou-se e, caminhando, entrou na cidade quando começavam a troar os pregões dos mercadores.
Foi a todas as casas conhecidas, penetrou, arrebatadamente em todos os khans, percorreu todos os bazares perguntando a quantos encontrava, dando os signaes do Filho e ninguém que a tranquillisasse.
Perdido !
Viam-na passar e olhavam-na: uns com pena ou espanto, outros sorrindo. Um legionario tentou detê-la, ella nem deu pelo gesto do soldado e proseguiu.
Desanimada e exhausta, deixou-se cahir sobre um escombro de pedras soluçando perdidamente. Foi quando José, erguendo os olhos para o céu, deu com o edificio colossal do Templo maravilhosamente illuminado pelo sol e disse, talvez para minorar os soffrimentos da infeliz com um resto de esperança :
— E no Templo, Maria? Quem sabe!? Talvez tenha lá ficado a distrahir-se com os bufarinheiros.
— Sim! Sim! No Templo. Ó a esperança, lume que renasce ao sopro mais leve.
E a Virgem precipitou-se, subiu aladamente a longa escadaria, atravessou o pateo rompendo a multidão.
De repente estacou, tremula e pallida, as mãos ambas no peito, as lagrimas a saltaremlhe dos olhos molhando-lhe copiosamente o rosto, que sorria. É que descobrira o Menino.
Era elle ! sim, era! lá estava, debaixo do pórtico, entre doutores que o ouviam em maravilhado silencio, uns sentados, descahidos sobre os braços fincados nos joelhos, com os rostos esmagados nas mãos, os olhos fitos ; outros de pé, immoveis. braços cruzados, attentos.
E Jesus, no meio d'elles, lindo, transfigurado, discorria com suavidade, respondendo a. objecções que lhe faziam, resolvendo dificuldades ou expondo, em palavras claras, Uma doutrina de amor. De instante a instante corria um rumor de applauso na assembléa, os anciãos acenavam approvando, entreolhavam-se deslumbrados, sorriam por verem tanta sabedoria exposta, por uma boca em flor, tanto pensamento sublime nascido entre os cachos mimosos de uma cabeça, infantil.
A Virgem, que ficara á distancia, extasíada, adiantou-se então e, dirigindo-se a Jesus, falou-lhe :
— Filho, porque usaste assim comnosco ? Sabe que teu pai e eu andávamos buscando-te, cheios de afflicção.
Serenamente, avançando em passo grave, Jesus respondeu :
— Para que me buscaveis ? Não sabeis que importa occupar-me das coisas que são do serviço de meu Pai ?
Não comprehenderam os esposos as palavras do Infante, nem procuraram entendê-las, tão grande era nelles a alegria por o haverem encontrado.
E Jesus retirou-se.
Voltaram-se os doutores para segui-lo com o olhar e, durante muitos dias, o assumpto das conversas, no Templo foi o prodigioso Menino, tão novo e já iniciado nos mais profundos segredos da sciencía d'alma o nos mysterios mais subtis da religião de Israel.
IV
Maria encontra Jesus no caminho do supplicio
Foi um amotinado alvoroço no Pretorio quando, depois da fraqueza de Pilatos, ao som das buzinas roucas, os soldados da guarda romperam vagarosamente a marcha.
O povo, atropellando-se, refluiu aos brados.
Mercadores retiravam açodadamente os taboleiros, corriam com os gigos, puxavam ou continham os animaes espantados. Mulheres debandavam como perseguidas, levantando nos braços os filhos que choravam, esperneando com medo.
A tarde abrasava. Uma nuvem de pó ondulava nos ares como immenso véu doirado. Apezar da brutalidade com que os legionarios repelliam, a conto de lança, os curiosos que se apinhavam fechando a passagem, a turba adensava-se a mais e mais, engrossando-se com os que chegavam de longe, attrahidos pela noticia da sentença e pelo gozo do promettido espectaculo de morte.
Quando Jesus appareceu, derreado ao peso da cruz, a fronte livida, laivada de sangue, as faces denegridas das punhadas com que o haviam maltratado, foi um delirio na multidão. Homens acenavam com as abas das túnicas, com os turbantes; cajados entrechocavam-se alegremente. Mulheres agitavam os mantos, rapazes bailavam aos saltos, atirando ao ar as fótas, soltando gritos selvagens. E as injurias cruzavam-se : affrontas, obscenidades, doestos calumniosos.
Vozes pediam com sarcasmo um milagre.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique. As Sete Dores de Nossa Senhora. Rio de Janeiro: E. Bevilacqua & Cia., 1907. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43241 . Acesso em: 30 abr. 2026.