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#Crônicas#Literatura Brasileira

A Descoberta da Índia

Por Coelho Neto (1898)

Só o Gama, sereno e firme no castello da nau, buscava o horizonte e, na tarde d'um sabbado, estando a olhar com desejo, vio terras escarpadas, reverdecidas de arvores e annunciou aos marujos o promontorio tenebroso.

Foi tamanha a alegria enxertada d'uma decepção feliz que, como se quizessem saudar aquella extrema de terra, assopraram, com furia, bozinas e charamellas espalhando uma ruidosa musica nos ares; outros acenavam com pannos, tomavam das driças as roupas que seccavam e, agitando-as, festejavam o socegado linde tão temido.

Quiz o Gama chegar com os navios áquella costa mas, tão contrarios sopravam os ventos que lhe frustraram todas as investidas. Desanimado de pôr o pé n'esse terreno para n'elle deixar um padrão fez-se ao largo seguindo ao longo da costa. Vingado, com tão inesperada fortuna, o terrivel passo alliviaram-se os corações do grande medo que lhes infundia aquelle rumo. Eram as columnas terriveis que se iam arredando do caminho, desaffrontando-o ás proas cortadoras.

Nem borrascas nem monstros — os vendavaes escondiam-se nas suas cavernas, os escarcéos pareciam domados e os monstros dormiam nos seus abysmos. Alli estava o sol pacifico e o céu continuava a acurvarse em abobada sobre as naus. Nem tão grossas arrebentavam as ondas, nem tão impetuosos eram os ventos e a mareja, desopprimida, emquanto as naus corriam, cantava saudando com as suas arias aquelle mysterio que apparecia propicio sem os horrores que lhe haviam emprestado as lendas. E, a todo panno, a frota proseguia empavesada.  

AO LONGO DA COSTA

LXVI

D'aqui fomos cortando muitos dias,

Entre tormentas tristes e bonanças,

No largo mar fazendo novas vias,

Só conduzidos de arduas esperanças:

C’o mar um tempo andámos em porfias:

Que como tudo n'elle são mudanças,

Corrente n'elle achamos tão possante,

Que passar não deixava por diante.

( CAMÕES — OS Lusiadas; canto V.)

Ia a nau velejando e o gageiro, no seu posto de atalaia, os olhos ao longe, saudoso da terra que deixara e das gentes do seu villar, sonhava. Nascido e creado no monte agreste, entre os pinheiraes e as carvalheiras, habituára-se, desde a infancia, a andar pelas charnecas com o rebanho e o cão, uma taleiga ao flanco, o rijo cajado em punho. Nos tempos brandos da primavera que delicia era o amanhecer na altura, ao fresco e cheiroso ar, sob o azul, junto d'agua cantante e ouvir, nas curtas noites tépidas, de longe em longe, o canto da moça ou a doçaina do pegureiro no seu colmo.

Nas éras de geada e ventos, como era bom ficar agazalhado junto ao fogo crepitante, agarrado ao velo macio da ovelha, com o cão alerta, rosnando aos lobos que vinham raspar as portas do redil, uivando famintamente.

O pae finara-se em Africa, levado na frota do infante que enviuvára tanta infeliz e fizera tnato pobresinho orphão; a mãe, encanecida, fiava seu linho á porta da choupana emquanto elle e o mais novo andavam com o gado e os tios iam chegando terra ás vides ou semeando o pão nas leiras.

Porque andava, retirado do socego, sobre aquellas aguas infestas, no tope d'um mastro que rangia, exposto aos temporaes tremendos ? Um do villar, moço de herdade, tendo o irmão nos mares, fallára-lhe, em certa occasião, emquanto manducavam, das riquezas do mundo, do ouro que n'elle havia e das especies tão procuradas que vinham d'essas mouramas encantadas que genios apaniguavam.

O pobresinho, ouvindo a narração que o outro lhe fazia, emquanto as ovelhas retouçavam e os cabritos, aos saltos, di-vertiam-se, ficou maravilhado, e, trazendo á pressa o rebanho attonito, pôz o cajado a um canto, despio a barragana, ajoelhou-se, beijando a mão tremula da mãe, annunciando-lhe o proposito cm que estava de sair ao mar. E a velha, com sobresalto e lagrimas, diante de tão inopinado intento, interrogou-o :

_ Porque has de ir por esses mundos, filho ? Vive na calma do teu paiz e do teu lar, que a Fortuna é arredia se a tentam perseguir. Deixa-te estar na segurança, e, talvez, quando menos esperes, a Fortuna venha bater á tua porta, pedindo um pouco do teu lume e uma codea do teu pão só para ter ensejo de remunerar, com largueza, a tua caridade. O mar é máo e os ventos não têm misericordia.

- Não! é preciso que eu parta. Lá no monte, uma madrugada, eu vi o céu romper-se em luz, e, no fundo brilhante, um barinel fugia com as velas cor de rosa soltas. Era o meu barinel, mãe, que se fazia de vela para as terras do Oriente e, em pouco, tornava tão carregado, que mal as velas o podiam arrastar de attestado que vinha o barinel venturoso. Além do ouro e das pedras de brilho, vinham n’ele princezas lindas, de olhos sentimentaes. E’ preciso que eu parta... Deus manda! Deus quer, mãe. E partio. Lá se ficaram sós as ovelhinhas e charnecas nunca mais ouviram as canções do pastor.

No alto céu, d’um azul forte e lucido, aves negras passaram em fila e o gageiro, seguindo aquella abalada, vio longe, n’um fundo nitido, como um dorso de saurio adormecido á tona d’agua, ao sol, uma fita negra, estendida dilatadamente sob a poeira luminosa.

(continua...)

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