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#Biografias#Literatura Brasileira

Mano

Por Coelho Neto (1924)

Quando nos aparece, projetado pelo coração, fala, mas mussitantemente apenas, sem palavras sonoras: batem-lhe os lábios como asas de pássaro cativo. Caminha, e os passos não lhe soam. Estende-nos os braços e nunca o alcançamos, porque, entre nós, interpõe-se uma lâmina, como a de cristal de espelho, que se chama: infinito.

Temo-lo tão perto e tão longe, conosco e para sempre apartado, vivo na imagem, só na imagem que é o reflexo da saudade.

Seria, talvez, melhor que os mortos partissem de vez, sem deixar rastro, levando consigo para o túmulo todo o ser. Mas não! partem como o sol tramonta: deixando a terra em escuridão, mas cheia de calor. E esse calor na terra é vida; no coração é saudade.

Assim é na saudade dos vivos que os mortos se eternizam, nela é que eles continuam a viver: é o paraíso de tristeza, como o esquecimento é o inferno dos que não souberam fazer-se amar. E em quantos paraísos de amor vive o espírito querido! Em quantos corações soa o seu nome em apelo lamentoso!

As próprias coisas parecem sentir-lhe a ausência.

Que vazio à mesa e que silêncio! É que ele já se não assenta entre os irmãos, ainda que o seu lugar seja mantido como se ele apenas se haja demorado e possa aparecer de um momento para outro.

Mas ninguém lhe serve o prato, o seu talher não se descruza, não se lhe desdobra o guardanapo, o copo mantem-se-lhe vazio, o seu nome é pronunciado a medo, para não despertar nos corações a dor; e a luz, que incide sobre a cadeira que ele ocupava, já não tira a sombra que lhe traçava o perfil na parede.

Essa sombra ficou e, para sempre, em nossos corações.

E tudo que resta daquele corpo airoso, que era a coluna robusta do meu lar, lá está no cemitério em flores.

Flores, eis o que de meu filho fez a Primavera.

Todo o riso, todo o viçor de uma sadia e honesta juventude, toda a bondade de um coração magnânimo, toda a energia de um caráter espartano, toda a nossa esperança, todo ele enfim, reduziu-se ao que exorna a terra estreita de um túmulo: flores.

Os que passarem por elas, vendo-as lindas, como se ostentam e ignorando-lhes a origem dolorosa, louvarão, decerto, a Primavera que as tirou da morte, mas os que sabem o que elas representam e o que encobrem na terra em que nasceram, esses...

A CASA

Mudar-nos... Por que? se a casa toda está impregnada da sua presença, do seu ser, como o vaso que conteve essência longamente lhe conserva o aroma?

Por que mudar-nos deixando o lar onde, por vezes em eco, os seus passos ressoam, a sua voz timbra serena, e até a sua sombra desliza pelas paredes, como inveterado hábito que se repete inconscientemente?

Quantas vezes, do meu leito, ouço ranger a escada e sinto-o que sobe vagarosamente, ensurdecendo os passos para não despertar os que dormem!

Dar-se-á que os degraus conservem a impressão do seu andar e trepidem, como os móveis estalam, à noite, retraindo ou dilatando as fibras ao contato do ar? As tábuas não soam por si e, se estalidam, é que algum piso as recalca.

Paredes de pedra e cal, assoalhos de madeira morta, é possível que dele vos lembreis às horas justas em que ele entrava, pé ante pé, subtil, sem que o sono, que dominava a casa, fosse perturbado?

Se o lar assim se recorda como havemos nós de abandonar esse cantinho cheio de reminiscências, (memória inerte em que ele persiste), porque nele viveu toda a sua alegre infância, nele passou toda a sua adolescência e nele começava a gozar a mocidade?

Se o túmulo, que lhe contém o corpo, não o relega, a casa, que lhe guardou o espírito, não o havia de repudiar, decerto.

Em todos os cantos brincou, saltou, espalhou risos. O raio de sol que, todas as manhãs, entra pela janela junto à qual ficava a sua cama, mal o dia aponta, lá vem insinuando-se no mesmo filão de ouro com que, desde pequenino, lhe enfeitava o sono.

A lâmpada, que o alumiava, acende-se todas as noites; e tudo continua como dantes.

Ao passar junto do meu quarto sinto-o, lá dentro, andar, mover-se. Faro, à escuta. Tudo cessa. Para que insistir? Para que hei de, com a curiosidade ansiosa do meu desespero, violar o segredo que já não é da vida?

Se ele ali está e não me aparece, ele! Tão meu amigo, é porque não deseja ser visto.

Deixemo-lo com o seu misterioso pudor. É o filho em visita ao lar paterno.

Bem-vindo seja e que Deus o abençoe.

E se, ouvindo aos que nos aconselhavam, nos houvéssemos mudado...?! Pobre espírito! Quem sabe o que sofreria recorrendo a casa e achando-a habitada por outros, transformada em tudo - na disposição dos móveis, no arranjo dos aposentos, com outros hábitos, outras vozes.

E a própria casa não sentiria com ele? Talvez!

Se vamos piedosamente visitar-lhe o túmulo no cemitério, porque havíamos de fugir ao ambiente onde o seu espírito demora? Lá, debaixo da terra, é a morte; aqui, em todos os ângulos, é a vida: o que ficou, o que existe, o que não parece: ele.

(continua...)

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