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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

Não respondeu e, quando a viu sentada em uma cadeira de vime, junto à mesa onde tinha um dos braços estirado, abatida, com os olhos roxos de pranto, fitou-a mudo deixando-se cair em uma cadeira.

— Nada...

— Nada?! Nem notícias, Paulo?

Esteve um instante a fitá-lo, desatando, depois, a chorar: um choro humilde, fraco, muito infeliz, de criança, com a cabeça pendida sobre o colo farto que estremecia sacudido pelos soluços.

Paulo, comovido, com os olhos marejados, quis dizer algumas palavras de consolação — pôs-se de pé, mas diante da mãe, cujo corpo tremia nos entrebuchos do pranto, emudeceu sem sentir as lágrimas que lhe cresciam nos olhos. Lentamente, passando a mão pelos cabelos molhados, foi caminhando cabisbaixo até a porta do quarto de Violante.

Deteve-se um momento, limpou os olhos e, tomando da mesa uma caixa de fósforos, fez luz e entrou. Sobre o lavatório de vinhático, numa palmatória de cristal, havia um coto de vela; acendeu-o.

A luz, que se foi, aos poucos, difundindo, lançou os olhos pelo interior desolado e, cruzando os braços, ficou a olhar como se estivesse diante dum cadáver.

A cama estreita, alva, com um fino cortinado enastrado de fitas, tinha uma ligeira depressão; o travesseiro macio, de paina, com a fronha de crivo, estava machucado. Um lenço jazia aos pés da cama, amarfanhado e odorante.

Ela estivera ali deitada, e planejara a fuga, atenta aos rumores da casa e às pancadas do relógio. Dali saíra, pé ante pé, atravessando a sala, passando sorrateiramente junto ao quarto em que dormia a mãe e fora-se pelo corredor. Abrira a ponta, ganhara a rua e partira sem uma lágrima, talvez sem o mais leve remorso.

Voltou-se: o lavatório estava em ordem, com os vidrinhos de essências, os vasos de flores, as escovas, os pentes. Sobre a cômoda o retrato do pai, fardado, em grande gala, de pé junto a um rochedo; e outros retratos de moças, de crianças; e cromos e a cestinha que ele lhe dera pelo Natal com amêndoas.

No fundo, o guarda-vestidos entreaberto. Puxou a ponta, que rangeu, emperrada, e viu, a um canto, sobre a caixa de chapéu, a boneca, muito loura, com os braços abertos, rindo, toda de azul; e os vestidos escorridos nos cabides, a sombrinha, caixas, embrulhos. Afastou as saias, sentindo um perfume morno e sensual de essência e de carne — faltava a de seda preta, a mais nova. Fora com ela, a linda saia que ele lhe havia dado meses antes, no dia em que ela completara dezoito anos, e que a mãe contara e cosera, cantarolando as suas modinhas tristes.

Não dizia palavra, apenas o seu rosto contraia-se em crispações nervosas e as pemas tremiam-lhe. Fechou o móvel, sentou-se na cama, com os braços caídos, e viu-se ao espelho do lavatório, demudado, os cabelos desfeitos, os olhos fundos e demorou o olhar, mirando-se. Pouco a pouco, porém, foi-se-lhe a imagem desvanecendo e uma sombra passou-lhe pelos olhos; agitou-se, e logo reviu-se, como em ressurgimento,

Fora, os soluços de Dona Júlia sucediam-se, a mais e mais angustiosos. "Que lhe hei de eu dizer, meu Deus!" Não lhe acudia uma palavra, apertava a cabeça entre as mãos, como a espremê-la, trincava os lábios e, de novo, cravava os olhos no espelho, revendo-se. E as jóias? Puxou a gaveta da cômoda — lá estava a caixa de veludo em que ela costumava guardá-1as — abriu-a: vazia! Meneou com a cabeça, contemplando o fundo de cetim negro, onde brilhavam letras douradas, entre medalhas. Fechou-a e depô-la de leve na gaveta, sobre umas gazes tênues. Afastando-se, sentiu que alguma coisa lhe fugia diante dos pés: baixou os olhos — era uma velha botina acalcanhada com o cano engelhado. Perto do lavatório jazia a parelha. Eram as botinas com que ela andava em casa.

Ficou a contemplá-las. Ah! Violante. Em súbito furor, atirou um murro à fronte rosnando: "Eu devia ter sido mais severo, mas mamãe... Encolheu os ombros e, como se lhe houvesse ocorrido uma idéia salvadora, levantou-se às pressas, abriu a gaveta do lavatório, mas ficou inerte, a olhar uma infinidade de selos esparsos. Fora ele que os arranjara com o Prates dos telegramas para a coleção que ela andava a fazer; estavam todos ali, em desordem, colados a pedaços de jornais, em fragmentos de envelopes carimbados. E cartas? Ela devia tê-las. Então, numa fúria, como um ladrão que tivesse pressa, receoso de ser surpreendido, pôsse a abrir e a fechar gavetas que, às vezes, emperravam e, nervosamente, revolvia retalhos, papéis finos amarfanhados, ferros de frisar, cromos, grampos, alfinetes. Mas a voz lamentosa de Dona Júlia chamou-o:

— Paulo!

Rápido, atarantado, lutou para fechar a gaveta do lavatório, que resistia, empenada, meteu-lhe o peito e, com um impulso fonte, com o qual tremeram, tilintando, a louça e os cristais, levou-a ao fundo, saindo imediatamente. Dona Júlia limpava os olhos.

— Paulo! repetiu.

— Que é, mamãe?

— E agora, meu filho, que havemos de fazer? — Ele pôs-se a torcer a toalha da mesa, sem dizer palavra. — Então essa gente da polícia não pode salvar uma moça?

(continua...)

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