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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Oh! fez ele descobrindo, com veneração, a bandeja, é muito amável. Sim, era amável a misteriosa dama e devia ter um cozinheiro perito.

A sopa era dourada e recendia. Por certo lá ao alto, no luminoso e calmo espaço, todo cheio do esplendor do astro, chegou o perfume porque a lua, dividida em partículas como uma hóstia, veio boiar nos olhos que cintilavam, como ardentias, sobre a superfície da sopa tão dignamente contida em uma tigela de porcelana da China. Havia uma fritada, um triângulo fofo e louro, incrustado de camarões, tendo no vértice uma gorda azeitona de Elvas; um prato de cabidela, fatias sangrentas de roast-beef, entre folhas tenras de alface, ladeadas por duas lascas de fiambre de uma cor de rosa macia; pão, vinho, dois damascos em calda, num pires, e uma grossa talhada de queijo.

A jibóia torcia-se com ânsia, atirando botes como se quisesse abocanhar de uma vez tudo quanto havia. O aroma punha-a em desespero inenarrável. Mas Anselmo como que se comprazia com o suplício da besta íntima, sorvendo voluptuosamente o perfume dos pratos e regalando os olhos com aspecto sedutor das iguarias.

Ó ciência difícil dos temperos! Ó arte sutil da ornamentação dos pratos. Um roast-beef, sem o recamo da alface, é como a mulher sem meias. Que delícia! Quem diria que ele havia de sair do leito para aquele delicado festim: De cubiculo recta in triclinium ire! Assim dizia Anselmo no coração enquanto a boca ia-se-lhe enchendo d'água.

A lua foi a companheira que teve, alegre e sóbria companheira, e a mulher, sentada pacientemente à porta, pôs-se a sussurrar um canto enternecido em que falava de amores, enquanto ele sorvia a colheradas a sopa que era um delicado polme de ervilhas sabiamente temperado, com leve sabor de paio e uns longes suaves de cravo-da-índia, Depois foi a fritada, depois a galinha e só ficaram na bandeja migas de pão, ossos de frango, um caroço de azeitona, dois de damascos, a casca recurva e roxa do queijo e palitos, o mais passou sofregamente ao bojo da jibóia que se enroscou de novo para digerir sossegada.

Só faltava o café, o café e a dama que bem merecia uma página de Arte, uma longa e rendilhada apologia, não dos seus dotes plásticos e de espírito, mas do seu fino paladar, tão nobremente recomendado por aqueles pratos rescendentes. Mas para o cozinheiro, como para o anfitrião, vale mais que todas as palavras, que podem não ser sinceras, a prova irrefutável dos ossos esburgados.

Sim, um elogio rasgado diz menos, e com menor expressão, do que quatro ossinhos lisos, chuchurreados, no meio do prato raspado. Pensou em atirar ao corredor os restos do banquete, mas não: queria que a generosa dama e o sábio cozinheiro vissem, com orgulho, que tudo havia comido, com escrupulosa gana, não deixando senão o que de todo lhe fora impossível engolir, como ossos e caroços. Esgotou a garrafa e, saciado, num bom humor de fartura, foi rebuscar no colete uns níqueis e deu-os à estupenda mulher que, à luz branda do luar, parecia menos aterradora e pesada. Oh! a delícia da saciedade!

— Deus lhe pague!

— Pede-lhe antes que me traga os sapatos. A mulher não entendeu e, guardando as moedas cautelosamente no seio, que era um outeiro em volume, tomou a bandeja e foi-se levando os ossos e novecentos réis. Anselmo acendeu um cigarro e debruçou-se à janela, enlevado na beleza da noite e, com os olhos no céu, pôs-se a recitar baixinho:

Le mal dont j'ai soulfert s'est enfui comme un rêve,

Je n'en puis comparer le lointain souvenir

Qu'à' ces brouillards légers que l'aurore soulève Et qu'avec la rosés on voit s'évanouir.

Era a primeira estrofe da "Noite de Outubro" de Musset e ia aos versos da Musa:

Qu'aviez-vous donc, o mon poète! quando Ruy Vaz apareceu no corredor. Anselmo sentiu a alma dilatar-se.

— Fui além da hora. Ah! meu amigo, se não fosse lembrar-me que estavas aqui descalço teria passado a noite a desfolhar malmequeres. Esplêndida criatura!

Atirou o chapéu sobre a mesa e respirou desafogadamente, Divina mulher! E tu? Como te foste? Leste as odes?

— Não: reli Baudelaire, dormi até a noitinha e, como estava com o estômago em condições de Deus poder reproduzir o milagre da criação do mundo, fiz de Elias aceitando um jantar que me caiu do céu.

— Eis aí um hotel que ainda não me forneceu pensão. Mas sem frase: — Onde jantaste?

— Aqui. O luar foi a toalha; jantei sobre a tua mesa de trabalho.

— Mandaste vir de algum hotel?

— Não. Apareceu-me a Providência, não como ao profeta sob a forma de um corvo — mas disfarçada em exuberante mulata...

— Vê lá! Não tenha o demônio armado uma cilada ao teu estômago.

Também a Santo Antão foi servida uma mesa lauta e todavia...

— Não, a mulata veio em nome de uma misteriosa mulher saber se aparecias hoje.

— Uma mulata monstro?! Uma mulata em dois volumes?! a Januária! A Januária da Elvira! exclamou o romancista.

— Não sei; eu tinha fome e não tinha sapatos.

— E pediste jantar...?

(continua...)

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