Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

Uma Tragédia no Amazonas

Por Raul Pompéia (1880)

Durante a noite, melodias campestres se elevavam das habitações da vila, cujas cúpulas de palha, servindo de pedestal a um mocho sombrio, brilhavam docemente aos ósculos luminosos do luar.

Lá dentro, entre suas pobres paredes de barro, mãos de rústico, lassas do ferro agrícola, tiravam das cordas de uma viola acordes cadenciados, de um encanto que só pode avaliar quem já os ouviu, os quais mergulhando na floresta iam suavizar o sono das avezinhas.

Estava-se, já o dissemos, a 14 de setembro.

A julgar pela força com que os raios de sol enchiam a atmosfera, sob o azul puro e claro do céu americano deviam ser nove horas, quando menos.

O leitor colocado no meio dessa planície que se desdobrava ao poente da habitação havia de presenciar o seguinte:

Rosalina, alegre como sempre, chegou risonha à janela, cantarolando a delicada poesia de Dirceu:

Como alegre vem nascendo A serena madrugada! Já d'aurora a luz dourada Duvidosa vem raiando.

E tu descansando Marília formosa, Escutar, etc.

Toda a sua atenção estava pregada em uma rosa pendente dos últimos ramos de uma esguia roseira que chegava a altura da janela. Estendeu o bracinho mimoso, coberto apenas por uma manga que nem lhe chegava ao cotovelo, tomando cuidadosamente entre dois dedos a flor, menos linda que ela e, depois de saborear os seus perfumes, entrou a contemplá-la conversando talvez em muda linguagem. As flores e as crianças se compreendem. Na mesma ocasião uma pessoa descendo sorrateiramente da colina escalou ousadamente a alta cerca de traves novamente construída, penetrando no roseiral. Esgueirou-se pela parede até pouca distância da janela ocupada pela menina, apontando-lhe uma pistola, depois de olhar várias vezes para trás e para um lugar onde poderia distinguir alguns olhos à espreita por entre as tábuas do cercado.

Que quadro! A candura e a inocência de um lado, de outro a perversidade e o crime.

Ia ressoar o tiro e Rosalina estava morta, mas a Providência velava.

Antes de cair o cão da pistola do assassino, uma fumaça tênue alvejou a folhagem de uma magnífica árvore da margem do rio; e soltando um gemido o bandido rolou, afogado em ondas de sangue.

Um tiro, providencial e certeiro como a faca que, dias antes, ferira um dos perseguidores de Eustáquio na picada, acabava de defender Rosalina contra a mão infame de outro celerado.

A orfãzinha estremeceu ao tiro, e soltando a rosa por um movimento instintivo gritou vivamente:

— Papai!

O esposo de Branca acudiu logo, porém dando com a vista de um corpo ensangüentado que jazia sob a janela conheceu que o tiro partira de braço amigo e não se assustou com ele. Correu ao lugar onde se via o corpo e pôs-se a examinar o seu estado. Era já cadáver, mas o que ele estranhou foi verificar que longe de ser um negro era um homem de cor branca (o que não obstava que fosse de meter medo) com a tez morena, cabelos ligeiramente cacheados e imundos a cair sobre a testa onde rugas profundas estampavam a ferocidade, parecendo um espanhol.

E o ex-subdelegado que supunha ter somente negros por inimigos não sabia o que pensar.

— Então enganei-me, dizia ele consigo. Bem pode ser.

— Como são atrevidos os tratantes, já querem entrar-me em casa. Ah! e não poder eu acabar com eles!

Cumpre notar que os paraenses estavam no povoado nessa ocasião, e disso deviam ter ciência os bandidos que se aventuravam a aproximar-se do roseiral, cousa que nunca tinham praticado em pleno dia. Contudo um sentimento de covardia fez com que, entrando, apenas um, ficassem outros espiando da parte de fora para prevenir as eventualidades.

Estes, cujos olhos o leitor percebeu entre as traves do cercado, correram para a montanha logo depois do tiro, arreceando-se da volta dos caboclos paraenses.

O ex-subdelegado não podia fazer mais que esperar pelos engajados. Deixou pois Ruperto de espingarda ao ombro passeando pelo roseiral e entrou em casa pela porta da cozinha, conversando com Branca enquanto não voltavam os seus soldados.

— Ainda, você não se convenceu dizia a mulher, de que não nos achamos em segurança? Não viu já que o novo cercado não suspende o braço dos nossos inimigos?

Eustáquio não tinha resposta e emudecia diante de Branca sem ter ânimo de encontrar com os seus os olhos da esposa, que aliás falava com a maior brandura. Parecia mais uma mãe repreendendo o filho, do que uma mulher que desejava arredar o esposo de um capricho o qual talvez acarretasse conseqüências funestas, máxime para ela.

Eustáquio rompeu o silêncio que conservava, falando:

— Dou-lhe, Branca, o conselho de fazer os arranjos necessários porque vamos definitivamente partir.

— Os preparativos já estão feitos há muito tempo, replicou a moça.

Eustáquio perturbou-se, todavia continuou decidido:

— Se assim é...

Antes de terminada a frase entraram os paraenses, e o protetor de Rosalina que não tinha vontade de continuar a conversar foi ter com eles guiando-os até o cadáver, que estava ainda perto das janelas de uma saleta próxima à cozinha, no lugar onde caíra.

— Quem matou este homem? perguntou um deles.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...7891011...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →