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#Contos#Literatura Brasileira

As joias da Coroa

Por Raul Pompéia (1882)

Passados alguns momentos, sorriu de um modo estranho e levantou o olhar para o guarda-livros. Aleixo firmava a vista naquele honrado depositário da confiança de um rico e poderoso duque, e assistia às cambiantes de expressão que davam-lhe à fisionomia os arroubos da meditação. Quando Pavia ergueu a cara, o seu olhar e o de Aleixo cruzaram-se faiscando como os floretes de dois dignos adversários que medem distâncias.

Ambos os adversários, depois de se medirem, trocaram risos que traduziam claramente a compreensão que tinham um do outro.

— Não devo sair enquanto estiverem aí esses maçantes...

— Eles não se demoram. Às nove, fecha-se a casa. São oito e trinta e cinco...

Daqui a pouco o patrão deita-os no meio da rua...

— Quando forem fechar a porta, eu retiro-me... haverá menos gente na rua...

Ouviu-se uma risada na loja. Aleixo deixou Pavia no escritório e foi espiar à fechadura da porta de espelho.

— Já vão, já vão! — disse, voltando-se para Pavia. — Não!... Ainda ficou um... Que ostra!... Ora, até que enfim... Lá se foi o último! Se quiser sair agora...

— Já vou — disse Pavia.

— Portanto, até depois d’amanhã... portão do matadouro... lá para uma ou duas da madrugada. — Sim.

E Aleixo passou com Pavia para a loja.

Pavia despediu-se dele, cumprimentou ligeiramente o dono do estabelecimento, que estava em uma porta a olhar para a rua com as mãos cruzadas sobre as abas do fraque, e foi-se.

CAPÍTULO VI

Três dias depois da conferência com o guarda-livros do rico ourives, realizava-se o contrato de Manuel de Pavia com o criado Inácio, e os dois cúmplices encontraram-se fora de horas para levar a efeito o projetado roubo.

Certificado de que a pessoa que tinha em frente era na verdade Inácio, Manuel de Pavia, com a voz comprimida por precaução, perguntou-lhe:

— Fez tudo o que eu lhe disse?...

— Fiz...

— Tem os formões? O macete forrado de pano? Tirou a corda que eu deixei no meu jardim, perto da cancela?...

— Não esqueci nenhuma de suas considerações... Quando saí de sua casa, fui à sala do armário, sem que se notasse a minha entrada no palácio... O armário é muito fácil de se arrombar, como bem me disse o senhor... A porta do jardim, abrindo-se o trinco por dentro, não oferece resistência... Só mesmo o seu dinheiro e as suas promessas poderiam fazer um sujeito depositar uma fortuna daquelas em tal lugar...

Pavia riu-se orgulhosamente da observação de Inácio:

— Quando eu o aconselhei a ter toda a confiança em mim, bem sabia por que falava...

— Pois eu, antes de ir deitar-me, abri o trinco da porta, certo de que o particular do duque, não sabendo do imprudente depósito das jóias, e apressado em ir dormir com a família, não se demoraria a examinar... Fui deitar-me muito calado... Ainda há pouco, saí do meu quarto, subi à sala grande, puxei a porta do jardim... não custou muito... Deu um pequeno estalo que ninguém devia ter ouvido... Aberta a porta, saí para o parque... fui ao seu jardim... tirei a corda que estava escondida no mato e aqui está na minha mão... Ah! ia-me esquecendo... Fui ali às obras que se estão fazendo perto da entrada da quinta, apanhei este formão e este macete...

Nessa ocasião quase acordei um sujeito que ali dorme para vigiar as ferramentas...

— Guarneceu de pano o macete?...

— Aqui o tem preparadinho...

— Portou-se muito bem... Podemos principiar a coisa...

Os dois ladrões dirigiram-se, pé ante pé, para uma escadinha de pedra que conduz a um jardim, graciosamente plantado sobre a muralha junto da qual estivera Pavia esperando; saltaram uma pequena grade de ferro; subiram a escada e foram até a porta do palácio, aberta pelo criado.

A porta estava apenas encostada... Pavia empurrou-a e entrou. Inácio entrou depois dele. A porta tornou a fechar-se.

A sala do palácio estava de uma escuridão impermeável.

O menor ruído provocava a ressonância imponente dos lugares grandes e vazios. Os dois atrevidos criminosos sentiam-se impressionados com aquela escuridão e aquela ressonância de catacumba.

— É preciso luz — disse Pavia baixinho.

As palavras, ressoando frouxamente nos ângulos da sala, zumbiram-lhe aos ouvidos por muito tempo...

— Eu me esqueci da vela — objetou Inácio. — Eu a trouxe...

E Pavia, como que temendo iluminar o seu crime, tirou com a mão trêmula uma caixa de fósforos e uma vela de que se munira, mas hesitou em ferir fogo...

— Não achou a vela? — informou-se o criado do duque. — Achei... aqui tem... segure, para eu riscar o fósforo.

Inácio tateou pelo ar até encontrar a mão de Pavia e tomou a vela. Pavia riscou o fósforo. O fósforo falhou.

— Diabo! Estou trêmulo...

Pavia riscou de novo. Riscou terceira vez. Toda a escuridão da sala fugiu à explosão do fulminante.

Os ladrões tinham certeza de que aquela porção do palácio devia estar sem viva alma. O particular do duque, que habitava um compartimento vizinho da sala do armário, achava-se fora. Os criados alojavam-se no pavimento inferior. Não havia, pois, quem ouvisse os rumores feitos na sala.

(continua...)

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