Por Lima Barreto (1911)
Viram os senhores até que ponto os acontecimentos me levaram; mas não lhes pude dizer as conseqüências que tais sucessos determinaram. No Estado, as coisas se explicaram e todos ficaram satisfeitos; mas, conhecida a história no Rio de Janeiro, não tardaram os jornais oposicionistas, que eram quase todos, a explorá-la, a troçá-la em todos os tons e alguns mais ferozes frisaram bem a minha condição de funcionário público e os governistas acusaram-me de ter-me vendido aos oposicionistas para, de tal maneira, desmoralizar o benemérito governo do general Simplício, “o único que até agora tinha sido verdadeiramente republicano”.
Quem mais zangado ficou comigo foi o tal Bonifácio, o poderoso heril do presidente fainéaut. Era um tipo de sujeito comum, mas azedado pelos baixos ofícios que tinha exercido e desmedidamente envaidecido pela posição em que a sorte o colocara. Fora sargento de batalhão e trazia para a alta administração a concepção de governo de uma companhia. Não tinha podido ainda formar-lhe na cauda; não se me oferecera ocasião, de modo que fui sacrificado e ninguém se animou a defender-me diante dele.
Ao chegar ao Rio, tive notícia de demissão, a bem de tudo. Não deixava de ser um acontecimento bem importante na minha vida. Ganhava quase dois contos de réis e nada fazia, a não ser despachar licenças para as vacarias e estábulos da cidade.
Tendo vivido sempre na miséria e, possuindo pela minha educação gosto pelas altas coisas, logo que vi dinheiro, comecei a gastá-lo. Comprei alfaias, roupas, móveis e livros.
A minha casa, nas Laranjeiras, era um primor e, tendo bem forte os sentimento da miséria e das necessidades, tive a bolsa sempre aberta aos grandes e pequenos pedidos de dinheiro que me faziam.
Desse jeito, ao me despedirem, eu me encontrava completamente desprevenido. Não desesperei e procurei o Senador Sofônias para ver se ele inutilizava a minha exoneração.
Recebeu-me o Senador com a cara fechada e uma solenidade grotesca de grande sacerdote de uma extravagância religiosa da África ou da Ásia. Foi-me dizendo logo:
— Menino, não gosto que os meus amigos concorram para a desmoralização do regime.
Apanhei o ar mais humilde que me era dado ter, e disse ao sumo pontífice do regime:
— V. Exa. não sabe como as coisas se passaram. Não tenho absolutamente culpa. O “homem” não era lá conhecido. Quis livrar-me das cacetadas das consultas sobre moléstias de bois, cavalos, cabras e até de cachorros e gatos e dei aquele nome no hotel, sem saber que, por ele, acudia o eminente político que V. Exa. apóia. Não o conhecendo, tomaram-me por ele e, sob ameaças, fizeram-me aceitar o papel a contragosto... Foi assim.
Dei-lhe mais detalhes, narrei-lhe toda a verdade e ainda acrescentei:
— Admira-me que V. Exa. tenha patrocinado a candidatura de pessoa que ninguém conhece no Estado.
— Eu! Isto está tudo de patas para o ar...
Depois, como se quisesse apagar o efeito daquele desabafo, ajuntou:
— Não patrocino coisa alguma. Disseram-me que era o povo, o Bonifácio o quer e eu também o quero.Menino, no nosso regime, não há patrocínio; há escolha da soberania popular. Este é que é o seu “status quo”.
Não deixei e admirar as conseqüências de tal teoria, dando em resultado o advento de um desconhecido ao tal povo e também aquele emprego engraçado de “status quo”, mas evitei fazer qualquer comentário e falei-lhe na minha reintegração:
— Compreende V. Exa. que nem tive tempo de dar começo ás minhas experiências. Sinto até remorsos de Ter recebido do governo tanto dinheiro e nada ter feito. Desejava muito poder voltar para mostrar de que forma os meus projetos são excelentes.
Sofônias acendeu o cigarro, ergueu-se, pôs uma das mãos à cintura e, agitando a direita com um jeito sacerdotal, aconselhou-me:
— É preciso ter muito cuidado com os pequenos fatos. São os grãos de areia que mudam a sorte dos impérios. Não me posso meter no teu, porque o autor da demissão é o Bonifácio, um rapaz orientado, verdadeiro republicano, respeitador fetíchico do regimen... Deves procurá-lo e, antes, explicar como foi a coisa pelos jornais.
Sentou-se, quando acabou, e eu lhe objetei:
— Mas, Senador, V. Exa. há de anuir que eu não posso confessar que me obrigaram à força a ir ao palácio.
— É verdade, menino. mas tens um bom “desgarro”.
— Qual é?
— Afirmas que foi a multidão. Procura por aí um rapazola hábil nessas coisas de escrever e pode ser que arranjes a coisa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.