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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

O paquete avançava majestoso e a lancha ia passando entre um cruzador e um pontão quando sons agudos de corneta retiniram, depois apitos e um escaler foi baixando dos turcos sobre o mar onde começou a balouçar-se graciosamente.

— Belo navio, disse Anselmo.

— É a Guanabara.

— A minha carreira...

— O homem, pois gostas disso?

— Da marinha? Não estou ali a bordo porque meus pais entenderam que eu tinha vocação para médico. Fui mesmo à escola, mas no anfiteatro, diante do primeiro cadáver, o meu estômago protestou com tanta energia que resolvi abandonar o escalpelo e o esqueleto e atirei-me à balança e à espada. Ah! Meu amigo, o mar...! Não imaginas como adoro o oceano!

— Pois eu detesto-o.

— Enjoas?

— Não, a bordo devoro como um escrivão de cartório. Mas deixa lá! Não há como a terra firme: pisa-se em cheio. Isso de saber a gente que está à mercê do vento e da vaga não é comigo. Shakespeare já disse: pérfida como a onda e eu já me vi com água pela barba, em uma viagem.

— Naufragaste?

— Quase! Fomos sobre uma pedras e não te digo nada... que horror! Mas sabes o que mais pena me causou? Foi ver lançarem ao mar um precioso carregamento de conhaque... caixas sobre caixas. Eu quis protestar com uma objeção razoável. "Comandante, se continua a dar bebidas ao oceano então é que ele nos arranja alguma com a ressaca..." Mas o homem estava tão grave no seu posto de responsabilidade que retirei o conselho e meti-me no beliche chorando o desperdício. Nada como a terra firme, sempre há mais segurança. Em terra só naufragam empresas. Isso de ir um de nós para as areias alimentar as sardinhas não é nada sedutor. Não há como um homem sair da sua casa barbeado, vestido, em um caixão de primeira com os seus parentes e amigos para o cemitério. Sempre a gente sabe onde está... e pode ter a sua coroa no dia de finados.

— Ora, isso é uma preocupação fútil.

— Como preocupação fútil? Não acho. Eu é porque não tenho dinheiro; mas logo que arranje um cobrinho, compro quatorze palmos de terra em S. João Batista e mando edificar o meu mausoléu, tão certo como estarmos nesta lancha ronceira.

— Para que quatorze palmos?

— Porque eu conto com a família que há de querer morar comigo, mesmo algum amigo, terá casa às ordens.

— Pois eu preferia descer ao fundo do mar.

— Pois meu caro, se para lá fores não contes comigo para acompanhar-te o enterro. Ó patrão, esta lancha não anda. Parece que não saímos do mesmo lugar.

O paquete passava enorme, sereno. À proa uma multidão apinhava-se — homens, mulheres, crianças alongando olhares para a terra desconhecida. O Neiva pôs-se de pé e, com o chapéu na mão, bradou:

— Salve, Ceará! E logo, visivelmente comovido, pôs-se a falar como se pudesse ser ouvido: Cearenses, está aqui o Neiva, vosso irmão, vosso patrício que vos veio esperar. O Neiva! E o paquete seguia para a bóia. A lancha partiu então, a toda a força, acompanhando-o e o Neiva, sempre de pé, bradava: Cearenses, aqui estou eu! Aqui estou eu!

— Vem cheio que nem um ovo, disse um dos homens da lancha.

— Gente feia! — exclamou outro.

— Feia, mas honrada, protestou o Neiva.

— Parece chim.

— Que chim?!

— É sim, seu Neiva.

— E eu? Eu tenho alguma coisa de chim?

— Vosmicê não.

— Pois eu sou cearense.

— Mas vosmicê não é arretirante, lá dos cafundós.

— Quais cafundós! Um homem daqueles vale por dez de vocês!

— Que esperança! Farinha seca não engorda. Aquilo é gente!? Barriga só.

— Pois sim. Vão lá vocês meter-se com um daqueles caboclos.

— Ora, seu Neiva! Era num tempo só... Tudo aquilo junto não dá para a brincadeira de cinco de nós.

A âncora mergulhava e a lancha avançou, manobrando atracar à escada de bombordo.

Subiram. O paquete estava literalmente tomado pelos retirantes. Era uma população que ali vinha apertada, constrangida, chorando o mesmo infortúnio. A proa úmida tresandava, redes cruzavam-se: umas estiradas, nas quais mulheres cadavéricas, macilentas, tostadas pelas grandes soalheiras dos campos largos, em mangas de camisa, com as aduelas dos peitos apontando, fumavam nostalgicamente, de olhos ao longe, perdidos num sonho. Velhos abaçanados, escaveirados, cabelos hirsutos, chapéu de coco à cabeça, a camisa de madapolão desabotoada, deixando ver os bentinhos e os amuletos pendurados do pescoço, com as mãos cruzadas nos joelhos, não se moviam como se não houvessem chegado ao termo da viagem. Rapagões sacudidos, faca à cinta, na bainha de couro, falavam em ritmo dolente de canto, num tom interrogativo. Mocinhas púberes, de olhos lindos, tez macia e rosada, cabelos de um negro de azeviche, mal levantavam as pálpebras timidamente, acotovelando-se. Crianças nuas, ventrudas como gnomos, rebolavam-se no chão; pequenitos de mama dormiam em esteiras, ao sol, nus, as mãozinhas na boca.

A um canto, sobre um rolo de cabos, um velho cego cantarolava e uma robusta rapariga cor de azeitona, de lábios grossos e sensuais, muito dengosa, fazia crivo com a almofada ao colo.

(continua...)

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