Por Coelho Neto (1890)
— E louco por uma xícara de café.
— Vamos tomar. Entraram no lava e o Neiva, servindo-se de açúcar, disse de repente: Homem, queres uma impressão?
— Preferia um par de sapatos.
— Isso agora é difícil.
— Dize lá.
— Vem comigo a bordo. Vou receber a primeira leva de retirantes.
— Os cearenses?
— Sim.
— É hoje?
— É agora. O paquete está entrando.
— A que horas poderemos estar de volta?
— Às duas. Se queres, decide-te.
— Vou. O diabo é que perco a hora do almoço.
— Almoçaremos a bordo.
— Mas... haverá ainda alguma coisa? Um navio que vem do Ceará...
— Ó homem, avia-te!
— Vamos lá. Seguiram.
CAPÍTULO XXII
O Neiva, muito loquaz, pôs-se a falar dos patrícios que vinham nesse êxodo triste, tocados pela fome.
— Pobre gente! É o sertanejo da minha terra, é o rústico do meu campo cearense, é o caboclo serrano, é toda a população do grande centro flagelado. Vais ver que miséria. Deus não se compadece do meu Ceará. De vez em quando é isso — um sol tremendo que bebe toda a água dos rios, que seca todas as fontes, e começa o abandono da terra. Quem anuncia a calamidade é o gado arribando das várzeas adustas com o "choro" lamentoso que se ouve à distância como um prantear da natureza sacrificada. Parece que é a própria terra que geme e clama misericórdia. Depois é o homem que, vendo mirrar a sua roça e não encontrando gota de água no açude árido, fecha a porta da cabana e emigra. Oh! A retirada...! O gado vai caindo exausto pelos caminhos e os corvos baixam sobre os bois magros e acabam-nos a bicadas, devorando-os em vida. O homem, mais resistente, caminha afundando os pés na areia adusta, com a cabeça ao sol, cantando para suavizar a marcha dolorosa. E são velhos trôpegos que mal podem mudar um passo, mulheres, crianças e moças virgens, sertanejinhas formosas, abandonados, caminhando sem ver um oásis, através da esterilidade inclemente.
Se um pântano aparece ao longe, precipitam-se atropeladamente, ajoelhamse à beira d'água morta e bebem, arrancam a taboa e envenenam-se. Alguns morrem e ficam apodrecendo nos caminhos; outros, com desânimo, deixam-se cair à sombra escassa de uma árvore sem folhas e sucumbem à míngua ou devorados pelas onças. E quanta tristeza nas cantilenas! Este, lembra a sua casinha de palha, entre os milhos; aquele, fala, com saudade, da sua roça, do lugar em que nasceu, de onde saiu pela primeira vez, expulso pelo sol. E o clamor, que é assim que eu chamo ao canto dos retirantes, o hino magoado dos banidos, ecoa de quebrada em quebrada lamentavelmente.
Mas, meu velho, mais cruel que o sol é o coração do homem. Esses infelizes são explorados na sua miséria. A virgem, quando chega à primeira vila, aparece logo o libertino propondo um punhado de farinha a troco da sua pureza, e a desgraçada, que tem fome, entrega-se, às vezes, perto dos pais moribundos, diante dos pequeninos irmãos, que olham espavoridos.
— É infame!
— É uma miséria! Mas que queres? É assim. Eu queria que me mandassem dirigir o serviço no Ceará e eu que encontrasse um desses patifes! Arregalou os olhos e bufou colérico, com os punhos cerrados: Esganava-o, palavra de honra! Esganava-o! Vais ver a miséria.
Haviam chegado ao cais Pharoux. Catraieiros avançaram de chapéu na mão, oferecendo botes:
— É para o nacional? Temos ali a Maria Flora, patrão... Olha o Ventania... É para o francês? Quer um bote, patrão? Eu tenho toldo. Podemos ir à vela... E assediavam-nos, falavam ao mesmo tempo, disputando os dois rapazes. E o Neiva, muito calmo, sem lhes dar atenção, bradou diante do mar:
— Lá está ela! Ali vem! Irrompeu então contra os homens. Pois os senhores não me vêem embarcar aqui todos os dias? Não sabem que tenho lancha? Não me conhecem? E empertigado, ameaçando com a bengala: Enquanto eu não vier um dia disposto a fazer uma limpeza neste cais isto não endireita. Os catraieiros retiraram-se cabisbaixos e o Neiva, rugindo, acompanhou-os algum tempo com o olhar chispante. Depois voltou-se para o Castelo: Lá está o sinal do paquete. Vamos, está aí a lancha. E caminharam para o embarcadouro.
Como deviam entrar dois paquetes, já assinalados no Castelo, era grande o movimento de embarcações no mar — botes que iam à vela ou a remo, lanchas que partiam sulcando fundo as águas. A baía fulgurava toda em chispas, ao sol. Gaivotas circulavam no ar puro, grasnando. Os dois tomaram a lancha que logo se pós em marcha, demandando o navio que entrava, lento e negro, vagaroso, pesado. — Pobre gente! — exclamou o Neiva com a mão em pala diante dos olhos encandeados. Parece que vem ali um pedaço da minha terra infeliz, o meu Ceará amado. Por que há de o Senhor causticar aquela bendita região dos palmares? É uma praga! Parece que o Ceará foi escolhido pelo sol para vítima. De tempos a tempos, bumba! Lá vem a seca e é isto que estás vendo — o Sertão a emigrar, a fugir diante do incêndio e da aridez.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.