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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Não respondi ao hoteleiro e ele não sei como interpretou o meu mutismo. Calou-se e se foi. Dormi maravilhosamente aquela noite e bem cedo saí pela cidade.

Uma cidade, como aquela, sem fábricas de qualquer espécie, não tem, ao amanhecer, movimento de espécie algum. Encontram-se, a espaços, vendedores de pão, uma carroça ou outra e mais nada. Após o passeio, voltei a almoçar e reparei que os meus companheiros d hotel olhavam-me de uma forma indecentemente insistente. Que teria eu? Almocei à pressa e saí logo à passeio.

Não tinha a cidade muito aonde ir; não possuía arrabaldes nem sítios pitorescos, mas descobri uma fábrica de cerveja, num dos seus extremos, com um botequim anexo, onde me deixei ficar por algumas horas.

Voltei ao centro, ao entardecer, e procurei o lugar de mais movimento. Procurei um café e entrei para tomar cerveja. Olhando ao derredor, verifiquei que continuavam a olhar-me da mesma forma que no hotel. Que teria eu? Levantei-me resolvido a ir-me no dia seguinte. Quem sabe se não me tomavam como espião, como político adversário da situação e não premeditavam alguma violência contra mim? A situação nos Estados do Brasil era tão confusa que tudo era possível.

Levantei-me amedrontado e, cheio de temor, atravessei por entre as mesas. Atravessando-as, ouvi que partiam dos grupos nela sentados frases destacadas como estas:

— É ele.

— Não é.

— É. Tem o mesmo nome e é louro.

Não tive logo certeza que se tratasse de minha pessoa, mas em caminho do hotel, nas ruas por onde passei, continuei a ouvir:

— É ele.

— Não é.

— É. É louro.

Não imaginam o pavor que fiquei possuído e foi apressado que entrei no hotel. Que diabo queriam aqueles homens comigo? Fui ao quarto, fiz a minha “toilette” de jantar e abanquei-me à sala respectiva.

Dei começo à refeição e, ainda estava no meio dela, quando um capitão, inteiramente fardado, veio ao pé de mim e me disse:

— É com o Dr. Manoel da Silva que tenho a honra de falar?

— Um seu criado — disse-lhe eu.

— Desejava ter uma conferência reservada com o senhor.

— Para já?

— Não. Pode jantar e depois, então, falaremos.

Fiz o possível para conservar o meu sangue frio, mas não consegui comer mais nada e dei-me por satisfeito antes de acabar as iguarias do sr. Barbosa.Dirigime logo para o quarto e o capitão seguiu-me. Lá chegando, ele me foi dizendo à queima roupa:

— Está tudo pronto! Não há tempo a perder.

— Como? Que é?

— Não tenha medo. A força garante.

— Garante o quê?

— A sua posse.

— Que posse?

— No lugar do governador. Não é o senhor o Doutor Manoel da Silva?

Não tive outro remédio senão dizer quem era e o capitão insistiu:

— Então, prepare-se. Tenho ordem do Bonifácio. Aqui está o telegrama. Leia!

Passou-me o telegrama e eu li o seguinte: “Dê posse ao Manoel da Silva, custe o que custar. Bonifácio”.

De há muito não lia jornais e não sabia que havia para o Estado de Carapicus um candidato, com o nome que eu usava, à sua governança. Esse candidato era inteiramente desconhecido no Estado e fora apresentado porque mantinha estreita amizade com esse tal Bonifácio, espécie de mordomo do Presidente da República, sobre cujo ânimo tinha esse serviçal uma dominação sem limites.

Depois de muitos disparates, consegui saber tudo isso e protestei ao capitão que não era o tal Manoel da Silva que ele pensava; o homem, porém, não acreditou e julgando-me cheio de medo, intimou-me:

— É o senhor, por força. Disseram-me que era louro; o senhor é louro, é por força ele. Temos “trabalhado” muito e ou o senhor aceita e nós o pomos no palácio, ou foge às suas responsabilidades e eu o mato.

Estava em séria colisão e tinha que escolher entre essas duas pasmosas coisas: ser governador do Estado de Carapicus ou morrer.

Levei toda a noite a pensar, a imaginar um meio de sair-me daquela atrapalhação. Quis fugir, mas certamente, desconhecendo inteiramente a cidade, seria pior, pois logo cairia nas mãos de um ou de outro partido, e o meu fim seria o mesmo.

De manhã, muito cedo, chegou-me o tal capitão que me mostrou um outro telegrama: “Emposse o homem, custe o que custar. Bonifácio.”

— Então — perguntou-me ele — aceita ou não?

— Aceito.

— Fez bem, Doutor, porque senão o senhor não voltaria mais ao Rio. Prepare-se para receber uma manifestação.

Não saí do hotel naquele dia e, à tardinha, apareceu-me na rua uma charanga militar, seguida de algumas centenas de pessoas, parando na frente do estabelecimento do Sr. Barbosa.

— Viva o Dr. Manoel da Silva! Viva! — gritavam.

Estava cheio de medo, mas o hoteleiro e mais o tal capitão empurravam-me para a janela, de onde comecei a ouvir os oradores.

Dizia um, na peroração:

“ Dr. Manoel da Silva, salvai-nos, libertai-nos desse monstro que nos devora, que mata os nossos filhos, que nos furta, que nos esmaga! Sede o nosso Moisés! Levai-nos à terra da Promissão, à Canaã sonhada!”

Os outros repetiam a mesma coisa e eu estava diante daquilo tudo completamente besta. Não haveria um remédio, um meio de esclarecer aqueles tolos todos de que eu não tinha tais predicados. Os oradores acabaram e vivas foram erguidos.

(continua...)

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