Por Coelho Neto (1890)
— Roupa branca, meu amigo! Roupa branca: uma camisa, um par de meias, ceroulas e dois lenços... Ó maravilhoso achado! Eu devia hoje mudar o meu linho e foi Deus que me inspirou.
— Pois queres vestir a roupa do Teixeira, homem?!
— Certamente.
— Mas desapareces e vai ser um trabalho para eu encontrar-te. É uma loucura.
— Qual loucura! Antes de mais nada a limpeza. Bem vês que a minha camisa está ganhando uma cor neutra, porque não é branca nem cinzenta e esta é alva como a inocência. O diabo é a gola. Ora! Ao menos andarei folgado. E, atirando para um canto a camisa neutra, vestiu a do Teixeira que recendia suavemente a erva de S. João. Mas a gola...! Se Anselmo baixava a cabeça ia-se-lhe o queixo pelo abismo, se a levantava aparecia-lhe metade do peito. "Mas o ar penetrava livremente... era como se estivesse nu..." — disse o boêmio arregaçando as mangas compridas. Valente pescoço, sim, senhor! Valente pescoço!
— Anselmo, tira essa camisa, está indecente.
— Qual indecente! Uma camisa que cheira como o mês de Maio. Ó inveja, bem te conheço.
E vestiu as ceroulas. Fortúnio não se conteve — desatou a rir vendo o companheiro naquelas amplas bombachas. As meias cobriam-lhe o pés e ainda sobraram, como etc., etc., duas pontas indefinidas.
— O pé do Teixeira vale bem os versos do Silva. As meias parecem folhetins... com o "continua". Tanto melhor: quando estiver suja uma metade calço o resto.
— Não são meias, são inteiras.
— Em compensação, os lenços são magníficos.
— Mas tu pretendes sair assim, Anselmo?
— Por que não?
— Estás hediondo.
— Mas limpo.
— Procura um espelho.
— Qual espelho! O meu espelho é a consciência. Vamos tomar café. Se eu desaparecer na camisa, puxa-me.
— Não olhes para baixo.
— Por quê?
— Por causa da gola: podes ter a vertigem do abismo. — Descansa — olharei para diante.
Contendo o riso, Fortúnio saiu com o companheiro. Na rua várias pessoas olharam, com espanto, a imensa gola por onde o vento entrava uivando como por um túnel. Mas o boêmio, de cabeça alta, seguia para o Java, onde fez um almoço de assobio em companhia de Fortúnio.
Às duas horas estavam no Pascoal, discutindo a literatura do Norte, quando o Teixeira rompeu, fulo de ira:
— A minha roupa, senhor Fortúnio. Pois os senhores pedem-se o Grêmio, transformam-no em hospedaria e, ainda por cima, carregam a minha muda de roupa?
— Perdão, disse Fortúnio sisudo, eu não tenho a sua roupa.
— Eu não sei quem a tem, o caso é que ela desapareceu da lata. Então está com o outro.
Anselmo, que vira entrar o Teixeira, alteou a voz, falando dos russos, mas o arquiteto interrompeu-o:
— Minha roupa! Vendo a imensa camisa, reconheceu-a imediatamente e, de braços cruzados, meneando com a cabeça, exclamou: Ora, seu Anselmo... pois você!
— Que é?
— Que é! É a minha camisa que o senhor tem no corpo.
— É tua?
— De quem há de ser?
— Pois olha, não sabia.
— Ah! Não sabia? Pois saiba então. A camisa, as meias, as ceroulas, tudo que o senhor tem no corpo.
— Perdão: as calças são minhas, o colete, o casaco, a gravata, o chapéu, as botinas...
— Eu falo da roupa branca.
— Branca é um modo de dizer: amarela, porque está encardida. Tens uma lavadeira detestável.
— Não sei, vamos ao Grêmio porque eu preciso da roupa. Quem o alheio veste...
— No Grêmio o despe, concluiu o boêmio, e fleumaticamente: Mas eu não dispo.
— Como não despes? Então pretendes ficar com o que é meu? Achas que devo andar com um colarinho amarfanhado e você aí muito janota...
— Janota com esta gola? Ora seja tudo pelo amor de Deus! Teixeira, deixame com a roupa. Eu quero devolver-te lavada pela minha lavadeira, que é uma artista.
— Mas eu não quero! — rugiu o arquiteto.
Das outras mesas já olhavam curiosamente quando o Patrocínio e o Moraes decidiram intervir na questão, responsabilizando-se, o primeiro pela camisa e por um pé de meia; o segundo, pelas ceroulas e pelo outro pé de meia. E o Teixeira foi convidado para a mesa tomando furiosamente uma cajuada, enquanto o queixo de Anselmo aparecia e desaparecia no abismo do colarinho.
Quinze dias depois o Grêmio de Letras e Artes, esperança do Brasil literário, fechava as portas depois de renhida discussão, que ia degenerando em pugilato. Os ilustres fundadores do grande cenáculo saíram pesarosos e convencidos de que, entre homens de letras, não há espírito de associação.
— "Não coadunam, dizia o louro secretário, homens de talento não fazem liga, é escusado. Um poeta e um romancista podem engalfinhar-se, ligar-se é que não. Isso nunca!"
E durante um mês, aos jantares, não apareceu proposta alguma para fundação de clubes literários.
Fortúnio e Anselmo sentiram profundamente, porque perdiam uma casa magnífica, posto que o Teixeira, escarmentado, não quisesse mais permitir dormidas no santuário do espírito. Resignaram-se e atiraram-se ao mundo com coragem e fé.
Uma manhã, Anselmo rondava os cafés lançando olhares compridos, quando o Neiva apareceu esbaforido:
— Ó homem! Madrugaste?!
— Não dormi.
— Como, não dormiste?
— Não, passeei: fui a Botafogo a pé, fazer horas.
— Deves estar estafado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.