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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Governador. Trato pura e simplesmente de uma questão administrativa. Não há política. O governador não lhe deu ouvidos e continuou a gritar lá da cadeira de balanço:

— Senta-te, Salvador! Não prestas pra nada! Fala agora o João!

Salvador ainda esteve uns minutos em pé sem saber o que fazer, olhando aqui e ali; porém, um berro mais enérgico do presidente fê-lo cair sentado sobre a cadeira, como se tivesse sido derrubado por um raio.

Assisti todo o resto da sessão. Não houve mais a intervenção enérgica do general doutor presidente. Por fim, um deputado apresentou uma moção de congratulação com o coronel Firmino, chefe político em Caxoxó, por fazer anos naquele dia.

Inteirado do funcionamento dos dois poderes do Estado, tendo a respeito tão excelentes notas, quis observar em outra unidade política da Federação a marcha de sua administração. Embarquei para o Estado dos Carapicus, que fica muito ao sul do dos Caranguejos.

Pouco tinha a mais que ver, pois o que me fora dado assistir nos domínios do General Contreiras me pareceu ser o resumo da política estadual; contudo, dispus-me a ver como se passavam as coisas em outro Estado, porquanto podia tomar nota de um ou outro detalhe expressivo.

Não tinha muita esperança nisso, à vista da parecença estreita que têm as partes do Brasil entre si.

Todas as cidades se parecem, tem a mesma fisionomia, possuem casas edificadas da mesma forma e até as ruas têm os mesmo nomes e os apelidos das lojas de comércio são os mesmos.

Um país tão vasto, que se desenvolveu através de climas e regiões tão diferentes, é, entretanto, nos seus aspectos sociais, monótono e uno.

Tinha verificado isso na minha viagem para o Estado dos Caranguejos e certifiquei-me da verdade dessa verificação quando voltei.

Imaginei que a coisa também se desse nos aspectos políticos, mas não quis ficar em suposição e tratei de certificar-me da verdade, vendo os fatos que eram objeto dos meus estudos.

Cheguei a capital do Estado dos Carapicus num domingo à tarde. No logradouro de desembarque, tocava uma fanhosa banda de música e as moças do lugar, muito enfunadas nos seus vestidos domingueiros, passeavam pelo largo com uma satisfação de prisioneiras em temporária liberdade.

Vista Alegre, essa capital, é uma pequena cidade de vinte mil habitantes, muito montuosa, sem monumentos, nem mesmo as velhas igrejas de estilo jesuítico que se encontram pelo Brasil todo. O Estado dos Carapicus é dos mais pobres do Brasil; não tem uma produção característica e importante. Vive de magras culturas estritamente indígenas e possui riquezas florestais de difícil aproveitamento.

Saltei na sua capital com o nome trocado e isso havia feito após as maçadas que o meu nome estrangeiro e a minha qualidade de diretor da Pecuária me haviam dado em Tatui.

Quando lá souberam que eu tinha tão elevado cargo na administração nacional, não me deixaram fazer consultas, a respeito das moléstias de bois e cavalos.

Vi-me sempre em sérias atrapalhações para resolvê-las e, quase sempre, receitei e aconselhei drogas que mais matavam os animais que a própria moléstia.

Tendo sido tão terrível exemplo do quanto custa ser-se diretor da Pecuária Nacional, troquei de nome, adotando um bem português, e fiz chamar-me de Dr. Manoel da Silva.

Eu falava já muito bem português, sem o mais leve acento estrangeiro, de forma a poder iludir perfeitamente os nacionais sob o meu disfarce de Silva. Abandonado os meus nomes russos, conservei, porém, o Doutor, título indispensável para se ter no Brasil a consideração que os hoteleiros, os copeiros, os catraieiros etc., dispensam a qualquer cavalheiro em todas as partes do mundo, com ou sem títulos.

Saltando em Vista Alegre, dirigi-me logo a um hotel, Hotel Barbosa, onde pedi um quarto. Reparei que, quando dava o meu nome português ao hoteleiro, o homem fez uma careta e olhou-me com espanto. Tomei banho, mudei de roupa e fui jantar. Logo que me pus à mesa, o meu hospedeiro veio sentar-se ao meu lado e falou-me cheio de atenções e delicadezas.

— Então, Doutor, resolveu-se a vir, não foi?

Não atinava com o motivo dessa pergunta, porquanto, por mais que me lembrasse das minhas tenções, não achava nas minhas recordações hesitação em vir ou deixar de vir ao Estado dos Carapicus; entretanto, por complacência, respondi:

— Pensei muito e resolvi-me.

O Sr. Barbosa fez-se mais blandicioso e continuou:

— Já temos aqui dois batalhões.

— É útil — disse-lhe eu — sempre traz lucros para o comércio.

— É, mas demoram pouco. Ainda se ficassem....

— Quem sabe lá? Aqui é lugar saudável e talvez o governo os deixe ficar.

— Nós estimaríamos bem , porque assim ficávamos mais garantidos, a não ser que...

Por aí, como que teve medo de adiantar-se muito, calou-se, mas em breve recomeçou:

— V. Exa. sabe que não sou político, mas há certas coisas que a gente não pode ver sem protestar. O governador parece que perdeu a cabeça e está dando por paus e pedras... Não sou político, mas há certas coisas que fazem a gente ficar indignado.

(continua...)

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