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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

Violante lançou um derradeiro olhar à casa, e pondo o chapéu ao acaso, falou à Ritinha:

— Fica aí um vestido meu. Mando-o buscar logo mais.

E saiu apressada, como a fugir daquela miséria onde a morte deixara o seu fortum funéreo, feito dum misto de aroma de flores fanadas e do cheiro aborrecido das velas de cera. O homem despediu-se dela à porta do coupé que partiu. A mulata ficou a remorder-se de fúria, abriu a janela e explodiu:

— Grosseirona! Quem sabe se eu sou criada! Uma vagabunda e tão cheia de empáfia. Comigo não!

A vizinha apareceu à janela e a mulata desabafou:

— A senhora já viu? A tal sujeitinha. .. Nem para agradecer o que fiz pela mãe... como se eu tivesse obrigação.

— Já foi?

— Já, com o amigo.

— Ah! minha senhora, essa gente... Enquanto está por cima é assim:

presunção até o diabo dizer basta! Mas também dura pouco. Eu é que nunca fui orgulhosa.

Calou-se, como recolhida às recordações do seu tempo de fastígio. De repente, tomando ao acaso:

— E a senhora pensa que ela sentiu alguma coisa? tudo fingimento.

— Isso sei eu... Pois não vi?!

— A pobre da velha é que se foi, coitada! — Ora, antes assim... Está com Deus.

Depois de um silêncio a vizinha, lançando os olhos ao céu azul, ao mar luminoso, disse extasiada:

— E foi com um dia lindo! — Muito bonito!

Calaram-se, d'olhos alongados, contemplando o mar azul palhetado de sol. Foi a mulata que interrompeu o êxtase:

— Bom, até logo. Vou varrer e defumar a casa para acabar com este cheiro de morte.

— É sim, confirmou a outra. Até logo.

E despediram-se risonhas, com adeusinhos íntimos.

FIM

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