Por Coelho Neto (1890)
— Até amanhã.
— Até amanhã.
Sós, com todo o gás da casa aceso, sentaram-se nas cadeiras dos "imortais" e Fortúnio, acendendo um cigarro, estirando as pernas, rompeu o silêncio.
— Ora muito bem. Já é alguma coisa a literatura: fornece hospedagem. Graças ao nosso talento temos uma casa para dormir. Verdade é que não há cama, mas também Roma não se fez em um dia. Contentemo-nos com o quarto, amanhã virá o resto.
— Mas, a propósito, onde vamos dormir...?
— No chão.
— Com este frio!?
— Temos ali jornais, podemos forrar o soalho com jornais.
— E para nos cobrirmos?
— O Jornal do Commercio é um magnífico lençol.
— Então vamos arranjar isso, porque eu estou a cair de sono.
— E eu também, disse Fortúnio: passei ontem uma noite de cão.
— Onde?
— Na praia de Botafogo.
— Em casa de quem?
— Numa estação de policia.
— Foste dormir em uma estação!?
— Fui, não: levaram-me.
— Por quê? Que fizeste?
— Eu? Nada, mas o Duarte é louco. Era uma hora da madrugada, íamos os dois pela rua de S. Clemente, quando o Duarte viu uma barrica abandonada. Quis fazer de Diógenes e pôs-se a rolar a barrica e teria ido com ela ao Jardim Botânico se um soldado não lhe embargasse o passo. Nós, para dizer a verdade, não estávamos muito direitos e começamos a discutir com a polícia e o resultado da discussão foi o homem zangar-se ameaçando-nos com o rifle. Diante da atitude bravia do permanente, Duarte, que não é mole, espalhou-se e atirou tal cabeçada que o soldado virou de pernas para o ar e nos... é por aqui! Mas o homem levantouse e, apitando, lançou-se desesperadamente atrás de nós e, quando íamos tomando um bonde que passava, fomos agarrados. Ah! Meu amigo, que noite! Na estação protestei, quis resistir, mas havia tantas espingardas... Quando me pediram o nome tive uma esperança e disse com arrogância:
— Fortúnio, jornalista. Mas o cabo rosnou: "Hum! É a mania de todos... Já apareceu aqui um que disse que era Fagundes Varella, outro que era o barão de Cotegipe e estava numa mona que não se lambia. Pois sim... Meta os homens no xadrez!" E lá fomos de cambulhada. Vociferei, jurei vingar-me, agarrei-me às grades, mas tive que resignar-me e fiquei com o Duarte entre uma negra bêbeda e um italiano feroz, que rangia os dentes e jurava por todas as madonas do Paraíso. Noite medonha! Às três horas entrou um sujeito que fora encontrado tentando arrombar um quiosque. Que lamúria! Esse não esteve calado um segundo. "Aí está, um homem vai com o seu dinheiro procurar alguma coisa para comer e vem um camarada dizendo que a gente está arrombando o quiosque... Eu, ladrão! Seja tudo pelo amor de Deus! Ai! Ai! E ainda por cima trazem a gente para um chiqueiro destes, cheio de pulgas... Isto até faz mal. É por estas e outras que há tanta febre amarela no Rio de Janeiro, pois não limpam o xadrez como é que a gente há de ter saúde? Um homem sai daqui direitinho para o Caju. Ai! Não é pela prisão... Quantos homens importantes têm sido presos? O Tasso... E o Tasso era um poeta supimpa! Eu só me zango porque me tomaram por gatuno. Há muita injustiça neste mundo de Deus! Um homem velho, doente, arrombando quiosques..." Depois implicou com o italiano que, cochilando, caía sobre ele: "Chega pra lá, mussiú..." E, de uma vez, atirou tamanho murro repelindo o dorminhoco que, se um soldado não acudisse, teria havido uma cena terrível, talvez sangue. Por fim, cansado, adormeci. Mas de manhã, quando tivemos de subir à presença do delegado, entre praças, no rol dos vagabundos, pela praia de Botafogo... Ah! Anselmo, quase morri de vergonha. Bondes passando, gente conhecida... Um horror! felizmente o subdelegado conhecia o Duarte, depois de muitos conselhos, mandou-nos em liberdade, mas eu fiquei sem quinze mil réis que levava.
— Furtaram-te?
— O escrivão pediu-mos sob promessa de liberdade. Estou morto. — Vamos dormir.
Estenderam os jornais, um ficou com o almanaque de Laemmert e, cobrindose com as largas folhas do Jornal do Commercio, adormeceram profundamente sobre a imprensa da capital.
Acordaram com o rumor das carroças que desciam a rua, aos trancos. Fortúnio estirou os braços preguiçosamente e saiu em exploração pela casa, com esperança de encontrar um banheiro; mas apenas existia uma bica avara e os dois resignaram-se a uma fusão ligeira, dizendo Anselmo, com mau humor, sacudindo a água do rosto, como quem sacode o suor:
— Bem se vê que esta casa foi construída pelo Teixeira. O monstro é tão entranhadamente patriota que, apesar de viver no Brasil há trinta e cinco anos, ainda tem no corpo terra de Portugal. Vejam isto — um prédio, com pretensões a palácio, sem banheiro.
Voltando ao quarto rasgaram as camas e os lençóis e Anselmo teve curiosidade de ver o que havia na lata.
— Há ali alguma coisa, Fortúnio; vamos ver?
— Cuidado! Talvez sejam ossos de algum parente do Teixeira.
— Se forem ossos põe-se ali um epitáfio. Vou ver... E, sem mais hesitar, abriu a lata, lançando aos ares uma exclamação ruidosa.
— Que é? Ouro?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.