Por Coelho Neto (1906)
E levava a criada, como que a expulsava para que não tivesse tempo de ver a pobreza de onde ela saíra, a casa dos seus e, como a rapariga levantasse piedosamente o lenço que encobria o rosto da finada, ela pareceu envergonhar-se da própria morta e despachou-a mais apressada: Vai!
— Deus lhe dê o reino do céu.
— Amém, — sussurraram as duas mulheres.
Já na rua a criada ainda perguntou:
— E é só?
— Só.
— Boa noite!
E o carro partiu com estrépito na rua calada e deserta.
Violante não resistiu à fadiga e adormeceu recostada ao sofá. Mamede, a pretexto de arranjar cigarros, saiu. Paulo rondava o cadáver, mas como a mulata fosse ao interior da casa, seguiu-a disfarçadamente deixando a vizinha de guarda ao corpo. Quando Ritinha o sentiu voltou-se.
— Que é que o senhor vem buscar atrás de mim?
— Você fica comigo ou não? — interpelou sem preâmbulos.
— Sei lá! Mas agora é que o senhor quer tratar disso? Vá para a sala. Temos muito tempo.
— Não, eu quero que tudo fique decidido já. Mamede está aí, ele há de querer continuar contigo e eu não estou disposto. Escolhe: ou ele ou eu.
— Já disse que temos muito tempo. — Não, não!
A mulata quis passar, ele tomou4he a frente:
— Hás de dizer...
— Oh! meu Deus! que homem! Pois o senhor nem respeita o corpo de sua mãe!?
— Que tem uma coisa com outra? Tu o que queres é fugir do assunto, mas eu não sou tolo.
Ameigando-se sussurrou:
— Somos agora nós dois, és a dona da casa, senhora de tudo. Eu quero resolver a minha vida. — se ficas comigo, continuo aqui, se não vendo tudo isto e tomo um quarto.
— Pois deixe a casa como está.
— Ficas comigo?
— Fico.
— Então sim. E Mamede? Como há de ser?
— Como há de ser...?! Eu digo que não quero mais saber de estalagem, que estou muito bem. Isso fica por minha conta. Mas vá lá para a sala — sua irmã pode acordar e essa mulher do lado tem uma língua muito comprida.
Verdadeiramente Ritinha hesitava entre os dois homens — um atraía-a pela vida aventurosa, de ousadia e troça: sentia-o forte e lembrava-se, com saudade, dos dias felizes que passara com ele quando, com um pouco de dinheiro, entrava a alegria em casa. Tinha orgulho em ser dele, um valente de fama, chefe de malta temido. O outro era um fraco, mas dispunha de recursos, podia garantir-lhe a tranqüilidade e adorava-a. Precisava cuidar de si... Depois, se tivesse um capricho, que custava? Não fora amante de Paulo enquanto vivera com o Mamede?
O mulato não a estimava. Se a estimasse não teria procedido como procedera. Um brigador como ele que, por qualquer coisa, puxava a navalha, depois de tanto rondar a casa... nem nada. Prosa! E a mulata sentia-se melindrada com a submissão do amante — preferia, talvez, que ele a houvesse maltratado, ferido, ameaçado com armas àquela quieta, resignada condescendência com que se portara. Assim, que se arranjasse...
Quando tornou à sala Violante, que despertara, estava à janela olhando o mar, tremulamente de luzes. Paulo contemplava o corpo e a vizinha, acaçapada na cadeira, a cabeça descaída, a boca aberta, dormia com um silvo nasal.
À hora do enterro, quando fecharam o caixão, Violante, que se vestira de preto, um rico vestido de gorgorão, rebrilhante de vidrilhos, teve uma crise de lágrimas beijando desesperadamente a face lívida, as mãos engelhadas da finada.
A vizinha arranjava as flores, a mulata ainda compunha o vestido ruço acomodando-o. Mamede apanhava as duas coroas, uma pobre, de flores de pano, lembrança de Paulo; outra, que viera com o caixão, de biscuit, com largas fitas roxas onde, em letras de ouro, a filha mandara colar a sua "saudade eterna", quando o homem da véspera, todo de preto, saltou de um coupé e entrou com liberdade, indo direito a Violante.
Tanto que ela o sentiu, logo calou os gemidos e, erguendo a linda face, perguntou tristemente:
— Veio o carro?
— Está aí. — E baixinho, com meiguice: Então? Está a teu gosto?
Ela lançou um olhar ao caixão que Mamede ia fechando:
— Muito bom. Não sei como te hei de agradecer tanta bondade. — E olharam-se com ternura.
— Eu queria acompanhar, mas... É a minha hora de trabalho, depois... — e sorriu, um triste sorriso em que havia a leve sombra de uma contrariedade. — Oh! já fizeste tanto...
Todos esperavam por eles e olhavam imóveis, calados. Paulo, por fim, adiantou-se:
— Vamos, Violante? Ela pôs-se de pé, choramigando, com o lenço nos olhos. Mamede saíra à porta e dois homens entraram para ajudar a levar o caixão.
Paulo, atarantado, voltou e estendendo a mão à irmã: Esperas aqui?
— Não, estou com muita dor de cabeça. — Então, adeus.
Abraçaram-se longamente.
— E aparece, Paulo. Vai lá.
O homem corroborou:
— Quando quiser. Tem uma casa às ordens. Sem cerimônia.
Ele agradeceu comovido e, como passasse perto de Ritinha, que retirava os castiçais da mesa, sussurrou:
— Até logo. Olhou em torno, apressado, procurando alguém: Que é da senhora?
— Já foi... — disse Ritinha. — Então até à volta.
E, chamando Mamede, meteu-se com ele no único carro que havia para acompanhar o enterro. E o féretro partiu.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.