Por Coelho Neto (1890)
A resposta seria violenta se houvesse saído, mas o jornal contrário apareceu calmo, sem referir-se à questão, e os da Vida Moderna entoaram o péan da vitória.
CAPÍTULO XXI
Por esse tempo o Grêmio de Letras e Artes, que já havia conseguido reunir no seu seio oito sócios dispostos a tudo, anunciou a segunda sessão. À noite, onze letrados assinaram o livro de presença e o presidente declarou que ia dar começo aos trabalhos. Fez-se um grande silêncio e foi lida a ata da sessão anterior. Logo em seguida um poeta de Niterói, já avô, pediu a palavra e, desatando um grande embrulho, anunciou a leitura de um poema.
Um calafrio percorreu a sala. Vagarosamente, o relógio da Torre de S. Francisco bateu oito badaladas quando o venerável poeta disse, com uma voz circunspecta e o gesto sóbrio de quem vai tomar uma pitada: Canto primeiro...! Às dez e meia da noite, num silêncio fúnebre, o gênio, depois de haver engolido dois copos de água gelada, anunciou: Canto segundo. O Lins dormia profundamente; Duarte, recostado, fazia castelos; Moraes arrancava fios do bigode; o presidente estava sucumbido, um dos secretários havia abandonado a mesa e, ao fundo, o Teixeira, empoado de caspa como se tivesse sobre os ombros um arminho, passeava resmungando. À meia-noite a voz do poeta anunciou: Canto terceiro. Era demais!
O Neiva deu um salto feroz:
— Heim! Canto terceiro!? Não! Você está enganado.
O Moraes rugia e Fortúnio, muito calmo, estirou os braços bocejando.
— Vou-me embora! — disse o Moraes.
— Faltam apenas quatro cantos, explicou timidamente o poeta.
— Quatro cantos! — exclamou o Neiva. E o cavalheiro pensa que eu não tenho trabalho para ficar aqui até depois de amanhã às suas ordens? Ora, meu amigo.
— Mas eu estou com a palavra.
— O senhor está com a palavra e eu estou caindo de sono.
— Senhor presidente, decida: Os meus dignos consócios entendem que a hora vai muito avançada.
— A hora está correndo... para fugir do poema, disse Fortúnio.
E o poeta continuou:
— Peço a V. Exa. que me garanta a palavra para a sessão seguinte.
— Não apoiado! — exclamou o Neiva e outros bradaram:
— Não apoiado!
— Como não apoiado? É do regimento...
— Qual regimento. Para um caso como este só um regimento de polícia. Peço a palavra, Sr. Presidente.
Mas o presidente dormia e foi necessário que um dos secretários o sacudisse para que ele desse atenção ao Neiva que gesticulava, trepado em uma cadeira.
— Tem a palavra o Sr. Francisco Neiva.
— Sr. Presidente, peço a V. Exa. que suspenda a sessão. É mais de meianoite, as nossas famílias já devem estar alarmadas, e eu estou com fome. Não jantei ainda, saí da Ilha das Flores e vim logo para aqui. Mas se soubesse que havia uma cilada, palavra de honra: não me apanhavam.
— Cilada?!
— Pois não, Sr. Presidente: três cantos de um poema maior do que a paciência de um santo. É necessário que V. Exa. ponha cobro a tais escândalos. Se começam a fazer pilhéria como a de hoje, não dou nada pelo grêmio. Eu serei o primeiro a pedir demissão... Ah! Não há dúvida!
— Eu não sabia que os senhores não gostavam de versos.
— Perdão, gostamos de versos, mas detestamos essas coisas que o senhor fez com o propósito criminoso de destruir a obra do nosso esforço.
— Como?!
— Como!? Dando cabo da paciência dos sócios. Olhe, ali naquele quarto há dois dormindo a sono solto, aqui dormiram todos, menos eu porque queria ver até onde ia a sua coragem: foi até ao canto segundo e iria ao décimo se não protestássemos. Ora, meu amigo, ao menos por condescendência...
— Vá ser poeta assim para o diabo! — rosnou o Moraes.
— Meia resma de papel!
— Mas eu pedi licença.
— Pediu licença para ler um poema, mas não disse que era um absurdo, uma cacaria métrica.
— São alexandrinos.
— Alexandrões! Há versos ai que têm mais pés do que uma escolopendra. Senhor Presidente, meus senhores, boa noite!
Diante da disposição do Neiva o presidente suspendeu a sessão.
Para Fortúnio e Anselmo o Grêmio foi uma instituição providencial: não lhes deu glórias literárias, mas que sonos magníficos ali dormiram os dois! Certa noite, depois de uma tumultuosa sessão, como chovesse a cântaros, foram os dois entender-se com o Teixeira, chamado o "mar Cáspio", título alusivo à carambina que lhe caía da cabeça branqueando-lhe o casaco, para que lhes permitisse ficar em um dos quartos, que era chamado o arquivo e onde apenas havia jornais, um almanaque de Laemmert e uma Igta pequena a um canto. O Teixeira, que era o zelador do Grêmio, não o queria ver transformado em albergue noturno e resmungou. Mas os dois boêmios, com argumentos fortes e pondo-se logo à vontade, convenceram-no. O arquiteto saiu recomendando o maior cuidado e que não acendessem cigarros com os preciosos autógrafos que havia na pasta.
— Não há dúvida, Teixeira: dormiremos tranqüilamente e, se não houver um terremoto, hás de encontrar amanhã a casa como nola confias e Deus no céu levará ao teu ativo dois sonos repousados que vão dormir um poeta e um prosador.
— E de manhã, quando saírem, puxem a porta.
— Puxaremos a porta, Teixeira. Vai com Deus!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.