Por Coelho Neto (1906)
Só muito tarde, providencialmente, Mamede aparecera. Não tinha uma pessoa para mandar — estavam os dois sós, acompanhando-a — ele e aquela moça; a vizinha chegara depois. Demais, fora tudo tão rápido. Ainda na véspera ela conversara até tarde, muito calma; até pedira café. Uma coisa inexplicável!... e passeava arrepelando-se. Vendo, porém, que o homem sentava-se à beira da cama, oferecendo o ombro para que Violante repousasse a cabeça, retirou-se. Chegandose, então, ao cadáver, descobriu-lhe o rosto, inclinou-se com o cotovelo fincado na tábua, a fronte nas mãos, e ficou numa atitude desolada, imóvel, como pesando para uma alegoria fúnebre.
Quando Violante reapareceu todos se puseram de pé, olhando-a. Ela caminhou vagarosamente e, diante da mesa, com as lágrimas nos olhos, ficou esquecida, em contemplativa mudez. Paulo fitou-a e disse surdamente:
— Estamos sem mãe, Violante.
Mas o homem passou por ele, tocou-lhe de leve no braço.
— Dê-me o atestado, eu encarrego-me de tudo. O senhor, no estado em que está... Basta que vá à pretoria, é perto. — E, referindo-se à Violante: É melhor distraí-la. Vamos levá-la lá para dentro.
Ele concordou:
— Como queira; — e foi oferecer-lhe o braço.
Ritinha lembrou o café, era necessário para passarem a noite.
As dez horas o homem retirou-se. Violante acompanhou-o à porta, segredou muito tempo sobre o enterro, coroas, um vestido para mudar. E ele, afagando-a, desculpou-se:
— Bem sabes que não posso ficar contigo...
— Já fazes muito, meu velho. Vai, e não te esqueças. O vestido preto, sabes?
— Sei. Até amanhã. Cedo estou aqui. E descansa.
— Até amanhã.
— Até amanhã. — E, ao entrar no carro: Linda noite, hem? — É verdade.
O homem fizera sensação. Quando, depois do café, de novo reuniram-se para a vigília, Violante tomou-se o alvo de todas as atenções.
Sentada no sofá, muito quieta, mal respondendo às palavras do irmão, que referia pormenores tristes, de quando em quando suspirava. As duas mulheres, muito juntas, cochichavam.
Mamede passeava ao longo da sala, parando de instante a instante junto à mesa para espevitar uma das velas ou arranjar uma dobra do vestido da finada. A rua caíra em silêncio, o próprio mar parecia dormir.
Na pequena sala, nublada de fumo, tresandando a cera, o calor sufocava. Mamede ousou propor abrir uma janela.
— Não é melhor?
Paulo consultou a irmã.
— Que achas?
Ela encolheu os ombros:
— Se quiserem...
Logo o mulato escancarou as janelas. Uma lufada de ar entrou curvando as compridas chamas das velas e enfiou pelo corredor levando papéis esparsos.
Dentro uma porta bateu com estrondo.
CAPÍTULO XXV
Noite admirável. Nas águas mansas da baía o luar alastrava em esteira trêmula. Vultos negros de navios destacavam-se na sombra, com as lanternas altas, vizinhas das estrelas. Na fortaleza luziam focos opalescentes; longe estendia-se a iluminação do litoral fronteiro.
Um barco, todo negro, as velas abertas, deslizava. De repente entrou na zona iluminada e resplandeceu. Raro em raro um bonde passava com rumor; apitos trilavam e o murmúrio da onda na praia era suave como um respirar tranqüilo.
As velas crepitavam e, como o silêncio se fosse tomando incômodo, o mulato, mais ousado, rompeu-o:
— E é assim. A gente vai indo. Quem diria!... Parece que foi ontem que vosmecês nasceram. Eu ainda estou vendo Nhá Violante de vestido curto, puxando estica com nhozinho por causa de brinquedos. Nem vosmecês se lembram. Também eram tão pequeninos. E ela, coitada! contendo um, contendo outro, para não brigarem. Parece que foi ontem.
Violante ouvia com a cabeça inclinada ao ombro. Paulo falou lentamente:
— Tu nem te lembravas do Mamede, hem, Violante?
Ela fitou os olhos no mulato e murmurou:
— Lembrava-me.
— Qual! Estou velho.
— Nem por isso.
— Nem por isso? É porque vosmecê está me vendo de noite. — E, passando a mão na poupa da gaforinha: Cabelo branco aqui é mato. Vosmecê sim, é que está uma mocetona de pancas! Eu hoje, quando dei com vosmecê, palavra! até duvidei...
— Querias encontrar-me ainda de vestido curto, brincando com bonecas?
— Uai! Nhazinha, a gente fica com as pessoas no coração. Eu, quando falava em vosmecê, só via a menina que conheci no tempo do velho. De repente sai diante de mim um pedaço de moça, quase da minha altura. Fiquei tonto, palavra.
— E que faz você, Mamede?
— Eu Nhazinha? por aqui, cachimbando tristezas. Nem todo o mundo é feliz como vosmecê.
— Feliz, hem? Achas que sou feliz...
— Uai? Que mais então?
— Cada um sabe de si e Deus de todos.
— Isso é que é verdade! — sentenciou a vizinha.
E a conversa generalizou-se. Pouco a pouco a morta foi-se tornando esquecida. Entretidos com a palestra, só de quando em quando um ou outro lançava os olhos para o seu lado a ver se havia necessidade de cortar um morrão às velas ou de arranjar o lenço que o vento, por vezes, levantava.
Um carro parou à porta e a criada de Violante desceu com um embrulho — era o vestido que ela pedira ao amante.
— A senhora precisa de mim?
— Não, podes ir. Vai e vê lá aquilo...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.