Por Coelho Neto (1890)
Os proprietários, entretanto, não pareciam satisfeitos, porque o jornal não tinha venda e era um trabalho para o agente conseguir um anúncio. O Franco, sempre a protestar contra a miséria: — "que não havia talento possível com aquela pingadeira", aparecia, às vezes, à noite, resmungando, com a papelada numa confusão horrível e, acumulando as notas, monologava:
— Qual! Quando não se está de sorte é isto... O meu número! O meu número!... Se eu tivesse feito o meu jogo tinha estourado a banca. Mas é isso, quando não se está de sorte...
Depois o diabo daquele cabula a chorar, a chorar. Detinha-se, cravava os cotovelos na mesa, e, com as faces nas mãos, ficava olhando perdidamente: Três vezes! Parece incrível! E eu no pequeno! Pedaço de burro! É bem feito. Mas qual! Quando não se está de sorte é assim mesmo. Estão aqui as notas.
— Houve alguma coisa?
— 0 29...
— Foi preso? — perguntou Anselmo julgando que ele se referia ao idiota que escandalizava a rua do Ouvidor com os seus impropérios.
Mas o Franco amuou:
— Qual preso! Deu três vezes e eu no 8.
— Ah! Na roleta...?
— Sim, mas não jogo mais, nem uma ficha. A roleta é um jogo besta. Afinal qual é a ciência da roleta? Nenhuma, é só questão de sorte. Há três dias que não ganho um vintém, é só perder, perder. Vou dar com o basta!
— Foi às secretarias?
— Fui; pois não estão ai as notas? Não houve nada. Amanhã sim, há despacho.
— Bom, vamos trabalhar.
— Eu vou dar uma volta pelos teatros.
Saiu. Às dez horas o Maia ia ao Diário Oficial e à meia-noite, quando o paginador, saciado, declarava que o jornal estava pronto, Anselmo saía lentamente, tomava um copo de leite no Java e ia cochilando no bonde até a porta de casa e, às vezes, passando pelo quarto dó Steel, ouvia palavras sussurradas, risinhos, estrépitos de beijos e lembrava-se de Amélia com voluptuosa saudade, mas tanto que repousava a cabeça no travesseiro adormecia pesadamente como um cavador.
Apesar de todos os esforços, o jornal não lograva impor-se ao favor público e, quinze dias depois de haver Anselmo assumido á redação, os proprietários, vendo que o café continuava a baixar, zombando dos artigos violentíssimos do redatorchefe, resolveram "suspender a cesta", como disse, com muito pitoresco e muita resignação, o Franco, quando recebeu o saldo.
Voltaram os dias difíceis. Forçado a abandonar a casa da rua Marquês de Abrantes, onde se achava tão confortavelmente instalado e podendo dispor do magnífico guarda-roupa do Steel, que era janota e franco posto que, algumas vezes, franzisse o nariz encontrando na rua do Ouvidor as suas calças cobrindo as pernas magras do companheiro, Anselmo partiu à aventura como o moço Perceval, não à conquista do santíssimo cálice, mas em busca de um teto e de uma sopa que o resguardasse da intempérie e lhe saciasse a fome.
A boemia parecia haver emigrado — só o Neiva e o Lins apareciam. Ruy Vaz anunciava um romance. Havia também abandonado, não por gosto, o palacete das Laranjeiras, o amorável e penseroso arvoredo e os jantares pantagruélicos e vivia num sótão modesto com a sua musa e um cachimbo. Fortúnio também andava afastado. Bivar, com idéias científicas, ia, de quando em quando, dar uma vista de olhos ao anfiteatro e compunha poemetos. O Duarte, sempre apaixonado, contava a toda gente os seus infortúnios. O Moraes e o Artur laboravam. A Vida Moderna, em luta aberta com a Semana, saía aos sábados, tremenda, com a sua gravura pantafaçuda e os formidáveis artigos do poeta da Tarântula.
Estava travada a batalha, e, uma tarde, como se encontrassem dois grupos num botequim, correu copiosamente o caldo de cana que foi o hidromel do festim espiritual, e, diante dos burgueses aterrados, poetas de um e do outro partido recitaram, como em Wartburgo quando os bardos, tendo à frente o grande Wolfran, empenharam-se na grande luta lírica.
O Moraes, assomado, lembrava aos do seu bando o que deviam recitar e Fortúnio, com uma voz branda, disse uns versos repassados de melancolia, o Alberto respondeu-lhe com um soneto admirável. Moraes ergueu-se e os alexandrinos fortes da Guerra atroaram com o fragor de catapultas. Outro poeta bucólico veio trazendo por uma rechã, ao romper do dia, um carro de bois rangendo aos solavancos e Anselmo frenético, com os olhos despedindo raios, arregaçando as mangas do casaco, despejou sobre a mesa a sua cornucópia helênica e, de mistura com pastores que sopravam syrinx, saíram hoplitas e deuses, hetéros e pallakai, filósofos e poetas, Eschylo às voltas com Aristeu, Menandro de braço com a lúbrica Lycenion, Laís e Minerva, as bacantes e as coéforas, as eumenides e as tesmofórias e às cinco e meia da tarde, encharcados de caldo de cana, abalaram triunfalmente os daquele Parnaso onde havia um moinho de café e um homenzinho, corcunda como Thersito, que apregoava bilhetes de loteria.
A vitória ficou indecisa, mas o Moraes, querendo dar uma batalha decisiva, no número seguinte da Vida Moderna, atirou-se, com a fúria de um Ajax, sobre um dos grandes poetas do outro lado e desancou-o.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.