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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

Ao cair da tarde Paulo chamou Mamede, deu-lhe dinheiro, pediu que fosse a um hotel encomendar alguma coisa. O mulato saiu. Pouco a pouco a tristeza foi-se desvanecendo. Ritinha convidou a mulher a entrar e, já íntimas, conversavam sobre Violante. A mulher vira-a na noite da visita.

— É a filha da velha?

— É.

— Mas, pelos modos, é moça da vida?

— Saiu de casa. E foi isso que matou mais depressa a pobre de Deus.

— Bonita?

— Dizem que sim. Eu ainda não a vi.

— Com quem vive?

— Não sei.

— Com certeza vem hoje cá. Já sabe?

— Sabe. Mamede foi lá.

— Onde mora?

— Em Botafogo.

— Também já morei lá.

— A senhora?

— Sim. Morei lá com um doutor. Isto é: tive casa, ele vivia com a família, ia só à noite. Morreu e eu fui obrigada a cair nesta vida de receber todo o mundo. É o fim de todas.

— Infelizmente! — suspirou Ritinha.

CAPÍTULO XXIV

Ao jantar Paulo insistiu com a mulher para que ficasse. Sentaram-se à mesa.

O corpo ficou solitário na sala, entre as quatro velas, com Cristo à cabeceira.

Mamede fez pilhéria a propósito de um guisado de miolos: "Não, o que tinha na cabeça bastava, não queria mais..." e afastou, com repugnância, para a borda do prato, a porção que lhe haviam servido. E foi pretexto para que todos falassem de comidas, expondo, cada qual, os seus gostos.

Paulo apenas defendeu a cozinha francesa, mais saborosa e mais delicada. E reprovou a mania do empanturramento que caracteriza o brasileiro: um nunca acabar de pratos, tudo a esfriar. Perde-se até a vontade de comer.

— História, nhozinho. A gente vê logo tudo, come do que gosta. Eu não tenho paciência para estar esperando e quando vem a comida é um nadinha, no fundo do prato; é preciso a gente ter boa vista para enxergar um bife. Não há como a nossa mesa, deixe falar. Isso de francês pode ser muito bonito, mas ninguém come com os olhos. A moda é para a roupa, agora para o que diz com a barriga prefiro os costumes da nossa terra.

— Pois eu não.

— Ah! vosmecê é moço elegante.

A vizinha pensava como Mamede. "Nada de luxos. Comer é comer. Isso de pasteizinhos, saladinhas, não era com ela."

Escurecia. Mamede acendeu o gás. Só, então, lembraram-se da finada. Paulo propôs que o café fosse tomado na sala para que o corpo não ficasse sozinho. Ritinha, a pretexto de medo, pediu à vizinha que a acompanhasse.

— Não sou medrosa, mas hoje não que tenho — estou só vendo coisas, só ouvindo estalos. Parece que vou encontrar a maluca lá perto do fogão resmungando.

— Pois eu fico com a senhora.

— É favor. — E foram as duas para a cozinha.

Violante chegou às nove horas da noite, de carro. Ao entrar, vendo o cadáver hirto, de negro, as mãos enclavinhadas ao peito entre as quatro velas, ficou atarantada, a olhar para um e para outro. De repente, com um grito, arremessou-se para o corpo e derrubada sobre o peito, já rígido, da defunta, os braços molemente atirados, gania estorcegando-se, aos surdos arquejos trágicos, chamando a mãe em altas vozes. Um homem apareceu à porta, pedindo licença, muito cortês. Todo de flanela clara, botinas brancas, gravata frouxa com as pontas soltas, esvoaçando: deteve-se cerimonioso.

Já as duas mulheres, com muita meiguice, procuravam arredar Violante, cujos gritos longos, percucientes, vibravam. Levaram-na em braços para o quarto do irmão, deitaram-na, afrouxaram-lhe as roupas. Ela debatia-se, esperneava, escabujava rolando, a rilhar os dentes com um ofego d'agonia.

O homem, perplexo, torcia nervosamente os bigodes; sentindo, porém, a porta abrir-se com o vento logo a fechou, receoso de que o vissem da rua e, mais calmo, dirigindo-se a Paulo que o rondava, suspirando e limpando lágrimas, perguntou com interesse:

— Como foi?

O rapaz, com a voz sacolejada, descreveu a morte, toda a agonia da infeliz, lamentando a grande perda, a sua solidão no mundo. De repente, porém, a um grito mais agudo da irmã, notando que o homem afligia-se, franqueou-lhe o quarto:

— Entre, sem cerimônia. Minha pobre mãe!... — e precedeu-o, afastou-se escancarando a porta.

O homem agradeceu e, chegando-se ao leito, inclinou-se sobre Violante, chamando-a. As duas mulheres arredaram-se e Mamede, muito solícito, impondose, perguntou — "Se queriam alguma coisa da botica. Ia num pulo." O homem tranqüilizou-o:

— Isto passa, e sentou-se à beira da cama, afagando Violante, enxugandolhe o rosto.

Houve um momento de calma, ela pareceu haver adormecido. De repente, porém, rompeu a chorar e todos desabafaram: "Agora sim. Era disso que ela precisava." E, discretamente, retiraram-se, deixando-a só com o irmão e o amante. Quando ela recobrou os sentidos, quis ver a mãe, o homem opôs-se:

— Tem tempo. Estás muito nervosa. Descansa.

Ela, então, indagou como fora; e ao irmão:

— Por que não me mandaste dizer que ela estava tão mal? Coitada de mamãe! A que horas foi? E o enterro?

O amante consolou-a:

— Não te preocupes, há de arranjar-se tudo à tua vontade.

Paulo esmoía desculpas, muito humilde.

(continua...)

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