Por Coelho Neto (1890)
— Jogo, não por vício, por necessidade: sustento minha mãe e uma irmã. Só de casa pago quarenta mil réis e, com vinte hei de dar de comer a duas pessoas e roupa e calçado e botica, mais uma coisa, mais outra? Atirou uma cusparada por entre dentes, silvando. Faço a minha feriazinha e vou arranjando a vida. Não vale à pena ser jornalista no Brasil, não vale, repetiu meneando com a cabeça desoladamente. Gosto aí de uma moça, queria casar, mas tenho lá coragem de pedir a menina com essa bagatela? Eu, não! Quando casar quero que minha mulher apareça, não há de andar como muitas que conheço, isso não. Estou aqui esperando negócio melhor. Vim para a imprensa porque pensei que isto era outra coisa, mas logo que ache um empregozinho aí numa secretaria, mosco-me. Fincou os cotovelos na mesa e, com as mãos no rosto: O senhor não se dá com o ministro do império?
— Não.
— Mas conhece alguém que seja boa cunha para ele?
— Não, não conheço.
— É o diabo! Se eu arranjasse um lugarzinho de amanuense... Não digo que deixasse a imprensa, não, porque, enfim, isto é uma cachaça. Podia, de vez em quando, escrever o meu folhetim, o meu sonetozinho... mas contando com o ordenado certo no fim do mês. Deixe lá! Não há como a gente ser empregado do governo. No fim do mês o cobre está cantando e isso é que serve.
— E o senhor escreve folhetins?
— Não sabia?
— Não.
— Escrevo; e faço versos. Tenho aqui um soneto, se quer. E meteu a mão no bolso fundo do casaco.
Tirou um papelucho amarelado, abriu-o lentamente, pigarreou e leu, com grandes gestos largos:
À CONSTANÇA
Constança morena tu és a aurora Do meu porvir magnânimo e sublime. Se o meu verso o meu amor exprime Eu deixo aqui o meu verso, senhora.
Ontem de tarde quando a carpidora
Pomba rola, mais débil do que o vime,
Cantava a sua balada, ai! eu senti-me Capaz de acompanhá-la pelos campos afora.
Porque a vida é dor, loura criança
E eu choro tanto por ti que o meu peito Já está seco assim como o Saara.
Olha para mim, ó pálida Constança!
Vê como estou por dentro todo desfeito
Diz à minha dor duma vez: Ó dor, pára!
Dobrou o papelucho e, fitando Anselmo com ar triunfante, perguntou:
— Então, que tal?
— E o número de sílabas? E o conceito?
— Conceito! Para que isso?
— Pois não é uma charada novíssima?
O Franco bufou:
— Que charada! Trate sério. Pois eu vou lá fazer charadas à minha noiva, seu...? É um soneto e está muito bem feito. Não vejo por ai quem faça melhor.
Agora, se não quer publicar é outro caso. — Tem uns versos quebrados.
O repórter pôs-se de pé, como afrontado e, arrancando o soneto que havia descido ao bolso profundo, repetiu, com espanto:
— Versos quebrados... Onde? — Leia lá.
E o Franco com ênfase, declamou: Constança morena tu és a aurora
— Hum...
— Hum como? Então este verso está quebrado? Onde está a quebradura?
Constança morena tu és a aurora
— Vamos adiante.
Do meu porvir magnânimo e sublime.
— Voltou-se intimativo:
— Também está quebrado?!
— Não, mas é imbecil. Porvir magnânimo e sublime é asneira.
— Asneira...! Ora tire o cavalo da chuva. Então eu não sei português! Asneira, porque...! Vamos ao dicionário. Ó Maia, que é do dicionário português? O Maia esticou o beiço e bateu com uma das mãos na outra. É, já foi para o sebo... Pois se houvesse aqui um dicionário eu mostrava.
Se o meu o verso o meu amor exprime
Diga que está também errado; e pôs-se a contar pelos dedos: "S'o meu verso meu amor exprime..." Ficou pensativo, depois disse:
— Tem nove, falta uma. Baixou os olhos, de repente, erguendo a cabeça, exclamou: Mas espere, há um que tem onze, tira-se-lhe uma e passa-se para este e fica tudo arranjado.
— E... disse Anselmo que já havia lançado o título do artigo de fundo, em letra caprichosa e esbelta: Caveat!
— Vai escrever o artigo?
— Sim, vou.
— Então eu vou dar um giro; posso apanhar alguma noticiazinha fresca. Olhe, hoje há uma primeira. O senhor vai?
— Vou.
— Eu posso ir, se quiser... e faço a notícia. — Obrigado; eu vou.
O Franco foi debruçar-se à sacada e ficou a cantarolar. Por fim, resolvido, tomou o chapéu e saiu recitando:
Constança morena tu és a aurora
Do meu porvir magnânimo e sublime
Anselmo dedicou-se de coração ao jornal. Morava na rua Marquês de Abrantes, numa pensão nobre, em companhia do Steel, o antigo redator do Diário. Levantava-se muito cedo, tomava o seu banho e descia para a cidade, sentando-se imediatamente à mesa de trabalho. Escrevia o artigo de fundo, a Boemia, romance au jour le jour, a crônica do dia, redigia o noticiário e todas as seções; corrigia as notas que o Maia trazia da polícia e ainda passava os olhos pelas notícias do Franco, cuja ortografia era das mais complicadas. À noite estava derreado. Mas com que prazer, na manhã seguinte, abria o jornal e revia o seu trabalho, emoldurando a gravura central que ele sempre acompanhava de algumas palavras explicativas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.