Por Coelho Neto (1890)
Anselmo, muito grave e sisudo, conferenciou com os proprietários da folha sobre o programa político que devia traçar no artigo de fundo e sobre as idéias financeiras que havia de propugnar. Quanto à política percebeu que os homens entendiam que a monarquia era o ideal, que o imperador era o único monarca decente do universo, que S. Cristóvão era a suprema corte, que a princesa era uma santa e o conde d'Eu, um sóbrio. Das idéias financeiras nada percebeu porque os homens falaram tanto em cambiais, em estoques, em avos e em outras coisas estranhas ao seu ouvido que ele saiu do gabinete tão alheio a tudo como se acabasse de conversar com dois japões. Todavia comprometeu-se, com muita gravidade, a promover a alta do café e a cimentar o trono com a lógica formidável da sua pena. Os proprietários saíram satisfeitos e Anselmo passou à sala da redação para distribuir o serviço. O Franco, de mãos nos bolsos, passeava pela sala, fumando. Anselmo chamou-o:
— Seu Franco, o senhor tem alguma coisa?
— Não tenho nada, disse o repórter continuando a passear. Estou fazendo horas para ir às secretarias.
— Quem vai à polícia?
— O moleque. O moleque era o Maia. Eu não tenho botas de sete léguas.
Mande o moleque. Que custa? As notas estão prontas. Eu cá não vou.
— Mas vai às secretarias?
— Sim senhor, posso ir. E, à noite, aos teatros.
— E redige as notícias?
— Deus me livre! Não faltava mais nada! Por sessenta mil réis. Ora! Não redijo nada. Quem quiser que redija, eu não.
Anselmo exacerbou-se e, de pé, franzindo a fronte, com a espátula em punho:
— Mas afinal: que faz o senhor?
O Franco voltou-se.
— Que faço? Vou à secretaria do império, vou a secretaria da fazenda, vou à secretaria da justiça, vou à secretaria da guerra, vou à secretaria da marinha, vou à secretaria das obras públicas, vou à secretaria dos estrangeiros, vou à câmara municipal... ao diabo! E então? Pensa o senhor que sou de ferro? Isso não! Com o senhor Steel éramos dois, eu e o Reis; agora sou eu só para tudo... Isso não! Então paguem mais. Saio daqui estrompado para ganhar sessenta mil réis. Não está direito. Mande o moleque. Que fica ele fazendo aqui? É um vagabundo que passa os dias cochilando e chupando balas; que vá. Eu não vou, já disse, nem que me rachem.
Anselmo, mais calmo, resolveu entender-se com o Maia e chamou-o. O continuo era gago e, para dizer uma palavra, contorcia a face, escanzelava a boca como em acesso epiléptico.
— Seu Maia, você sabe ir à policia?
— Se... e... e... i... e sim se... nho... o... o... or...
— Não sabe outra coisa, um bêbedo como esse, rosnou o Franco.
O Maia lançou-lhe um olhar feroz.
— Então dê um pulo até lá e veja se há alguma coisa.
— À noite, aconselhou o Franco. É melhor que ele vá à noite, porque traz tudo de uma vez.
— Eu vou... ô... vou sem... empre à noi... te, disse o Maia.
— Pois então à noite. Mas não se esqueça.
— Nã... o es... que ... e... ço nã... o... se... e... nhor. — Pode ir.
O Maia retirou-se e o Franco, puxando uma cadeira, repoltreou-se diante da mesa de Anselmo.
— Então é o senhor só que vem fazer o jornal?
— Eu só.
— E agüenta?
— Não sei, vou ver.
— O senhor não agüenta. Olhe que esta folha come matéria que não é graça. A gente escreve, escreve, escreve e, quando pensa que tem muito, meu amigo, nem meia coluna. Vai ver. Sem um companheiro o senhor não faz nada.
— Quem sabe!
— Vai ver. Ah! Eu sei bem como se faz um jornal.
— Também eu.
— Pois não parece. O senhor arria... Se não chamar um companheiro não faz nada. Depois, meu amigo, quando a gente trabalha e vê cobre ainda vale a pena, mas aqui...?!
— Não pagam? — perguntou Anselmo sobressaltado.
— Ora! Uma ninharia. Eu ganho sessenta mil réis: e o senhor?
— Duzentos.
— Não é dinheiro.
— É pouco, concordo, mas, em todo o caso, já se vive.
— Qual! Um homem não vive decentemente no Rio de Janeiro com menos de quinhentos mil réis. Quanto pensa o senhor que eu gasto por mês? Pensa que eu vivo com esse cobre magro que levo daqui? Pois sim... Eu regulo gastar quatrocentos a quinhentos mil réis. Ah! Faço a minha feriazinha todas as noites: vou a um bico, vou a outro e pingando aqui, pingando ali, arranjo a minha feriazinha. Se eu só contasse com o jornal estava bem aviado.
— O senhor joga?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.