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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

Levantaram-se e seguiram, caminho do hotel. Justamente Anselmo chegava à porta quando esbarrou com o Lins que entrava, com um grande charuto encravado nos dentes.

— Que é isto! Tu aqui?!

— Então! Onde querias que eu estivesse?

— O Neiva disse-me, há pouco, que estavas à morte, sem fala...

— Sem vintém é que estou, desde ontem.

— Mas não estiveste doente?

— Qual doente! Não tenho nada, nem ceroulas... Estou aqui sem ceroulas. É uma vergonha!

— E com os sapatos num estado...

— Um homem de espírito não olha para os pés, murmurou o poeta.

Anselmo levantou os olhos e desatou a rir:

— Onde foste buscar esse chapéu, Lins?

— Sei lá! Apareceu-me na cabeça hoje de manhã. Era um velho chapéu de palha, de grandes abas, crivado de furos. E o boêmio explicou: Creio que serviu de alvo em alguma casa de tiro. Mas assim é bom, o ar penetra livremente e, como os médicos recomendam que se deve trazer sempre a cabeça fresca, estou contente com esta peneira. O Neiva, que havia parado a conversar com um patrício, deu um salto para a calçada quando viu o poeta.

— Tu! Donde vens? Tu és o Lins?!

— Em carne e osso.

— Pois não morreste?

— Não, como vês.

— Nem esteve doente, disse Anselmo. E tu afirmaste que o havias visitado e que ele estava sem fala.

— É exato. Mas eu sou capaz de jurar... Eu não estive ontem em tua casa, Lins?

— É possível; não garanto, porque lá não fui.

— É extravagante...!

— É macabro!

— Pois eu ontem estive contigo, por Deus! Estavas agonizando, sem fala.

Pensou: Onde jantei eu ontem, Francisco? Ah! No Daury... Então foi sonho.

— Com certeza.

— E tu? Que fizeste ontem?

— Homem, para dizer a verdade, não sei. Acordei hoje às 9 da manhã em casa de uns estudantes, na rua do Núncio. Não me interrogues: sou um poço de discrição.

— Queres jantar conosco...?

— Vá lá. Entraram.

— Pois olha, eu já tinha começado a recolher uns cobres para mandar rezar a missa do sétimo dia.

— E arranjaste alguma coisa?

— Seis mil e que...

— Pois vamos beber essa missa e vê se tiras depois para um Te-Deum em ação de graças pelo meu restabelecimento... e bebe-se também o Te-Deum.

Sentaram-se à mesa e iam começando a jantar quando Fortúnio apareceu rindo a bandeiras despregadas.

— Que é isso, homem?

O poeta sentou-se e contou, por entre gargalhadas, a "noite" do Duarte. Havia falecido uma das suas muitas apaixonadas — menina loura, de olhos azuis, quinze anos, com o doce nome de Carmen. Exaltado, o Duarte, para sopitar a grande dor, atirou-se à adega paterna e, durante três dias, encafuado entre os canteiros, bebeu e chorou desesperadamente. Na noite da véspera, inconsolável, resolveu ir visitar a noiva que se finara e abalou para o cemitério de S. João Batista conseguindo penetrar no Campo Santo.

Errou muito tempo entre túmulos sem acertar com o que escondia o formoso corpo da donzela até que, por fraqueza das pernas, rolou sobre um deles abraçando-se com a cruz. E começou a soluçar, blasfemando contra Deus, pedindo a morte e, tanto fez que, nem ele mesmo sabe dizer como, arrancou a pesada cruz do sepulcro saindo com ela como uma relíquia. Tomou o bonde, mas um soldado, desconfiando do fardo, que o poeta mal sustentava nas mãos, interpelou-o:

— Quem é o senhor?

— Eu sou o homem mais desgraçado deste mundo, camarada.

— Onde vai com essa cruz?

— Vou levá-la ao Calvário... e desabou sobre a praça chorando inconsolavelmente. Diz ele que o soldado ficou comovido, mas nem por isso o deixou ir em paz: convidou-o a acompanhá-lo até à estação e lá o Artur, em pranto, contou a cena noturna: Que efetivamente penetrara no cemitério e que arrancara a cruz do túmulo da sua amada para crucificar-se quando a saudade fosse muito forte. E o caso vem hoje contado na Gazeta, sob o título Profanação e o Artur viu, com pasmo, que a cruz era do túmulo de um comendador. — O Convidado de pedra... É ele?

— Anda por aí indignado.

— E o processo?

— Qual processo! A família meteu-se no caso. Mas é doido!

— Inteiramente. Já jantaste?

— Não.

— Janta conosco.

— Não, estou comprometido.

— É caso de amor?

— Não, qual amor... Não tenho tempo para essas coisas. Vou jantar com um carnavalesco que me pediu um puff.

— Ah! Bem. Amanhã, à noite, primeira reunião do Grêmio.

— Lá estarei. E já marcaste o dia da dissolução?

— Como da dissolução? Então não acreditas que possamos manter um centro de palestra?

— Não acredito.

— Por quê?

— Porque conheço o meio.

— Pois há de viver.

— Duvido muito. Nós não temos espírito de associação.

— Mas é necessário que tenhamos.

— Não dou dois meses ao Grêmio.

— Uma aposta! — bradou o Neiva dando um salto.

— Apostemos!

— Cem mil réis!

— Está feito.

— Não dura um mês?!

— Não dura um mês, repetiu Fortúnio tranqüilamente, e, sem mais dizer, estendeu a mão aos rapazes e saiu.

CAPÍTULO XX

No dia seguinte, às onze horas da manhã, sem almoço e sem esperança de encontrá-lo, Anselmo assumia o posto honroso de redator-chefe do Diário Ilustrado com um repórter, o Franco, e um contínuo, o Maia. O escritório era na rua da Uruguaiana, um sobrado novo, com duas janelas de frente, claro e arejado.

(continua...)

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