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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Por maior incremento no desastre, ardia também, no pátio, uma porção de madeira que ficara das arquibancadas, aquecendo as paredes próximas, ressecando o travejamento, favorecendo a propagação do fogo

O susto de tal maneira me surpreendera, que eu não tinha exata consciência do momento Esquecia-me a ver os dragões dourados revoando sobre o Ateneu as salamandras imensas de fumaça arrancando para a altura, desdobrando contorções monstruosas, mergulhando na sombra cem metros acima

O jardim era invadido pela multidão; vociferavam lamentações, clamavam por socorro. Dominando a confusão das vozes, ouvia-se o apito da policia em alarma, cortante, elétrico, e o rebate plangente de um sino, a distancia, como o desanimo de um paralítico que quisera vir. O fogo crescia ímpetos de entusiasmo, como alegrado dos próprios clarões, desfeiteando a noite com a vergasta das labaredas

Sobre o pátio, sobre o jardim, por toda a circunvizinhança choviam fagulhas, contrastando a mansidão da queda com os tempestuosos arrojos do incêndio Por toda a parte caiam escórias incineradas, que a atmosfera flagrante repetia para longe como folhas secas de imensa árvore sacudida

Quando as bombas apareceram, desde muito tinham começado os desabamentos De instante a instante um estrondo prolongado de descarga, às vezes surdo, agitando o solo como explosões subterrâneas. Às vezes, a um novo alento das chamas, a coluna ardente desenvolvia-se muito, e avistavam-se as árvores terrificadas, imóveis, as mais próximas crestadas pelas ondas de ar tórrido que o incêndio despedia As alamedas, subitamente esclarecidas, multiplicavam as caras lívidas, olhando Na rua, ouvia-se arquejar pressurosamente uma bomba a vapor; as mangueiras, como intermináveis serpentes, insinuavam-se pelo chão, colavam-se às paredes, desapareciam por uma janela Nas cimalhas, destacando-se

em silhueta, sobre as cores terríveis do incêndio, moviam-se os bombeiros

Perdido completamente o lance principal do edifício sala de entrada, capela, dormitórios todos da primeira e da segunda classes. Uma turma de salvação procurava isolar o refeitório e as salas próximas, entregando-se a um serviço completo de vandalismo, abatendo o telhado, cortando o vigamento, destruindo a mobília.

Para o terraço lateral, onde conservava-se Aristarco, impassível sob a chuva chamuscante das fagulhas, chegavam continuamente os destroços miserandos da salvação: armários despedaçados, aparelhos, quadros de ensino inutilizados, mil fragmentos irreconhecíveis de pedagogia sapecada.

A frente do Ateneu apresentava o aspecto mais terrível. De vários pontos do telhado, semelhando colunas torcidas, espiralavam grossas erupções de fumo: às janelas superiores o fumo irrompia também por braços imensos, que pareciam suster a mole incalculável de vapores no alto. Com a falta de vento, as nuvens, acumuladas e comprimidas, pareciam consolidar-se em vaporosos rochedos inquietos. As janelas do primeiro andar as chamas apareciam, tisnando os umbrais, enegrecendo as vergas. Tratadas a fogo, as vidraças estalavam. Distinguia-se na tempestade de rumores o barulho cristalino dos vidros na pedra das sacadas, como brindes perdidos da saturnal da devastação.

Nos lugares ainda não alcançados, bombeiros e outros dedicados arremessavam para fora camas de ferro, trastes diversos, veladores, que vinham espatifar-se no jardim, com um fracasso esmagamento. As imagens da capela tinham sido salvas no principio do incêndio. Estavam enfileiradas ao sereno, a beira de um gramal, voltadas para o edifício como entretidas a ver. A Virgem da Conceição chorava. Santo Antônio, com o menino Jesus ao colo, era o mais abstrato, equilibrando a custo um resplendor desproporcional, oferecendo ante os terrores a amostra de impassibilidade do sorriso palerma, que lhe emprestara um santeiro pulha.

O trabalho das bombas, nesse tempo das circunscrições lendárias, era uma vergonha. Os incêndios acabavam de cansaço. A simples presença do Coronel irritava as chamas, como uma impertinência de petróleo. Notava-se que o incêndio cedia mais facilmente sem o empenho dos profissionais do esguicho.

No sinistro do Ateneu a coisa foi evidente. Depois das bombas, a violência das chamas chegou ao auge. Do interior do prédio, como das entranhas de um animal que morre, exalava-se um rugido surdo e vasto. Pelas janelas, sem batentes, sem bandeira, sem vidraça, estaladas, carbonizadas, via-se arder o teto; desmembrava-se o telhado, furando-se bocas hiantes para a noite. Os barrotes, acima de invisíveis braseiros, como animados pela dor, recurvavam crispações terríveis precipitando-se no sumidouro.

No meio da multidão comentava-se, explicava-se, definia-se o incêndio.

(continua...)

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