Por Coelho Neto (1890)
"É verdade! Por que não hei de ir jantar em uma casa de jogo? Fortúnio come regaladamente e declara que as tavolagens têm os primeiros cozinheiros desta cidade. Que mal há nisso? Vou; não jogo, mesmo porque não tenho vintém, como e ponho-me a andar antes que a polícia me apanhe na batota. O diabo é que não conheço ninguém... Se ainda pudesse encontrar o Lins... Mas onde?!" Resolveu procurar o poeta no Castelões, mas só achou o Neiva, na última mesa, diante de uma papelada esparsa, a tomar notas.
— Salve! O boêmio fitou-o com os olhos piscos, sem pince-nez.
— Oh! Senta-te. Bebes?
— Não.
— Sabes? O nosso Lins está à morte.
Anselmo deu um salto na cadeira.
— Como?! Se ainda ontem estivemos juntos.
— Pois, meu amigo, já está sem fala. Estou chegando da casa dele. Nem me reconheceu.
— Mas que tem?
— Sei lá! Congestão ou coisa assim. E, pondo o pince-nez, bramiu com os olhos rutilantes: Extravagâncias! Vocês não me querem ouvir. Vivo aqui a bradar, como um João Batista, contra as extravagâncias e todos pensam que estou a fazer pilhéria. Seu Lins é um homem fraco, doente, pois ontem, à noite, em vez de tomar o seu conhaque do costume, entendeu que devia experimentar um sorvete. Sorvete!
Neste país...! O resultado aí está: não escapa. Os médicos não têm esperança de salvá-lo.
— Então é grave...?
— Se estou a dizer que já perdeu a fala.
— Vou vê-lo.
— Deves ir.
— Onde mora ele?
— Fora de portas; nos confins da rua do Senador Pompeu.
— E eu vinha aqui procurá-lo para ir com ele a uma casa de jogo.
— Hein?! Vais jogar?
— Qual jogar! Não tenho um vintém: ia jantar.
— Ias à ficha de consolação.
— É verdade.
— Janta comigo, queres?
— Onde?
— Ali defronte, no Londres.
— Pois vamos.
— Mas espera um instante, deixa-me arranjar esta papelada... Posso morrer de uma hora para outra e não quero comprometer umas tantas senhoras que me amam. Estou agora com seis complicações: duas no largo do Rocio, uma na rua do Lavradio, outra na rua do Riachuelo, ainda outra no Daury e uma senhora honestíssima em Paula Mattos...! Ah! Meu amigo, só a minha paciência, só a minha paciência! A de Paula Mattos, então, é uma fera! Quando apareço tarde desaba em cima de mim como uma avalanche, e são beijos, e são lágrimas e são dentadas. Um desespero! Tenho o corpo como um mapa-múndi. Sou um homem tatuado pelo amor. Ontem fui ao cabeleireiro e o homem esfregou-me a cabeça com uma loção não sei de que, pois, meu amigo, quase me matam, as seis! Foi um trabalho para convencê-las de que eu saíra de um salão de cabeleireiro e não da câmara de uma rival, e à noite, estava amassado, triturado... um horror! Não te metas com mulheres ciumentas, mira-te neste espelho e, arregaçando a manga do casaco, mostrou o braço manchado, denegrido. E isto não é nada, se visses o resto choravas; é um horror! Mas que hei de fazer? E a despesa? Uma quer frutas, outra quer camarotes, outra reclama um leque. A de Paula Mattos anda a perseguir-me por causa de um chapéu que viu na Douvizy e seu Neiva que cave! Já ando atordoado, não sei mais como arranjar dinheiro. Toma alguma coisa.
— Vou tomar um Xerez.
— Olha um Xerez aqui!
— E o Grêmio, Neiva?
— Vou tratar disso. Hoje mesmo decido a questão da casa. Já amanhã poderemos instalar-nos. Era uma necessidade. Em toda a parte os homens de letras têm um centro onde se reúnem. Aqui, não: ou a rua do Ouvidor ou o botequim. É uma vergonha. E querem que haja solidariedade. Vamos levar isso a efeito: é uma idéia que nos pode trazer magníficos resultados. Atirou a mão espalmada à coxa do companheiro: Seu Anselmo, nós somos uma potência. Se nos uníssemos, se não andássemos em eterno sismo provocado pela vaidade, porque cada qual se julga o maior, o pontífice das letras, já teríamos feito alguma coisa, entanto não valemos nada. Uma das causas da decadência literária, talvez a principal, é esta maldita rua do Ouvidor. Vocês mal saem do banho frio, ainda molhados, engolem, às pressas, a xícara de café e correm para aqui e aqui passam os dias bebericando, elogiando-se, discutindo sonetos e crônicas ou farejando cocottes. Que diabo! Não é assim que se faz um artista... Trabalhem, dêem algumas horas ao livro, façam alguma coisa a sério, deixem este maldito vício da rua do Ouvidor.
— E tu?
— Perdão, eu não sou escritor, nem me apresento como tal — eu sou um folhetinista oral: a rua do Ouvidor é o meu rodapé. Eu faço com a palavra o que vocês fazem com a pena, com a diferença, porém, de que eu estudo e vocês espreguiçam-se, bocejam inertemente.
— Tu estudas?
— Não faço outra coisa. Os meus livros andam encadernados em cheviotes, em flanelas, em sedas; há alguns brochados: são os miseráveis. Cada tipo dá-me um folhetim, cada vida, a mais simples, dá-me assunto para falar uma hora. Vivo a dizer verdades. Bem sei que a minha obra é precária, mas há de ficar o benefício. Falo: a minha enxada está aqui e, espichando a língua, tocou-a com o indicador.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.