Por Raul Pompéia (1888)
... Estou numa grande cidade, interessante, movimentada. As casas são mais altas que lá; em compensação, os tetos, mais baixos. Dir-se-ia que o andar de cima esmaga-nos. E como cada um tem sobre a cabeça um vizinho mais pobre, parece que a opressão, aqui, pesa da miséria sobre os ricos.
A agitação não me faz bem.
Abro a janela para o bulevar: uma efervescência de animação, de ruído, de povo, a festa iluminada dos negócios, das tentativas, das fortunas... Mas todos vêm, passam diante de mim, afastam-se, desaparecem. Que espetáculo para um doente. Parece que é a vida que foge. Dou-te a minha bênção...”
Momento presente... Eu tinha ainda contra a face a mão que me dera a carta; contra a face, contra os lábios, venturosamente, ardentemente, como se fosse aquilo o momento, como se bebesse na linda concha da palma o gozo imortal da viva verdade.
“Ah! tem ainda um pai”, disse Ema, “uma querida mãe, irmãos que o amam... Eu nada tenho; todos mortos... Aparecem-me às vezes à noite... sombras. Ninguém por mim. Nesta casa sou demais... Deixemos essas coisas.
Não sabe o que é um coração isolado como eu... Todos mentem. Os que se aproximam são os mais traidores...”
A convivência cotidiana na solidão do aposento estabelecera a entranhada familiaridade dos casais.
Ema afetava não ter mais para mim avarezas de colchete. “Sérgio meu filhinho.” Dava-me os bons-dias. Sala, voltava fresca, com o grande, vernal sorriso rorejado ainda do orvalho das abluções. Rindo sem causa: da claridade feliz da manhã, de me ver forte, quase bom.
Debruçava-se expansiva, resplendendo a formosura sobre mim, na gola do peignoir, como um derramamento de flores de uma cornucópia.
Tomava-me a fronte nas mãos, colava à dela; arredava-se um pouco e olhava-me de perto, bem dentro dos olhos, num encontro inebriante de olhares. Aproximava o rosto e contava, lábios sobre lábios, mimosas historietas sem texto, em que falava mais a vivacidade sangüínea da boca, do que a imperceptível confusão de arrulhos cantando-lhe na garganta como um colar sonoro.
Achava-me pequenino, pequenino. Sentava-se à cadeira. Tomava-me ao colo, acalentava-me, agitava-me contra o seio como um recém-nascido, inundando-me de irradiações quentes de maternidade, de amor. Desprendia os cabelos e com um ligeiro movimento de espáduas fazia cair sobre mim uma tenda escura. De cima, sobre as faces, chegava-me o bafejo tépido da respiração. Eu via, ao fundo da tenda, incerto como em sonhos, a fulguração sideral de dois olhos.
E fora preciso que soubesse ferir o coração e escrever com a própria vida uma página de sangue para fazer a história dos dias que vieram, os últimos dias...
E tudo acabou com um fim brusco de mau romance...
Um grito súbito fez-me estremecer no leito: fogo! fogo! Abri violentamente a janela. O Ateneu ardia.
As chamas elevavam-se por cima do chalé, na direção do edifício principal. Imenso globo de fumo convulsionava-se nos ares, tenebroso da parte de cima, que parecia chegar ao céu, iluminado inferiormente por um clarão cor de cobre.
Na casa de Aristarco reinava o maior silêncio.
As portas abertas, todos tinham saído. Precipitei-me para fora da enfermaria.
Entre os reclusos das férias, contava-se um rapaz, matriculado de pouco, o
Américo. Vinha da roça. Mostrou-se contrariado desde o primeiro dia. Aristarco tentou abrandá-lo; impossível: cada vez mais enfezado. Não falava a ninguém. Era já crescido e parecia de robustez não comum. Olhavam todos para ele como para uma fera respeitável. De repente desapareceu. Passado algum tempo vieram três pessoas reconduzindo-o: o pai, o correspondente e um criado. O rapaz, amarelo, com manchas vermelhas, movediças, no rosto, mordia os beiços até ferir. O pai pediu contra ele toda a severidade. Aristarco, que tinha veleidades de amansador, gloriando-se de saber combinar irresistivelmente a energia com o modo amoroso, tranqüilizou o fazendeiro: “Tenho visto piores”.
Carregando a vista com toda a intensidade da força moral, segurou o discípulo rijamente pelo braço e fê-lo sentar-se. “Tu ficarás, meu filho!” O moço limitou-se a responder, cabisbaixo, possuído de repentina complacência: “Eu fico”.
Dizem que o pai o tratava terrivelmente, vendo-o apresentar-se em casa, evadido.
Com a proximidade da festa dos prêmios o caso do desertor ficou esquecido, e ninguém foi jamais como ele exemplo de cordura.
Ardia efetivamente o Ateneu. Transpus a correr a porta de comunicação entre a casa de Aristarco e o colégio.
Não havia ainda começado serviço sério de extinção. A maior parte dos criados eram licenciados por ocasião das férias; os poucos restantes andavam como doidos, incertos, gritando: fogo!
Fui achar Aristarco no terraço lateral, agitado, bradando pelas bombas, que estava perdido, que aquilo era a sua completa desgraça! Ao redor dele pessoas do povo, que tinham acudido, trabalhavam para salvar o escritório, antes que viessem as chamas. O incêndio principiara no saguão das bacias.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.