Por Padre Antônio Vieira (1670)
105. Disse Isaías a el-rei Acab, que, em prova do que lhe tinha anunciado, desde o céu até o inferno pedisse livremente o sinal que quisesse: Pete tibi signum a Domino in profundum inferni, sive in excelsum supra (Is. 7,11). E que responderia Acab? Non petam: Não pedirei tal coisa. – Assim o disse resolutamente, e assim o cumpriu. Mas porquê? Se o profeta o assegurava e exortava a que pedisse aquele sinal, e com tanta largueza de eleição quanto vai do céu ao centro da terra, porque não quer pedir Acab? Ele mesmo deu a razão: Non petam, e non tentabo Dominum: Não pedirei tal coisa, porque não quero tentar a Deus. – Tentar a Deus é querer que Deus faça o que não deve, assim como o demônio nos tenta para que façamos o que não devemos. E fez este discurso Acab: Deus é justo e justíssimo, antes a mesma justiça; eu não lhe tenho feito nenhuns serviços – porque sirvo a outros deuses – para que me faça tamanhas mercês: pois como terei eu atrevimento para lhe pedir o que me promete Isaías? Isto será tentar a Deus, e querer que o justo e justíssimo faça o que não deve. E assim me resolvo a não pedir: Nan peram. – Seja o príncipe justo, e tão constantemente justo, que por nenhum outro motivo nem respeito, dê a ninguém senão o que merecer e lhe for devido, e logo os vassalos se não atreverão a pretender as sem-razões e exorbitâncias que vemos, e se benzerão de pedir, como de tentação: Non petam, et non tentabo Daminum (Is. 7,12).
106. Oh! se os reis, tantas vezes e tão injuriosamente tentados, ao menos não consentissem na tentação! Não digo que castiguem severamente algumas petições, posto que imitariam nisto a Salomão, o qual por uma petiçãozinha – que assim lhe chamou a intercessora: Petitionem parvo Iam (3 Rs. 2, 20) – mandou cortar a cabeça a Adanias. E verdadeiramente há petições que, bem interpretadas, são libelos infamatórios dos mesmos príncipes em cujas mãos se metem. Porque, se são dolosas, como era esta de Adanias, supõem que são néscios; se são exorbitantes, supõem que são pródigos; se são contra os cânones apostólicos – como são muitas – supõem que não são católicos. E de qualquer modo que peçam o que não é justo, supõem que são injustos. Mas se, antes de fazerem as petições, supuserem e se desenganarem que nenhuma coisa hão de conseguir, senão o que ditar a inteira e reta justiça, eles se comporão com a sua ambição, e tomarão por partido o não pedir: Non petam. Notai onde está o non, e vede quanto mais conveniente é para o vassalo, e mais expediente para o governo, e mais decente para o rei, o não antes do petam, que depois da petição. É mais conveniente para o vassalo, porque melhor lhe está que, desenganado, torne por si mesmo o não, e a ponha antes das suas petições, que ouvi-lo depois delas. É mais expediente para o governo, porque, cessando o tumulto e inundação dos requerimentos, que verdadeiramente afogam, terão mais fácil expedição os negócios. E finalmente é mais decente e decoroso para o rei, porque nenhum que vier buscar o prêmio ou o remédio aos pés da majestade, se apartará deles descontente. Virão a ser por essa via todas as petições da nossa corte, como as que se despacham na do céu. Davi dizia a Deus: Intret postulatio mea in conspectu tuo (SI. 118,170): Entre, Senhor, a minha petição ao vosso conspecto. – Nas cortes da terra deseja o pretendente que saia a sua petição; na do céu deseja que entre, porque uma vez que a petição foi tal que pudesse entrar, infalivelmente sai despachada. Assim será cá também, se ninguém pedir senão o que for justo, porque o rei justo à petição justa nunca pode dizer não.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.