Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Sermões#Retórica

Sermão da Quarta-Feira de Cinza

Por Padre Antônio Vieira (1673)

Ouvi S. Paulo: Ego curro non quasi incertum (1 Cor. 9,26): Eu passo a carreira da vida como os outros homens, mas não corro como eles, ao incerto, senão ao certo. – Alude o apóstolo aos jogos daquele tempo, em que os contendores corriam até certa baliza ou meta, incertos de quem havia chegar primeiro ou depois. A meta é a morte, a carreira é a vida. E por que diz Paulo que ele corria ao certo, e não ao incerto, como os demais? Porque os demais acabam a carreira quando chegam à meta; Paulo antes de chegar à meta, tinha já acabado a carreira. Os demais acabam a vida quando chegam à morte; Paulo tinha acabado a vida antes de morrer. O mesmo Apóstolo o disse, persistindo na mesma metáfora: Bonum certamen certavi, cursum consumimavi (2 Tim. 4,7): Já tenho vencido o certame, já tenho acabado a carreira. Já? Para bem vos seja, apóstolo sagrado: mas quando? Aqui está a dúvida. Disse isto S. Paulo na segunda epístola que escreveu a Timóteo, a qual, como nota o Cardeal Barônio, foi escrita no ano quinto de Nero, oito anos antes que o mesmo Nero lhe tirasse a cabeça. Pois se a S. Paulo lhe restavam ainda tantos anos de vida, e podia viver muitos mais, como diz que já tinha acabado a sua carreira: Cursum consumimavi? Porque não esperou pela morte para acabar a vida: já tinha acabado a vida antes de morrer. E como tanto tempo antes podia dizer com verdade: Cursum consumniavi, por isso disse também com a mesma verdade: Ego curro non quasi in incertum, porque já tinha feito certo o incerto da morte. Para quem acaba a carreira da vida quando morre, é a morte incerta; mas para quem a soube acabar antes de morrer, não é incerta, é certa.

E para que vejais quão certa é, notai que entre todas as mortes certas, só esta, com que acabamos a vida antes de morrer, tem infalível e total certeza. Todas as outras mortes, ou no ser, ou no modo, ou no tempo, têm suas incertezas; só esta em si, e em todas suas circunstâncias é certamente certa. Quando por traça de Amã se publicou edito de morte contra todos os hebreus que viviam nas cento e dezessete províncias sujeitas a el-rei Assuero, diz o texto sagrado que todo Israel clamou a Deus, vendo-se condenados sem remédio à morte certa: Omnis Israel clamavit ad Dominum, e o quod eis certa mors impenderet (Est. 13, 18). Era certa esta morte, porque estava sentenciada; era certa, porque estava determinado o dia; e sobretudo era certa, porque os decretos dos reis, por lei inviolável dos persas e medos, eram irrevogáveis. Mas esta mesma morte tão certa, e que por tantas razões carecia de toda a defesa e remédio humano, alfim mostrou o efeito, que não tinha infalível certeza, porque, descoberto o engano e maldade de Amã pela rainha Ester, Assuero revogou o edito, e todos os que estavam condenados e sujeitos à morte ficaram livres e vivos (Est. 16). Tão incerta é a morte, ainda quando mais certa.

E se alguém me disser que era decreto humano e falível, e que por isso houve incerteza na morte certa, vamos a outra morte certa por decreto divino, e vereis que também nela pode haver circunstâncias de incerteza. Certus quod velox est depositio tabernaculi mei, secundum quod, et Dominus noster Jesus Christus significavit mihi (2 Pdr. 1,14): Estou certo, diz S. Pedro na sua segunda epístola, estou certo que hei de morrer brevemente, porque assim mo significou o mesmo Cristo. – Pode haver maior certeza, nem mais bem provada? Não pode. Mas ainda assim perguntara eu a S. Pedro: Apóstolo e pontífice santo: a brevidade dessa mesma morte de que estais tão certo, saber-nos-eis dizer quão breve há de ser? Se será neste ano, ou no seguinte? Se será neste mês, ou em algum dos outros? Se será neste mesmo dia, e nesta mesma hora, e neste mesmo lugar em que estais escrevendo? Nada disto podia dizer, nem afirmar S. Pedro, porque debaixo daquela certeza particular, significada e declarada por Cristo, estava ainda encoberta e duvidosa, e igualmente infalível aquela outra incerteza geral, pronunciada pelo mesmo Cristo: Quia nescitis diem, neque horam.14 De sorte que sabia S. Pedro que havia de morrer brevemente, mas o quando e onde, não o sabia; estava certo da morte e da brevidade; mas do dia e da hora não estava, nem podia estar certo; e esta é a certeza da morte que se acaba com a vida. Porém a morte em que se acaba a vida antes de morrer é tão certa em si e em todas as suas circunstâncias, que se eu me resolvo neste ponto (como devo resolver), não só sei com certeza o lugar e o dia, senão com certeza a hora, e com certeza o momento. E a razão desta diferença é a que notou Jó: Breves dies hominis sunt: numerus mensium ejus apud te est.15 O quando daquela morte, não o posso saber certamente, porque está em Deus; o quando de estoutra morte posso-o saber com toda a certeza, porque está em mim. Aquele está em Deus, porque depende só da sua vontade; este está em mim, porque a graça do mesmo Deus, que nunca falta, depende da minha.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...678910...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →