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#Sermões#Retórica

Sermão do Mandato

Por Padre Antônio Vieira (1670)

O teatro da última despedida ou aportamento de Cristo, foi o vale de Getsêmani, coberto das sombras da noite, onde tudo aspirava amor, tudo silêncio, tudo tristeza, tudo saudade. Aqui se aportou o amoroso Senhor de seus discípulos, não de todos juntamente, senão de uns primeiro, e depois dos outros. Como o golpe lhe chegava tanto à alma, não se atreveu a levá-lo todo de uma vez; foi dividindo por portes. Assim se aportou o Senhor; mas não digo bem! Avulsus est ab eis, diz S. Lucas (Lc. 22, 41): Não se aportou, arrancou-se. Tão violentamente se aportava Cristo dos homens, que o aportar-se deles era arrancar-se. Tão dentro deles estava, e tão dentro de si os tinha, que não se aportava dos seus olhos, nem se aportava de seus braços: arrancava-se de seus corações, e arrancava-se-lhe o coração: Avulsus est ab eis. Saia agora a morte com algum semelhante encarecimento, se o tem, do muito que fizesse Cristo em padecer, e diga o que dizem dela os evangelistas. Porventura chegou a dizer algum evangelista, que quando Cristo morreu, se lhe arrancou a alma? Não por certo. O Evangelista que mais disse foi S. Mateus. E que disse? Emisit spiritum: despediu a alma (Mt. 27,50). De sorte que quando Cristo morre despede a alma, e quando Cristo se despede, arranca-se dos homens. Tão fácil lhe foi morrer, tão dificultoso o aportar-se. O laço com que a alma de Cristo estava atada ao como desatou-se; os laços com que o mesmo Cristo estava atado aos homens não se puderam desatar: romperam-se. Romperam-se, rasgaram-se, arrancou-se: Avulsus est. Quantos eram os homens que havia no mundo, tantas eram as raízes que prendiam o coração de Cristo. Eram raízes de trinta e três anos, eram raízes de uma eternidade inteira, profundadas com tanto amor, regadas com tantas lágrimas, endarecidas com tantos trabalhos; e que todas essas raízes, tantas e tão fortes, se houvessem de arrancar juntas na mesma hora: Sciens quia venit hora ejus? Oh! que dor! Oh! que violência! Oh! que tormento! Cada palavra do evangelista é uma profunda ponderação desta força e desta repugnância. É possível que hão de ficar no mundo os homens, que hão de ficar no mundo os meus: Suos, qui erant in mundo? É possível que eu me hei de aportar para sempre deste mundo, onde os vim buscar: Ut transeat ex hoc mundo? Ex hoc mundo: Oh! que terrível aportamento! Hora ejus: Oh! que terrível hora! Infinem: Oh! que terrível fim! Ut transeat: Oh! que terrível transe!

Assim aportado, ou arrancado Cristo dos discípulos, começa a orar ao Padre: Pater; si possibile est; transeat a me calix iste (Mt. 26,39): Eterno Pai, se é possível, passe de mim este cálix. – Tornemos agora ao Calvário, ou torne o Calvário ao Horto. Pregado Cristo no duro madeiro da cruz, e já vizinho à morte: Sciens quia omnia consummata sunt, dixit: sitio (Jo. 19,28): Vendo que todos os tormentos se tinham acabado, disse: Tenho sede. – Sede agora, Senhor meu? Sois outro, ou o mesmo? Reparai que estes ecos do monte não respondem bem aos clamores do vale. No Horto, repugnáveis com tantas instâncias o cálix: Transeat a me calix iste; e agora, no Calvário, depois de ter bebido todas as amarguras dele, publicais a vozes que tendes sede de mais: Sitio? Sim. Porque o cálix do Calvário era um; o cálix do Horto era outro: Calix iste: este; este, e não aquele. Ora vede: S. João Crisóstomo, S. Cirilo, Eutímio, e outros Padres entendem do cálix da paixão e morte de Cristo aquele famoso texto do Salmo setenta e quatro: Calix in manu Domini: et inclinavit ex hoc in hoc. Estava o cálix na mão do Senhor, – diz Davi, – e lançou de um no outro. – Se era cálix: Calix in manu Domini, era um; se lançou de um no outro: Incuinavit ex hoc in hoc, eram dois. Que cálices eram logo estes na morte e paixão de Cristo, tão unidos que compunham um só cálix, e tão distintos que se dividiam em dois? Era a mesma morte diversamente considerada (como o Senhor a considerava) no Horto e no Calvário. Toda a morte é justamente morte e ausência: é morte, porque nos tira a vida; é ausência, porque nos aporta para sempre daqueles que neste mundo amamos. E estes são os dois cálices que Cristo distinguia no mesmo cálix, fazendo grande diferença entre a sua morte, enquanto morte, e a mesma morte, enquanto ausência. Enquanto morte, era o cálix do Calvário, onde deu a vida; enquanto ausência, era o cálix do Horto, onde se aportou dos seus. E este, e não aquele, era o cálix que seu amor recusava quando disse: Transeat a me calix iste. Prova? Sim, que me não empenhara eu em tal pensamento sem ela, e muito forte.

(continua...)

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