Por Padre Antônio Vieira (1652)
Tabulas scriptas digito Dei.24 Os outros textos eram escritos por Moisés com mão humana. Mas bastou serem Escrituras Sagradas e canônicas, para que o demônio se não atrevesse a lhes resistir. Vede se se podia e devia esperar hoje que os tentadores de Cristo se rendessem às suas escrituras, pois eram escrituras não só de Deus, mas escritas com o seu dedo: Digito scribebat. Claro está que se haviam de render, se os tentadores fossem demônios; mas não se renderam, porque eram homens. Quando os magos de Faraó viram o que obrava a vara de Moisés, disseram: Digitus Dei est hic (Êx. 8,19): Esta obra é do dedo de Deus, – e logo se deram por vencidos. Mas como assim? A arte mágica não é arte diabólica? Os magos do Egito não eram ministros e instrumentos do demônio? Pois como cedem tão prontamente, e não se atrevem a resistir ao dedo de Deus? Por isso mesmo. Se as suas artes foram humanas, e eles obraram como homens, haviam de teimar e persistir; mas como as artes eram diabólicas, e eles obravam como ministros do demônio, nem eles, nem os demônios se atreveram a resistir à força do dedo de Deus. Hoje, porém, vê-se o dedo de Deus resistido, sendo dedo de Deus não invisível e encoberto em uma vara, mas visível, vivo e animado, porque as artes com que os escribas e fariseus vieram tentar e queriam derrubar a Cristo, não eram artes diabólicas, senão humanas, nem eles, demônios, mas homens. Dos demônios dizia Cristo: In digito Dei ejicio daemonia.25 Mas esse mesmo dedo de Deus, que lançava dos corpos os demônios, não lhe bastava agora para lançar de si os homens. Os demônios, ao menor impulso do dedo de Cristo, fugiam; os homens, contra tantos e tão repetidos impulsos do mesmo dedo, quantas eram as letras que escrevia, não faziam de si nenhum abalo. Os demônios deixavam os homens, os homens não deixavam a Cristo; os demônios não podiam parar, os homens persistiam firmes; os demônios desistiam, os homens perseveravam: Cum perseverarent. Que mais?
In terra. Nota finalmente o evangelista que escrevia Cristo na terra. E por que na terra? Para que os que, esquecidos da própria fragilidade, acusavam tão rigorosamente uma fraqueza no sexo mais fraco, considerassem e advertissem que ela era terra, e eles terra. E tão própria do caso e tão natural esta consideração, que daqui veio a ter para si Cartusiano que as palavras que Cristo escreveu foram estas: Terra terram judicat: A terra acusa a terra. – Se os acusadores foram céu, não era de estranhar que acusassem a terra; mas que a terra acuse a terra! Ainda faziam mais estes tentadores. A terra acusava a terra para condenar o céu, porque acusava a adúltera para condenar a Cristo. Pois se a terra muda, e por si mesma, estava dando brados contra estes acusadores formados da mesma terra, agora que já não é muda, com as palavras e vozes de Cristo, que tem escritas e estampadas em si, por que os não confunde, por que os não convence, por que os não rende? Já me canso de dizer: porque eram homens. E se não, tornemos a comparar esta tentação com a do demônio. Assim como o elemento do homem é a terra, assim o elemento do demônio é a ar. Neste ar habitam os demônios, neste ar andam, neste ar nos tentam, e por isso S. Paulo lhes chamou potestades do ar: Secuadum principem potestatis aeris hujus.26 As palavras com que Cristo se defendeu do demônio foram pronunciadas no ar, que é incapaz de escritura; as com que se quis defender destes homens, foram escritas e impressas na terra. As palavras pronunciadas passam, as escritas permanecem; as pronunciadas entram pelos ouvidos, as escritas pelos olhos. E sendo aquelas só pronunciadas, e estas escritas, aquelas sucessivas, e estas permanentes, aquelas ouvidas, e estas vistas, aquelas breves e poucas, e estas muitas e continuadas, que isso quer dizer scribebat, aquelas formadas no ar bastaram para vencer potestades do ar; e estas impressas na terra bastaram para render os homens formados de terra: Digito scribebat in terra.
V
Os homens, ainda quando desistem, são piores tentadores que o demônio. As duas espadas dos discípulos do Senhor. Por que Cristo escreveu duas vezes? Razões de Santo Agostinho e de Santo Ambrósio. A escritura de Cristo e os heresiarcas. O demônio, como mais sábio, não voltou contra Cristo as Escrituras. Cristo, quando foi tentado, preferiu ser tentado pelo demônio a ser tentado pelos homens.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.