Por Padre Antônio Vieira (1674)
Todos estamos tentados por Deus, como Abraão: Tentat vos Dominus Deus vester. Todos estamos tentados, como ele, para fazer prova do nosso amor: Ut palam fiat utrum diligatis eum, an non. Se há quem se atreva a sacrificar o seu Isac, suba com Abraão ao monte para o imitar. E note bem a gentileza daquele grande coração e daquele braço. O formidabile spetaculum! Amor in prolem, Deique dilectio judicio contendunt, et judex ensifer instat Abrahamus; et gladio jus dicit: O formidável espetáculo! – diz S. Basílio de Selêucia. Litigavam no coração de Abraão dois amores, ambos grandes, ambos fortes, ambos dificultosos de vencer: o amor de Deus, e o amor de Isac. Por parte de Deus advogava a fé; por parte de Isac contradizia toda a natureza. E Abraão, posto no meio destes dois afetos, era o juiz que com a espada havia de pronunciar a sentença. – Tal é a controvérsia, ó cristão, que tu hás de decidir neste ponto: Utrum diligatis eum, an non. Se amas verdadeiramente a Deus, há de morrer Isac; se Isac vive, não amas a Deus. O céu por parte de Deus, a terra por parte da mundo, esperam suspensos a tua resolução. Tu és o juiz: dá a sentença. Que dizes? Sim ou não? Oh! como me parece, fiéis amadores de Cristo, estar vendo em cada um de vós outro Abraão com o braço e com a espada levantada, para cortar a cabeça a este Isac, não inocente, mas réu, não legítimo, mas adulterino, não digno de viver, mas de morrer de uma vez e acabar para sempre. Morra, morra Isac; viva, viva Cristo, viva o Diviníssimo Sacramento. Mas que é o que vejo? Não um anjo do céu, como o de Abraão, mas um anjo do inferno, que da parte do mundo e do apetite vos brada, vos tem mão no braço e vos faz cair a espada. Tal é a fraqueza de nossa fé, tal a covardia de nossos corações. Enfim este ano será como os demais, e se cumprirá a parábola inteiramente. Viverá Isac, e o sacrificado será o Cordeiro. Vós, Senhor, sereis o deixado, e o mundo o buscado e o seguido. Vós estareis aqui quase só, e Roma no corso e nos teatros.
Notou o mesmo S. Basílio, como já o tinha escrito Josefo, que Abraão teve sempre o caso em segredo, e nem quando recebeu o mandamento de Deus, nem quando aparelhou e partiu ao sacrifício, deu conta ou notícia dele a Sara. E a razão foi, diz o santo, porque ainda que Abraão venerava e tinha grande conceito da fé, da devoção e da piedade de Sara, considerou contudo o gênio feminil, e temeu que, como mulher e mãe, não tivesse valor para consentir no sacrifício: Ego quidem ejus animum suspicio, sed genium vereor. Conheceu o ânimo, mas temeu o gênio. Esta é também a razão da minha desconfiança: reverencio, mas receio: Suspicio, sed vereor. Abraão era o pai dos crentes, e Sara a mãe. O pai dos crentes teve valor para fazer o sacrifício: a mãe dos crentes não. E quem é a mãe dos crentes, senão tu, ó Roma?
§VI
O autor, com S. Jerônimo, incita Roma para que interprete seu nome. As águias e o corpo de Cristo.
Roma, eu não tenho autoridade, nem confiança, nem língua para te dizer neste caso o que sinto; mas ouve tu o que te diz com igual autoridade e eloqüência o teu Doutor Máximo, Jerônimo. No mesmo tempo em que S. Dâmaso edificava esta mesma igreja em que estamos, escreveu S. Jerônimo a Roma, a qual então andava em grande parte enganada com as larguezas e delícias que aprovava o ímpio Joveniano, mais conformes aos idólatras de Jove, de quem ele tinha o nome, que aos adoradores de Cristo; e diz assim o grande Padre:26 Urbs potens, urbs orbis domina, urbs Apostoli voce laudata, interpretare tuum vocabulum: Cidade potentíssima, cidade dominadora e senhora do mundo, cidade louvada, não por boca do teu Apolo, senão pelo oráculo de Paulo; Te alIoquor, contigo falo, e não te digo outra coisa, senão que interpretes o teu nome: Interpretare tuum vocabulum. Roma, aut fortitudinis nomen est apud graecos, aut celsitudinis juxta hebraecos. Serva quod diceris: virtus te excelsam faciat, non voluptas humilem: O grego quando diz Roma, quer dizer a forte: o hebreu quando diz Roma, quer dizer a excelsa: o cristão, acrescentemos nós, quando diz Roma, quer dizer a santa. E será bem que Roma, a forte, não resista a uma tentação tão leve? Será bem que Roma, a excelsa, se abata a uma indecência tão ridícula? Será bem que Roma, a santa, deixe a fonte da santidade por seguir a corrente da vaidade? Rir-se-á e mofará o grego; rir-se-á e zombará o hebreu; chorará e envergonhar-se-á o cristão. Pelo que, Roma minha, diz S. Jerônimo, serva quod diceris. Se te chamas Roma, sê Roma, sê forte, sê excelsa, sê santa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 15 ago. 2026.