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#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1669)

E por que vos consoleis dobradamente, não tenho nenhumas invejas aos que o mundo chama bem-despachados; sabei e saibam eles que Deus, assim como tem um não para as mercês, também tem um sim para os castigos. Entre os homens, o melhor despacho das petições é: como pede. No tribunal de Deus muitas vezes é o contrário. Deus nos livre de um: como pede, de Deus, quando os homens não sabem o que pedem. Caminhavam pelo deserto os filhos de Israel, e enfastiados do maná, e lembrados das olhas do Egito, pediram carne. Levou Moisés a Deus a petição, não porque ele a aprovasse, mas importunado do povo. E que responderia Deus? Pedem carne? Sou muito contente: faça-se assim como pedem. Não só lhes darei carne, senão muita, e muito regalada. No mesmo ponto, à maneira de chuva, começaram a cair sobre os arraiais infinitas aves de pena, que assim fala o texto: Pluit super eos sicut pulverem carnes, et sicut arenam maris volatilia pennata (SI. 77, 27). Ora, grande é a paciência e liberalidade de Deus! A uns homens tão ingratos, desprezadores do maná do céu, assim lhes concede o que pedem? A um apetite tão desordenado, tanto favor? A uma petição tão descomedida, tanta mercê? Esperai um pouco pelo fim, e logo vereis. Muito contente o povo com a chuva nunca vista das aves de pena, começam a matar, a depenar, a guisar de vários modos; assentam-se às mesas com grande festa. E que sucedeu? Adhuc escae eorum erant in ore ipsorum, et ira Dei ascendit super eos (SI. 77, 30 s): Ainda tinham o comer na boca, quando veio a ira de Deus sobre eles. Comiam das aves, e como se foram serpentes ou escorpiões, cada bocado era outro tanto veneno, e caíam mortos. Eis aqui o fim do: como pedem. Parecia favor, e era castigo; parecia mercê de Deus, e era ira de Deus: Et ira Dei ascendit super eos. Por este e outros exemplos, disse altamente Santo Agostinho: Multa Deus concedit iratus, quae negaret propitius: Deus, irado, concede muitas coisas, as quais havia de negar se estivera propicio. Se Deus estivera propicio ao povo, havia-lhe de negar o que pedia; concedeu-lho, porque estava irado contra ele. Cuidais que esse despacho tão venturoso e tão invejado é mercê? Esperai-lhe pelo fim, e vereis que é castigo.

E se Deus concede por pecados, para que os bem-despachados se não desvaneçam, também nega por merecimentos, para que os maldespachados se consolem. Ouvi um grande reparo sobre o nosso Evangelho. Pedem os Zebedeus as cadeiras; não lhas quer Cristo conceder, porque não sabiam o que pediam, como pouco há dissemos; mas antes de lhas negar, pergunta-lhes se se atreviam a beber o cálix, isto é, se se atreviam a morrer por ele, e como ele: Potestis bibere calicem quem ego bibiturus sum? Responderam ambos animosamente que sim. E porque o testemunho deste valor e serviço não ficasse só na fé dos pretendentes, o mesmo Cristo o qualificou e justificou, e lhes deu certidão autêntica de que assim era ou havia de ser: Calicem quidem meum bibetis. E depois destas provações tão miúdas e tão exatas, então lhes respondeu: Non est meum dare vobis. Pois se o Senhor lhes havia de negar o que pediam, para que lhes pede serviços? Para que lhes examina merecimentos? Para que lhes prova o valor? Para que lhes certifica a morte e o sangue do cálix? Se todas estas diligências foram feitas para sobre elas lhes fazer a mercê, bem estava; mas para negar o que pediam? Sim. Porque também o negar é mercê. E porque mercês, e mais se são grandes, se não devem fazer senão por grandes serviços, e muito justificados, por isso Cristo lhes pediu primeiro os serviços, e os justificou por verdadeiros, para lhes fazer a mercê de lhes negar o que pediam. De maneira que aos filhos de Israel concedeu-lhes Deus a sua petição por pecados, e aos filhos de Zebedeu negou-lhes Cristo a sua por merecimentos, porque no primeiro caso o conceder era castigo, e no segundo, o negar foi mercê. E como o despacho dos que se têm por bemdespachados pode ser castigo, e grande castigo, e pelo contrário, o dos que se têm por mal-despachados pode ser mercê, e grande mercê, tão pouca razão têm uns de se desvanecer, como outros de se desconsolar, pois uns e outros não sabem o que lhes deram, assim como não sabem o que pedem: Nescitis quid petatis.

§VI

Platão, Sócrates e a oração. Os pedidos de bens temporais e os males eternos. S Paulo escusado, e o demônio atendido. S. João Crisóstomo e o pedido dos Zebedeus. Os maus ministros e a justiça divina. A condenação de Cristo e dos ladrões, e a absolvição de Barrabás. Deus tem na sua mão os corações dos reis. S. Francisco Xavier e o pedido do Padre Simão. Doutrina de S. Paulo sobre a oração. A carta de Urias. A negação de Cristo e a predestinação.

(continua...)

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