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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Perdição

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Esta mansidão do fidalgo, cujo natural era bravio, tem a sua explicação no projeto de casar em breve a filha com seu primo Baltasar Coutinho, de Castro-d'Aire, senhor de casa, e igualmente nobre da mesma prosápia. Cuidava o velho, presunçoso conhecedor do coração das mulheres, que a brandura seria o mais seguro expediente para levar a filha ao esquecimento daquele pueril amor a Simão. Era máxima sua que o amor, aos quinze anos, carece de consistência para 50breviver a uma ausência de seis meses. Não pensava errado o fidalgo, mas o erro existia. As exceções têm sido o ludíbrio dos mais assisados pensadores, tanto no especulativo como no experimental. Não era muito que Tadeu de Albuquerque fosse enganado em coisas de amor e coração de mulher, cujas variantes são tantas e tão caprichosas, que eu não sei se alguma máxima pode ser-nos guia, a não ser esta: "Em cada mulher, quatro mulheres incompreensíveis, pensando alternadamente como se hão de desmentir umas às outras". Isto é o mais seguro; mas não é infalível. Aí está Teresa que parece ser única em si. Dir-se-á que as três da conta, que diz a sentença, não podem coexistir com a quarta aos quinze anos? Também o penso assim, posto que a fixidez, a constância daquele amor, funda em causa independente do coração: é porque Teresa não vai à sociedade, não tem um altar em cada noite na sala, não provou o incenso doutros galãs, nem teve ainda uma hora de comparar a imagem amada, desluzida pela ausência, com a imagem amante, amor nos olhos que a fitam, e amor nas palavras que a convencem de que há um coração para cada homem, e uma só mocidade para cada mulher. Quem me diz a mim que Teresa teria em si as quatro mulheres da máxima, se o vapor de quatro incensórios lhe estonteasse o espírito? Não é fácil, nem preciso decidir. E vamos ao conto.

Acerca de Simão Botelho, nunca diante de sua filha Tadeu de Albuquerque proferiu palavra, nem antes nem depois do disparate do corregedor. O que ele fez logo foi chamar a Viseu o sobrinho de Castro-d'Aire, e preveni-lo do seu desígnio, para que ele, em face de Teresa, procedesse como convinha a um enamorado de feição, e mutuamente se apaixonassem e prometessem auspicioso futuro ao casamento.

Por parte de Baltasar Coutinho a paixão inflamou-se tão depressa, quanto o coração de Teresa se congelou de terror e repugnância. O morgado de Castrod'Aire, atribuindo a frieza de sua prima a modéstia, inocência e acanhamento, lisonjeou-se do virginal melindre daquela alma, e saboreou de antemão o prazer de uma lenta, mas segura conquista. Verdade é que Baltazar nunca se explicara de modo que Teresa lhe desse resposta decisiva. Um dia, porém, instigado por seu tio, afoitou-se o ditoso noivo a falar assim à melancólica menina:

— É tempo de lhe abrir o meu coração, prima. Está bem disposta a ouvirme?

— Eu estou sempre bem disposta a ouvi-lo, primo Baltasar.

O desdém aborrecido desta resposta abalou algum tanto as convicções do fidalgo, respeito à inocência, modéstia e acanhamento de sua prima. Ainda assim, quis ele no momento persuadir-se que a boa vontade não poderia exprimir-se doutro modo, e continuou:

— Os nossos corações penso eu que estão unidos; agora é preciso que as nossas casas se unam.

Teresa empalideceu, e baixou os olhos.

— Acaso lhe diria eu alguma coisa desagradável?! — prosseguiu Baltasar, rebatido pela desfiguração de Teresa.

— Disse-me o que é impossível fazer-se — respondeu ela sem turvação — O primo engana-se: os nossos corações não estão unidos. Sou muito sua amiga, mas nunca pensei em ser sua esposa, nem me lembrou que o primo pensasse em tal.

— Quer dizer que me aborrece, prima Teresa? — atalhou, corrido, o morgado.

— Não, senhor: já lhe disse que o estimava muito, e por isso mesmo não devo ser esposa dum amigo a quem não posso amar. A infelicidade não seria só minha...

— Muito bem... Posso eu saber — tornou com refalsado sorriso o primo — quem é que me disputa o coração de minha prima?

— Que lucra em o saber?

— Lucro saber, pelo menos, que a minha prima ama outro homem... E exato?

— É.

— E com tamanha paixão que desobedece a seu pai?

— Não desobedeço: o coração é mais forte que a submissa vontade duma filha. Desobedeceria, se casasse contra a vontade de meu pai; mas eu não disse ao primo Baltasar que casava; disse-lhe unicamente que amava.

— Sabe a prima que eu estou espantado do seu modo de falar!... Quem pensaria que os seus dezesseis anos estavam tão abundantes de palavras!...

— Não são só palavras, primo — retorquiu Teresa com gravidade — são sentimentos que merecem a sua estima, por serem verdadeiros. Se eu lhe mentisse, ficaria mais bem vista de meu primo?

— Não, prima Teresa; fez bem em dizer a verdade, e de a dizer em tudo.

Ora olhe: não duvida declarar quem é o ditoso mortal da sua preferência?

— Que lhe faz saber isso?

(continua...)

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