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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

Alta e refeita; cabelos castanhos; testa larga e escantuda; sobrolhos pretos; pálpebras amortecidas com aquele doce cansaço do sono irresistível; faces que as rosas não deixam ser trigueiras, mas que um primoroso apreciador do belo desejaria menos carminadas; beiços arqueados pelo molde da pequena boca, ainda pequena quando o riso mostra o esmalte dos dentes; pescoço alto, quebrando em ondulações de jaspe e torneios de espáduas e noutras ondulações que o cantor da Ilha dos Amores sabia descrever lindamente colhendo nos pomares as suas graciosas analogias: tal era Ângela. Tal era?! Que presunção! Quem soube aí descrever uma beleza mediana por maneira que vingasse retratá-la no espírito do leitor? E que direi da mulher que, à feição de Ângela, sobrelevava às de mais graças o realce dum suavíssimo colorido de candidez em que transluzia alma sublimada e cheia de poéticas tristezas!

Que admira, pois, que o administrador do bairro cortejasse com afável sombra a esposa de Fialho, sendo que, já de antemão, propendia a protegê-la das iras um tanto brutas do mazorral marido?

― Minha senhora – disse ele, mandando retirar os circunstantes, menos a criada – seu marido acusa esta mulher de lhe haver roubado uns brilhantes...

― Meu marido engana-se – interrompeu Ângela. – Os brilhantes, que a minha criada vendeu, fui eu quem os mandou vender.

― Mas a sua criada confessou ter sido ela quem...

― Já sei que ela confessou; mas não creia vossa senhoria senão o que eu lhe digo. Esta mulher está inocente. Pode vossa senhoria mandá-la embora sem receio, que estou pronta a declarar por escrito que mandei vender os brilhantes da minha pulseira.

O funcionário sentia sinceramente não ter mais que fazer neste lance, em harmonia com o código administrativo. Quisera ele, com qualquer motivo judicial, prolongar a sua interferência nos negócios domésticos da linda criatura; mas não lhe ocorria coisa que lhe desculpasse a curiosidade, ou, mais exatamente, a fulminante ternura que o alvoroçara. Não obstante o acanhamento natural destas paixões de assalto, o bacharel, que não era já verde, e podia com a gravidade do aspecto honestar o intento, animou-se a entrar no mistério dos brilhantes com a seguinte pergunta:

― Vossa excelência tem bastante confiança no amor de seu marido?

Ângela pôs os brandos olhos no semblante do interrogador, silenciosa e desconfiada do intento de tal pergunta.

O administrador insistiu, esclarecendo:

― Pergunto eu, minha senhora, se, provada a inocência da sua criada, vossa excelência conseguirá explicar a venda dos brilhantes sem irritar o gênio de seu marido, motivando suspeitas...

Atalhou Ângela:

― Mandei vender os brilhantes para fazer bem a uma pessoa infeliz.

O funcionário receava transpor muito além a baliza do seu ofício, averiguando a espécie de filantropia que uma esposa honesta escondia de seu marido; mas o pecado da curiosidade, desculpado pela beleza da interrogada, esporeou-se até à indiscrição de perguntar-lhe:

― E essa pessoa infeliz é... é pessoa de quem seu marido possa... suspeitar... relações... menos louváveis?

Ângela doeu-se, ou, mais ao certo, pareceu corrida da pergunta, corando, e baixando os olhos silenciosa.

O administrador não instou, já convencido da impureza da caridade. Faltava sólida base para tal juízo; mas a malícia humana, se algumas vezes infama, adivinha outras. Desta vez, porém, o magistrado adivinhava apenas que naquele mistério o coração era grande parte.

― Bem – disse ele, violentando-se a respeitar o segredo alheio de sua alçada. – O que tenho averiguado é que vossa excelência mandou vender os seus brilhantes, e que a criada obedeceu às ordens de sua ama.

― Certamente.

― Pode portanto vossa excelência retirar-se, quando quiser, e a sua criada também. E estimarei – ajuntou ele com intencional mas delicada ironia – que vossa excelência consiga conciliar à sua boa ação a complacência do Sr. Fialho.

Deu ares de o não perceber a pálida esposa do brasileiro. Ergueu-se, e saiu. A criada, limpando as lágrimas, acompanhou-a.

VI AMIGOS DO SEU AMIGO

Já Hermenegildo Fialho estava aflito com a demora dos três parlamentários enviados à esposa. Não cuidava ele que Ângela comparecesse na polícia, ou se havia esquecido de ter concordado com a autoridade sobre a urgência da acareação entre ama e criada.

A paciência dava-lhe empurrões. Caia aquele sujeito sobre as molas das otomanas flácidas e fazia ringir os aços. Ressaltava com pasmosos saltos dum coxim para outro, e parecia tentar um suicídio por despejo da janela à calçada dos Clérigos, quando enxergou na Praça-nova Joaquim Antônio Bernardo, Pantaleão Mendes e Atanásio José da Silva.

Os solicitadores da honra de Fialho caminhavam à pressa e com ar de embezerrados. O brasileiro pregara os olhos neles, a ver se lhes lia alguma coisa nas fisionomias, cá do segundo andar onde os outros lhe viam a cara grande e escarlate como a lua dos teatros.

― O homem dá-lhe ataque apoplético! – disse Atanásio a Pantaleão.

(continua...)

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