Por Coelho Neto (1898)
Emquanto uns iam enchendo os depositos outros faziam lenha atirando-se ás arvores d'aquellas selvas virgens onde os mimosos passarinhos, longe de se assustarem, pareciam ter alegria com a inesperada presença dos navegadores porque cantavam prazenteiramente; outros atiravam-se á caça fazendo bôa provisão de lobos marinhos, manjar que lhes soube deliciosamente depois de tantos mezes que passaram nutrindo-se de conservas.
Saira o Gama com outros capitães munidos do astrolabio para, em terra, determinarem a latitude e achavam-se n'um acceitoso meandro quando lhes foram dizer que alli perto, por traz d'uma coluna, andavam dois negros recolhendo mel n'uma abelheira.
Estavam os negros socegados como quem sabia que d'aquellas praias não lhes viria mal algum e iam pelas moutas vasando o doirado licor das providas abelhas quando os portuguezes, mandados sobre elles, arremetteram, não com tanta astucia e pressa que os colhessem a tempo porque um d'elles, mais pratico nas asperezas d'aquelles caminhos, logo desappareceu assombrado ficando o outro em poder dos assaltantes.
Trazido á presença do Gama sem que mostrasse odio por o haverem aprisionado não foi possivel, entretanto, arrancar-lhe um palavra; nem aos interpretes entendia porque, ouvindo-os, não dava mostras de perceber o que diziam. Mas, acudindo ao capitão a idéa de rendel-o pela gula, ordenou a dois grumetes da nau, um d'elles negro, que o levassem a comer e a beber e tanto que isso fizeram logo ao cafre veio o desejo de communicar e, com uma mimica desabalada, poz-se a exprimir quanto podia sobre a terra e os seus naturaes.
Os marujos que o cercavam riam-se de o verem em tamanha azafama, comendo, emborcando os vinhos e gesticulando.
Terminada a refeição, como se lhe doesse deixar as victualhas que restavam, lançava á mesa olhares desejosos mas logo os retirou para os presentes que o Gama lhe offerecia constando de chocalhos e de contas rutilantes de crystal.
Com essas dadivas poz-se em terra o negro satisfeito seguindo, a correr, para a sua aringa de onde, pouco depois, tornava com uma multidão de parceiros, vindo uns agachados, como tigres, com desconfiança e medo, outros, mais atrevidos, caminhavam firmes, ostentando os seus limbos aguçados, as suas brutas adargas e as plumas com que se aformoseavam.
A todos mandou o capitão distribuir presentes e foram taes as mostras de alegria que deram e tão significativas as demonstrações de humanidade que os portuguezes acreditaram ter surgido cm terra de boa gente.
Fernão Velloso, homem d'armas, de estirpe nobre, muito dado a aventuras e grande bravateador, tanto que os vio reunidos com as suas mulheres que traziam as formas descobertas, com intenção que foi logo adivinhada e maliciosamente commentada, pedio ao capitão licença para acompanhal-os afim de ver a povoação que tinham e a vida que praticavam.
Consentio o Gama e, com os negros, partio o aventureiro formando planos faceis e na frota ficaram alguns invejosos da sua fortuna porque haviam avistado as mulheres que, não obstante a côr e os traços das feições grosseiras, tinham as seducções proprias do sexo.
Pelo cahir da tarde andava Paulo da Gama com dois bateis, á pesca, e Nicoláo Coelho dava guarda aos que recolhiam lenha ou mariscavam quando ouviram algazarra e babariso e logo avistaram o atrevido Velloso que tão contente partira sofrego, precipitado, fugindo pela encosta ingreme d'um outeiro.
O Gama, que andava com os olhos em terra, logo ordenou que acudissem ao mar homens armados e um batel largou da nau a remos acurvados mas, como o mancebo era jactancioso em contos e em prosapias, quizeram os companheiros divertir-se á sua custa e demoraram o auxilio para que maior fosse o seu tormento. Já o vozeiro dos negros atroava e indo Velloso, esfalfado, por o pé no batel que abicava, arremetteram os cafres ás pedradas e atirando os fimbos, pondo em alvoroço os homens que guarneciam o pequeno barco.
Vendo-os o Gama em perigo saio para defendel-os custando-lhe esse arrojo um ferimento em uma perna e ao mestre da sua nau e a dois marinheiros mais feridas de pouco risco.
Mas nem tão felizes foram os negros perfidos que saissem da traição incolumes porque ficaram alguns na praia alcançados pela pontaria dos besteiros.
Sentindo-se d’aquelle procedimento e estando já a frota corrigida ordenou o capitão a partida.
Fizeram-se as naus ao mar demandando o Cabo e começou a bordo a afflicção pelo terror que a idéa daquella passagem trazia aos corações. Não se tiravam os olhos do céu que se conservava sereno como se Deus quizesse levantar o animo áquella gente e o mar espelhava o céu, mas a oppressão continuava e, se o gageiro, posto nas gaveas, fazia um movimento, logo a maruja, sobresaltada, corria a cercar o mastro como, num perigo, as timidas ovelhas buscam o seu redil.
Uma onda de mais vulto que rolava era logo apontada como annunciadora de levadias e, se rangia um cabo, se estalava um madeiro logo estremeciam os homens assustados.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique. A descoberta da Índia. Rio de Janeiro: Laemmert, 1898. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43340 . Acesso em: 30 abr. 2026.