Por Lima Barreto (1922)
Considerando tal hipótese, não relutou em obedecer à irmã; mas começou a cercar Nair "por fora". Quando ela ia sair, precedia-a, ficava na porta da padaria, cumprimentava. Afinal, pôde conversar e declarar-se com a fatídica carta, que era a reprodução de um modelo que lhe dera um companheiro de malandragem, o Ataliba do Timbó, o qual, por sua vez, tinha obtido de um poeta "porrista" que morava na Piedade. Esse poeta, a quem o "intruso" Ataliba qualificava tão superiormente e de tal maneira, era o célebre Leonardo Flores, que o Brasil todo conhece e viveu uma vida pura, inteiramente de sonhos.
Enfim, a pequena Nair, inexperiente, em plena crise de confusos sentimentos, sem ninguém que lhe pudesse orientar, acreditou nas lábias de Cassi e deu o passo errado. A mãe veio a descobrir-lhe a falta, que se denunciava pelo estado do seu ventre. Correu ao Senhor Manuel, que não estava. Falou a Dona Salustiana e esta, empertigando-se toda, disse secamente:
— Minha senhora, eu não posso fazer nada. Meu filho é maior.
— Mas, se a senhora o aconselhasse como mãe que é, e de filhas, talvez obtivesse alguma coisa. Tenha piedade de mim e da minha, minha senhora.
E pôs-se a chorar e a soluçar.
Dona Salustiana respondeu amuada, sem demonstrar o mínimo enternecimento por aquela dor inqualificável:
— Não posso fazer nada, no caso, minha senhora. Já lhe disse. A senhora recorra à justiça, à polícia, se quiser. É o único remédio.
A mãe de Nair acalmou-se um pouco e observou:
— Era o que eu queria evitar. Será uma vergonha para mim e para a senhora e família.
— Nós nada temos com o que Cassi faz. Se fosse nossa filha...
Não acabou a indireta injuriosa; levantou-se e estendeu a mão à desolada mãe, como que a despedindo.
A viúva saiu cabisbaixa; e, dali, foi à audiência do delegado distrital e expôs tudo. O delegado disse-lhe:
— Apesar de estar ainda não há seis meses neste distrito, sei bem quem é esse patife de Cassi. O meu maior desejo era embrulhá-lo num bom e sólido processo; mas não posso, no seu caso. A senhora não é miserável, possui as suas pensões de montepio e meio soldo; e eu só posso tomar a iniciativa do processo quando a vítima é filha de pais miseráveis, sem recursos.
— Mas, não há remédio, doutor?
— Só a senhora constituindo advogado.
— Ah! Meu Deus! Onde vou buscar dinheiro para isso? Minha filha, desgraçada, meu Deus!
E pôs-se a chorar copiosamente. Quando serenou, o delegado mandou que um empregado da delegacia acompanhasse a senhora até em casa e ficou a pensar nas baixezas, nas dores, nas misérias que as casas encobrem e que, todo o dia, descobria, por dever de ofício.
No dia seguinte, a mãe de Nair suicidava-se com lisol. Os jornais esgravataram o acontecimento e contaram as causas do suicídio com todos os pormenores. Manuel de Azevedo, o pai de Cassi, quando leu no trem o jornal, saltou na primeira estação, voltou e entrou pela casa adentro que nem um furacão, transtornado de fisionomia, com rictus de ódio que o fazia outro homem muito diferente daquele reservado, bondoso e simpático burocrata que era.
— Quedê ele?
— Quem? — perguntou-lhe a mulher.
— Ele, esse Cassi — fez ele com os punhos cerrados, a errar o olhar desvairado, pelos quatro cantos da sala.
— Mas que há, homem? — fez a mulher assustada.
— Lê isto.
Deu-lhe o jornal, apontando o local do suicídio.
— Mas que culpa tem...
Não acabou a frase, Dona Salustiana; o marido logo a interrompeu:
— Culpa! Esse biltre sem senso moral algum; esse assassino, esse desgraçado que leva a corromper todas as moças e senhoras que lhe passam debaixo dos olhos, não o quero mais aqui, não o quero mais na minha mesa. Digalhe isto, Salustiana; diga-lhe isto, enquanto não o mato.
As filhas tinham chegado e adivinharam a causa daquela explosão de ódio e raiva, coisa rara no pai. Procuraram acalmá-lo:
— Sossegue, papai; sossegue.
Catarina, que passara os olhos pelo jornal, muito sofreu com a desonra de Nair. Lamentou sinceramente o trágico desfecho da mãe da sua discípula gratuita; e assim falou ao pai:
— Olhe, papai; eu me sinto em alguma coisa culpada, porque trouxe Nair para aqui, a fim de estudar música comigo.
Depois de uma pausa acrescentou:
— Que se há de fazer? É a fatalidade.
— Não o quero mais aqui — repetiu o chefe da família.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16815 . Acesso em: 29 abr. 2026.