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#Biografias#Literatura Brasileira

Mano

Por Coelho Neto (1924)

Uma figura inerte, de negro, estatelada, estéril, jazia apagada a um canto, como aqueles círios que ainda lá estavam, de morrões negros, também apagados, sem lágrimas.

Não parecia sentir: olhava pasmada, como alguém que se visse em um patíbulo, condenada sem culpa e, em tamanha injustiça, não achasse palavra para bradar a sua inocência.

Pobre mãe!

Aproximei-me dela, unimos os nossos corações feridos do mesmo golpe e as nossas dores comunicaram-se.

Assim um rio cresce assoberbado e na violência em que investe derruba árvores e barrancas e tais destroços represam-no até que outro rio, nele despejando-se, engrossa-o e, os dois, juntos, forçam, levam de vencida o empeço e correm alagadoramente.

Chorávamos humildes quando trovejou no estádio clamor imenso de triunfo e o coliseu longamente atroou o estrondo das aclamações vitoriosas.

Ouvindo aquele tronejo heróico lembramo-nos de tardes, outras, iguais àquela e parecia-nos que o nome proclamado estrepitosamente era o dele, dele que ali se fizera desde pequenino, brincando naquele campo, nele crescendo em força e garbo, nele batendo-se pelas cores, que eram o seu orgulho.

E seria dele o nome que ouvíamos nas aclamações ovantes da multidão em delírio?

Sim, era o seu nome, não saía do estádio, mas do fundo dos nossos corações porque, embora estrondosas, todas aquelas vozes de milhares de bocas não estrugiam tão alto como nos soavam intimamente os apelos doloridos da nossa imensa saudade.

E, no final do jogo, com o escoar da turbamulta, a nossa rua encheu-se e os que passavam, comentando os lances mais brilhantes da partida, não se lembravam do enterro que dali saíra.

E, para o seu espírito, foi melhor assim.

Era em tal alvoroço que ele gostava de ver o seu clube, cheio, empavesado, ressoando músicas e clamores. Quanta vez...

A casa, fechada, em silêncio, tremia com o rumor da rua. Pobres corações!

E a tarde daquele dia, que fora de tristeza lúgubre, desanuviara-se a pouco e pouco, galeandose do sol. Dir-se-ia que o céu despia o luto por aquele que chorava ou, quem sabe! talvez assim se transfigurava para recebê-lo festivamente.

Nós é que em nada mudamos: tal como ele nos deixou jazemos: na mesma desolação, na mesma saudade.

E como não há de ser assim se a nossa alegria era ele e ele foi-se, não torna, não tornará nunca! nunca mais!

FLORES

Não há ainda um mês que adormeceu em Deus o ser do meu ser, a minha criatura de amor e o leito em que ficou, no dormitório silencioso, já se recama de flores.

As que o acompanharam, em ramos e em capelas, fanaram-se depressa; outras substituíramnas e também feneceram; em compensação as sementes esparzidas pelo jardineiro funeral, que cuida dos pequeninos canteiros mortuários, mal lhe caíram das mãos na terra fria logo rebentaram em vida, formando uma colcha de verdura que veste e enfeita a melancolia do jazigo.

E tal colcha matizou-se de violetas e margaridas, dálias, cravinas e miosótis.

Quem terá realizado esse milagre de florescência tão rápida? as nossas lágrimas? não! Tu, só tu, Primavera.

Será o remorso de no-lo haveres arrebatado que assim te faz solicita ou pensas, por acaso, que, escondendo em teu manto o túmulo querido farás com que o esqueçamos com a indiferença da terra que sorri em flores sobre a mocidade morta?

Como te enganas, traidora!

Mais prestígio tem a saudade em nossos corações do que tu na terra, cuja vida revigoras, porque, se fazes nascer flores, ela ressuscita o que mataste, evoca-o a todo o instante, trá-lo da sombra eterna e integração na vida e só não o refaz, tal como o tínhamos, porque o corpo lá está no abismo ao qual se desce por uma escada, cujos degraus aluem sobre o incluso como as águas se fecham sobre o náufrago.

A casa está cheia dele: sentimo-lo em toda ela, presente, e, fora, em toda a parte.

Ouvimo-lo. São os seus passos, é a sua voz que impregna o ambiente e sentimo-lo quando o relógio bate, devagar, as horas: as horas em que ele acordava e vinha dar-nos os bons dias; as horas em que ele saía; as horas, lentas e longas, da sua ausência; as horas alegres que o traziam do trabalho e as em que, à noite, ele regressava à casa, cauteloso, indo sempre até o nosso leito dar-nos, na vigília preocupada em que o esperávamos, a felicidade tranqüilizadora da sua presença. Todas essas horas continuam e ele continua a viver em todas elas.

O que nos aflige é a angústia de o não podermos sentir como o sentíamos outrora.

Vemo-lo como imagem refletida em espelho, vemo-lo, mas se tentamos tocá-lo, ai! de nos.

Suplício igual ao de Tântalo é o que nos inflige a saudade.

Vê-lo, ouvi-lo no coração, senti-lo em toda a parte, tê-lo sempre presente em nós e tão distante como a mais remota das estrelas e todas as esperanças...

Temo-lo conosco, na família, que o não esquece.

O seu lugar vazio espera-o sempre.

(continua...)

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