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#Contos#Literatura Brasileira

A Partida

Por Coelho Neto (1897)

Maria abriu os olhos quando as estrelas nasciam. O cego já havia partido levado pelo menino. As cigarras cantavam vésperas. José empunhou o cajado: Maria deixou o leito agreste, e seguiram.

As últimas chamas do sol apagavam-se no ocaso e a névoa polvilhava os ares como uma cinza.

Monstruosos penhascos, talhados a pique à beira dos precipícios, avultavam temerosamente na sombra.

Palmeiras debruçavam-se sobre as rampas. Toda a vegetação retorcida, com as raízes à flor da terra, agarrando-se nervosamente às arestas dos penhascos, parecia recear aqueles despenhadeiros de onde subia atroadoramente um escachôo soturno d’águas constrangidas.

Escurecia. Os montes áridos da Judéia apresentavam-se hostis aos peregrinos.

Os caminhos, aos torcicolos, confundiam-se augustos, escavados em brocas, eriçados d’aspas calcárias, orlados de intensos espinheiros que, às vezes, como garras, detinham os viajantes pelas túnicas. Estriges voavam, pousavam nos ramos, nos penedos com gritos lúgubres.

José caminhava a passo cauteloso, sondando o piso com o cajado, detendo Maria, buscando tranqüilizá-la com palavras carinhosas.

Mas a treva adensava-se a mais e mais, os roçados confundiam-se com a sombra. Julgando seguir a estrada direita, o patriarca estendia a mão e sentia a aspereza das penhas.

- É imprudência insistirmos em prosseguir em tal escuridão, disse Maria com medo. É Deus que nos retém.

José deteve-se. Parecera ter ouvido vozes, rumor de passos, estalos de ramos secos, como se viessem outros caminheiros. Escutou atentamente. Era o vento que agitava o folhedo e eram as águas profundas que referviam nos algares.

Mas um clarão suave acendeu-se no fundo espesso do arvoredo. Quem seria? Encolheram-se os dois, olhos fitos na claridade, que se adiantava como a luz de um facho. Uma centelha passou na escuridão, outra girou nos ares, as folhas, os ramos de árvores ficaram incrustados de brasas.

Surgiram da terra, saltaram das rochas, subiram dos desfiladeiros, a espessidão estrelouse e todas as fagulhas, unindo-se, formaram uma rútila umbela pairando sobre Maria e José como a nuvem seguiu Israel guiando-o luminosamente pelo negror das noites no deserto. Eram pirilampos que voavam em ordenada falange alumiando os caminhos obscuros.

E os dois, sob o relume dos insetos, continuaram a viagem dentro dum reverbero que só ao clarear d’alva desapareceu nos ares.

PRESSÁGIO

O céu, dum azul transparente, ia-se, aos poucos, iluminando.

Os montes, em recortes rígidos, calvos, com a pedra exposta, a reluzir de umidade, ou eriçados os híspidos matos, ressaltavam em áspero, mordente relevo, com os cimos resplandecendo sob uma névoa de ouro. Docemente baliam plácidos rebanhos.

As casas abriam-se. Homens, ainda estremunhados, vinham às portas, bocejavam lançando por entre as barbas um hálito brumoso.

Sentia-se a vizinhança de Jerusalém, pelo maior número de casas, pela abundância de gado nos verdes vales, recortados pelos veios d’águas. Burricos trotavam com alcofas e ceirões de frutas.

Risos cristalinos anunciavam crianças; ouvia-se um estrepitante chapinhar e, à volta de um caminho, no claro remanso de uma ribeira, sob a acenosa ramagem do salgueiral, meninos nus saltavam, atiravam-se de mergulho, aos gritos alegres, flagelando a água com ramos ou pendurando-se, a rir, dos galhos inclinados.

Nos campos, a espaços, alvejavam sepulcros. Ovelhas pastavam em volta, pombos cercavam-nos em revoada arrulhante. Por entre a palha das choças esfiava-se o fumo azul.

Já os moinhos trabalhavam e junto aos imensos lagares, onde se pisava a azeitona, reluzia pastosamente o brulho escuro e oleoso.

Maria, que caminhava contente até aquelas paragens, à medida que avançava, sentia apertar-se-lhe o coração em presságio funesto. Olhava ansiosa os longes dos horizontes.

Tudo era calmo. A paisagem estendia-se aceitosa, cortada de muros de horto, toda verde, bem diferente dos desolados ermos que ela deixara.

Todavia a tristeza empanava-lhe os olhos, enchia-lhe o coração e já transbordava em lágrimas. Vendo-a chorar, José perguntou com meiguice: - Sentes-se fatigada? - Não, meu senhor: voltaria a Nazaré sem parar, se pudesse.

E por que choras?

Não sei. O coração aperta-se-me, um grande medo invade-me, constrange-me. Tremo esinto-me gelar. As próprias flores causam-me horror. As anêmonas parecem-me chagas que sangram. Tenho medo, um grande medo, como se fosse caminhando para a morte. Que túmulo é aquele que aparece além, tão alto, tão negro, sob o vôo dos corvos? José seguiu com o olhar a direção do gesto de Maria. - O que vês são as muralhas de Jerusalém, onde chegaremos antes do pôr-do-sol. - Além das muralhas, aquele túmulo negro, tão triste, onde agora o sol brilha. Uma velha, trazendo um jumento pela arreata, saiu ao caminho vagarosa.

José saudou-a, a velha sorriu a Maria abençoando-a e a Virgem, escondendo a tristeza num sorriso, perguntou-lhe:

(continua...)

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